O agente policial que admitiu ter alterado provas no caso da morte do brasileiro Jean Charles de Menezes, morto pela polícia em Londres após ser confundido com um terrorista, foi absolvido nesta terça-feira (26). Ele era acusado de "engano deliberado".

A Comissão Independente de Queixas Policiais" disse que "Owen", como ele é identificado publicamente, errou por "ingenuidade", e não por "má intenção", quando decidiu apagar de seu computador dados sobre a morte de Jean Charles.

Segundo a comissão, ele agiu sozinho ao apagar os dados e isso demonstrou "falta de compreensão", mas não chegou a ser um delito. "Não há evidência de um engano deliberado neste caso por parte do serviço de Polícia Metropolitana em seu conjunto nem por parte de nenhum de seus membros", explicou a comissão.

O policial de alta patente admitiu em outubro, no novo inquérito sobre a morte do brasileiro, ter suprimido texto nas anotações que fez em seu computador sobre a operação na qual o brasileiro acabou morto por policiais no metrô de Londres, em 22 de julho e 2005, confundido com um suposto terrorista.

"Owen" declarou que uma linha que informava que a policial encarregada da operação, Cressida Dick, havia dito que o brasileiro podia entrar no metrô "porque não levava nada".

"CD (Cressida Dick"): pode entrar no metrô porque não leva nada", diria a linha eliminada.

O agente explicou que decidiu apagar a linha porque não a considerou "relevante", mas acabou apagando mais informações do que quería porque estava "com pressa".

Depois de dizer que não estava segundo sobre quem levantou a possibilidade de que se deixasse Menezes seguir, acrescentou: "todo o que posso dizer é que uma das opiniões era deixá-lo ir porque não levava nada e que houve um desacordo entre a direção".

"Foi uma voz de mulher", disse "Owen". Mas ele não está seguro se era a de Dick.A morte de Jean Charles aconteceu menos de um mês depois que uma série de atentados terroristas no metrô de Londres deixou 52 mortos. A cidade acabara de ser anunciada como sede dos Jogos Olímpicos de 2012.

Yasmin Khan, porta-voz da campanha Justice4 Jean, disse que a decisão foi "a última de uma série de decisões que eximem de toda responsabilidade aos policiais envolvidos no assassinato".
 
Morto por engano

O brasileiro teria despertado a atenção das equipes de vigilância ao entrar na estação de Stockwell. Especula-se que a polícia pensou que ele estaria prestes a detonar uma bomba. Ele foi então imobilizado e morto pelos policiais, suspeito de ter ligações com os bombardeios anteriores na cidade.

No dia seguinte, a polícia admitiu que Jean Charles foi morto por engano e considerou o fato “uma tragédia”. Seu corpo chegou ao Brasil três dias depois e foi enterrado em Gonzaga (MG).

Em novembro de 2007, a polícia britânica foi considerada culpada por violar regras de segurança, pela Comissão Independente de Queixas da corporação (IPCC, na sigla em inglês).

Em 2 de outubro de 2008, após enfrentar anos de pressão por este e outros episódios, Ian Blair, chefe da Scotland Yard, renunciou ao cargo.

Em fevereiro de 2009, a procuradoria decidiu que não iria processar nenhum policial pelo crime, por falta de provas . A família de Jean Charles desistiu então da via judicial.