Era manhã do dia 5 de janeiro deste ano, quando a pequena Maria Clara*, de apenas 4 anos, brincava com uma caixa de fósforo em sua residência. Uma faísca atingiu o sofá, revestido de nylon, e provocou um incêndio que a deixou com queimaduras de segundo e terceiro graus, levando-a a continuar internada no Hospital Geral do Estado (HGE), após ser submetida a inúmeras intervenções cirúrgicas para implantar enxertos de pele, visando reconstituir as partes queimadas.
                                                                            

Este é apenas um dos inúmeros exemplos que acontecem diariamente em todo o Estado e que aumentam durante o período junino, quando é intensificado o uso de fogos de artifícios e das tradicionais fogueiras em homenagem a Santo Antônio, São João e São Pedro. Com o início dos festejos juninos, a coordenação do Centro de Tratamento de Queimados (CTQ) do HGE faz um alerta à população para os perigos que as pessoas  correm ao manusear  fogos de artifícios, principalmente as crianças. A recomendação é evitar  acender produtos com pólvora - até mesmo os inofensivos “coqueirinhos” e “chuvinhas” - ou  se aproximar de locais onde são erguidas as fogueiras

O alerta dos médicos se baseia nas estatísticas de atendimentos a queimados registrados nos mês de junho de 2007 e 2008. Para se ter  ideia, segundo dados do Serviço de Arquivo Médico e Estatístico (Same) do HGE, nesse período foram registrados 12 atendimentos em 2007 e 17 no mesmo período do ano seguinte. Destes, a maioria aconteceu devido a descuidos  na manipulação de fogos de artifício   ou mesmo na aproximação junto a fogueiras para "assar" milho.


São casos que poderiam ter sido evitados se as pessoas tivessem adotados alguns cuidados básicos, conforme explica a coordenadora do CTQ do HGE, médica Josenilda Marques de Melo. “O principal tipo de acidente que o hospital atende é escaldadura, a exemplo de água, café, arroz, leite e sopa quentes, sendo as crianças as principais vítimas, já que elas são mais vulneráveis em decorrência da falta de atenção dos pais e responsáveis”, ressalta, ao acrescentar que “a segunda causa de atendimento a queimados se deve aos acidentes ocorridos durante a manipulação com álcool líquido, envolvendo tanto crianças como adultos”.

Fogos de artifício – Já quanto aos fogos de artifício, a coordenadora informa que no histórico dos atendimentos do HGE – que é referência para o tratamento a queimados em Alagoas – os acidentes acontecem, geralmente, em razão do uso inadequado dos produtos. De acordo com ela, de janeiro até maio deste ano, foi registrado apenas um caso de queimadura decorrente da manipulação inadequada de uma bomba, mas, no ano passado, quatro alagoanos foram internados, em estado grave, após serem vítima de explosões quando faziam uso de bombas e rojões, além de 10 atendimentos ambulatoriais, sem conseqüências consideradas graves.

Por isso, a médica recomenda que as pessoas devem evitar acender fogueiras com álcool líquido, gasolina ou querosene e que os pais devem ficar atentos sobre a potência de explosão dos fogos. Deve haver,  também, um cuidado especial no momento de comprar esses produtos, respeitando a idade de quem irá fazer uso deles, já que nas embalagens há a especificação de acordo com a faixa etária.


“Obviamente, os pais devem estar ao lado das crianças no momento em que os fogos irão ser manipulados. Mesmo quando se tratem de fogos considerados inofensivos, a exemplo do ‘coqueirinho’ e da ‘chuvinha’, pois mesmo aparentemente não perigosos, eles podem atingir a roupa incendiando-as ou atingir partes do corpo, deixando sequelas irreparáveis. Além disso, as sequelas podem causar um trauma para o resto da vida, já que o tratamento é bastante doloroso e, na maioria dos casos, deixam cicatrizes que afetam a auto-estima da vítima”, ressalta Josenilda Marques de Melo.
 
Acidentes - Em caso de acidentes, a coordenadora do CTQ recomenda que os pais ou responsáveis façam apenas uma limpeza no local queimado. Para isso, deve ser utilizada, apenas, água potável em abundância. A médica diz, ainda, que deve ser evitado o uso de outros produtos, que podem até aliviar a dor, mas irão ocasionar danos irreparáveis. “Em caso de queimaduras, os socorristas colocam manteiga, pomadas e até gelo, mas isso deve ser evitado, pois esses produtos podem intensificar a queimadura”, alerta.


De acordo com a médica, existem três níveis de queimaduras que crianças, jovens, adultos ou idosos podem ser vítimas. “As queimaduras podem ser denominadas de primeiro, segundo e terceiro graus e, cada uma delas, apresenta características específicas. As de primeiro grau, são àquelas superficiais e caracterizadas por deixar a pele avermelhada, inchada, e extremamente dolorida; as de segundo grau caracterizam-se pelo aparecimento das bolhas, que é a manifestação externa de um descolamento dermo-epidérmico e tem uma profundidade intermediária e, as de terceiro graus, provocam a morte do tecido epidérmico lesionado, sendo a mais profunda e grave”.

*O relato é verídico, mas o nome da paciente é fictício para evitar exposição.