O historiador Douglas Apratto Tenório e a museóloga Cármen Lúcia Dantas lançam sexta-feira (dia  5 de junho), às 19h, o livro “Cartofilia Alagoana – Redescobrindo o Passado”, editado pelo Sebrae Alagoas.

A noite de autógrafos será realizada na Casa Memorial Jorge de Lima, localizada na Praça Sinimbú, Centro. A obra, produzida a quatro mãos, aborda a história dos cartões postais, a paixão que eles despertam em seus colecionadores e a importância de preservá-los com o objetivo de conservar a memória iconográfica das cidades e de sua gente.

De seu lado, Apratto rememora a trajetória dos primeiros cartões postais criados em 1869, pelo austríaco Emmanuel Hermann, até sua consagração como meios de comunicação - em uma  época anterior à difusão do cinema, telefone, rádio ou TV.

“No Brasil, o bilhete postal, como era conhecido no início, trazia estampadas as Armas do Império, o que lhe concedia o caráter oficial por ter sido impresso pelo Correio, a mando do imperador Dom Pedro II, um entusiasta das inovações”, conta o historiador. Segundo ele, em poucos anos, devido à grande aceitação, os postais impressos por empresas particulares começaram a aparecer e a circular livremente. Alguns deles, sobretudo os mais antigos, eram impressos na Europa.

“Fotógrafos de apurado olhar lhes dedicaram um espaço especial, formulando séries temáticas que hoje enriquecem coleções e são disputadas como peças de rara importância. Entre esses fotógrafos destacam-se no Brasil, Guilherme Gensly, Marc Ferrez e Augusto Malta que mantiveram um olhar voltado para a simplicidade da vida cotidiana em São Paulo, Rio de Janeiro e em outras capitais brasileiras, entre elas Maceió, em uma época em que o dia-a-dia dessas grandes cidades ainda possuía uma atmosfera de romantismo e tranquilidade”, diz Douglas Apratto.

Para o historiador, os cartões postais representam verdadeiros documentos da evolução material de uma sociedade, dos seus monumentos e seu urbanismo.

“Não por acaso, o historiador Vicente Chermont afirma em um trabalho sobre o tema que a história é mais conhecida pelas imagens do que pela escrita. Elas permitem não só uma volta ao passado recente, ou longínquo, mas igualmente a identificação objetiva dos fatos, em etapas diversas, que ajudarão os pesquisadores em seus estudos sobre determinados sítios”, analisa Apratto, mencionando que os cartões postais apontam transformações que não persistiram e outras que vingaram, ainda que em contradição com o projeto original.

De acordo com o professor, os postais logo caíram no gosto das pessoas letradas. Boa parte da população os conhecia, manuseava, colecionava  ou fazia uso dele.  Apesar de os primeiros a circular no Brasil serem produzidos na Europa, gráficas nacionais do Sul passaram a confeccionar os seus e mesmo em Maceió a Typographya Commercial e a Typographya Trigueiros ganharam espaço no mercado.

 “Podemos dizer que em Alagoas o conceito de turismo começou a ser desenhado com a chegada desse instrumento de comunicação, pois além de conhecer as belezas famosas de outros lugares do Brasil e do mundo, o postal despertou a sensibilidade do alagoano para as nossas paisagens e atrativos”, afirma.

E entre as mais recorrentes imagens ilustrativas dos postais alagoanos estão a praia da Ponta Verde, a lagoa no Trapiche da Barra, o Gogó da Ema, o casario colonial de Penedo, além de edificações que ainda fazem parte da atual paisagem urbana como o Teatro Deodoro, o Palácio dos Martírios e o Museu Théo Brandão – que já foi um hotel.    

Viagem ao passado - Cármen Lúcia Dantas, por sua vez, enaltece em seu texto a sensação de retorno ao passado que é proporcionada pelos cartões postais. Na visão dela, eles são excelentes fontes complementares do estudo da história, desde o início de sua circulação até o advento da mensagem eletrônica, quando passaram a ter uso mais restrito na sua forma original.

 “O sociólogo Gilberto Freyre foi um dos primeiros intelectuais a perceber a importância dos antigos selos postais. Ele acreditava que através dessa comunicação postal o pesquisador tem em mãos uma radiografia de época, com temas variados que se multiplicam e, díspares, que vão do amor à guerra”, diz.

A museóloga  considera os postais ícones da resistência, sintonizados com sua época. “Ficam como legado e ao mesmo tempo vão se atualizando, de acordo com a dinâmica social dos novos tempos, Ajustam-se à história da geração que os produz”, destaca. Ela explica que para os colecionadores, os postais são valorizados não apenas pelas imagens que apresentam em seus anversos, mas também pelas mensagens contidas em seus reversos.  

“O tempo está neles fixado em ambas as faces, mostrando, na mensagem e na estampa, rastros que ajudam a encontrar as várias pecinhas do tabuleiro da memória e das relações interpessoais”, diz. Para ela, a paisagem retratada chega de longe e instiga a imaginação de quem recebe, mas a tinta preta, seca pelo mata-borrão, é reveladora dos tempos em que a pena corria sem pressa no branco do papel. “Os cartões borrados pela penas ou canetas tinteiros são valorizados pelos cartofilistas, assim como aqueles marcados por carimbos e selos”, diz.

Cármen afirma que os postais também denunciam o pouco apego nacional ao nosso patrimônio histórico urbano porque as imagens do passado retratadas neles revelam que as cidades seguem o ritmo do tempo, enquanto monumentos, residências e logradouros se submetem ao destino que os homens lhes impõem.

“Ficam à mercê das transformações e adequações a novos usos, quando não são irremediavelmente destruídos. Não há no Brasil a cultura de preservação do centro histórico, deixando que a cidade se estenda por novas áreas em natural expansão territorial. A prática é a da desfiguração desses centros e construção de uma nova história, sem o respeito à linha de continuidade. Por isso mesmo, os cartões-postais exercem importância fundamental na recomposição da sequência histórica”, frisa.