Já se vão quase 15 anos desde que Nando Reis lançou seu primeiro disco solo, “12 de janeiro”, em 1995, quando ainda era baixista dos Titãs. Mas parece que só agora o cantor e compositor paulistano se afasta do rótulo de MPB que o acompanhou por boa parte de sua careira solo em seu recém lançado quinto álbum de estúdio, “Drês”.

“Acho que isso de MPB começou no meu primeiro disco, que era um contraponto a o que os Titãs faziam na época, gravando o pesado ‘Titanomaquia’”, diz Nando em entrevista ao G1. “Enquanto isso eu compunha com a Marisa (Monte) – um trabalho que talvez tenha como melhor parâmetro o som dos Novos Baianos”.

Isso não significa que esses rótulos deixem o cantor confortável. “Nenhuma dessas associações me desagrada, até porque nenhuma delas me representa. Sempre acabo brincando, dizendo que eu faço ‘música ruiva’”.

Com uma gravação enxuta e esmerada, “Drês” segue uma assinatura que Nando desenvolveu ao longo de sua carreira, fortemente influenciada pelo rock da década de 70. “Eu curto muito essa época. Nasci em 1963, então nos anos 70 eu estava ouvindo muita música – meus pais, eu e meus irmãos comprávamos muitos discos, assisti a vários shows. Isso está impregnado em mim”.

Artesanal

Nando, que se considera um “compositor artesanal” enxerga uma outra vantagem nessa abordagem setentista. “Existe um campo timbrístico, uma intensidade, um tipo de execução musical daquela época que nos interessa muito – além de uma preocupação em reproduzir ao vivo o que gravamos no disco. Então essa acaba sendo a nossa sonoridade”.

A referência na primeira pessoa do plural não acontece à toa. A base da banda atual do cantor, Os Infernais, foi formada em 2000, durante a turnê do disco “Para quando o arco-íris encontrar o pote de ouro”. O álbum contava com o tecladista norte-americano Alex Valley (além de Barret Martin, dos Screaming Trees, na bateria), e para a turnê foram recrutados o baixista Fernando Cambraia e o guitarrista Carlos Pontual.

Exceto Martin, todos os músicos permanecem na formação da banda que gravou “Drês” e que segue na estrada com Nando. “O mérito deste disco vai para todas as pessoas envolvidas – cada um sabia o que estava fazendo”, explica o compositor. “Para preparar esse disco nós ficamos duas semanas na minha casa em Ubatuba, todos convivendo, fazendo as refeições juntos, sem horário para ensaiar, trabalhar. Eu gosto desse clima de cumplicidade”.

Nando dá créditos extras para Pontual, co-produtor do álbum. “Eu sei do que eu gosto, mas não sei mexer em uma mesa de mixagem. Eu sei cantar, compor, faço os arranjos com ele, mas essa parte da gravação e dos timbres, o Pontual, junto com o pessoal da mixagem e da masterização, que conseguiu o som que eu queria”.

Mulher

Além da banda e de poucos músicos convidados, a voz que se destaca em “Drês” é de Ana Cañas, que divide os vocais de “Pra você guardei o amor” com Nando. Trabalhar com outras cantoras não é novidade na carreira do compositor, que além de Marisa Monte, teve uma longa parceria com Cássia Eller.

“Por ter trabalhado com as duas em uma relação tão próxima, eu tomo muito cuidado na hora de ter uma nova parceria – não quero parecer ‘procurar’ alguém – até porque essas relações não se substituem, e muito menos foram ‘procuradas’, elas surgiram”, explica Nando.

“Dessa mesma forma a Ana surgiu na minha vida. Conheci ela em um evento em que fomos convidados para fazer um dueto, e mais tarde resolvi convida-la para o meu show. Eu estava pensando em um arranjo de vozes para essa música – um pouco como ‘Helplessly hoping’, do primeiro disco do Crosby, Stills & Nash – mas apesar dos Infernais cantarem muito bem, fiquei com medo de que a harmonia soasse um pouco cafona, e quis tentar com ela – e foi ótimo. Quando ela estava comigo no palco, pensei ‘como eu amo cantar com mulher’”, explica.

O trabalho artesanal de Nando também se reflete em suas letras – muitas vezes coloquiais e cotidianas. “Eu cito duas músicas dos amos 70 que me inspiraram nesse caminho – Gilberto Gil com ‘Back to Bahia’ e Caetano Veloso com ‘Da maior importância’”, revela. “São músicas extremamente coloquiais, longas, e ao mesmo tempo cheias de imagens”.

Essa alusão ao cotidiano aparece em canções como “Só pra So” (baseada em “If not for you”, de Bob Dylan) e “Driamante”. "Essa forma me deixa absolutamente livre", revela. "Mesmo que pareça excessivamente pessoal, é assim que eu enxergo o mundo - e espero que a minha visão seja compartilhada com quem me ouve".