Passados seis meses da tragédia que matou 135 pessoas em Santa Catarina, as vítimas que não puderam voltar para casa tentam reconstruir a vida nas moradias provisórias espalhadas pelo Estado. Nos seis abrigos montados em Blumenau, onde 24 pessoas morreram em decorrência de deslizamentos, os desabrigados recebem o acompanhamento diário de educadores sociais e funcionários da prefeitura. Atividades esportivas e de recreação, aulas de pintura e xadrez integram o novo cotidiano das vítimas.

 

No galpão que uma indústria cedeu para abrigar as vítimas, localizado as margens da BR-479, 33 famílias utilizam os apartamentos criados com divisórias de madeira. Em média, os espaços contam pouco mais de 30 m² e são definidos de acordo com o tamanho das famílias. A maioria das moradias tem dois quartos e uma cozinha. Muitos deles são até mesmo decorados pelos moradores e guardam os móveis e roupas frutos de doação.

 

"É um espaço legal, temos comida, temos cama para não dormir mais em colchões no chão", destacou Elias de Araújo Oliveira, que divide um dos espaços com mais cinco pessoas de sua família depois que sua residência apresentou rachaduras. "São seis pessoas. Mas o ruim é que apenas uma madeira de 2 cm nos divide de outras famílias. Estamos bem, mas ainda não é a casa da gente".

 

Sobre a construção de novas casas, prevista apenas para o segundo semestre, a maioria dos desabrigados parece estar paciente, ao contrário das primeiras semanas após a catástrofe. "Estão nos ajudando, nos acompanhando e os funcionários da prefeitura sempre nos informam sobre o andamento da questão das casas", disse Elias. "Para destruir é tão rápido".

 

O abrigo provisório conta com vários espaços comunitários. Os banheiros funcionam em quatro contêineres colocados no pátio. Vários tanques e máquinas de lavar estão à disposição dos moradores. Na cozinha, cada família conta com um pequeno fogareiro de duas bocas, identificado com o número de seu apartamento. A limpeza dos locais é realizada em forma de revezamento pelos próprios desabrigados.

 

As seis moradias provisórias criadas em Blumenau abrigam atualmente 307 famílias. Os modelos e ações adotadas foram considerados referência pela Cruz Vermelha. Vários itens, segundo a organização, superam padrões de moradias ocupadas na América Latina em situações de catástrofes. O projeto pode ser inclusive adotado pelo governo do Maranhão, que vem enfrentando uma grave enchente, segundo informação do secretário catarinense de Articulação Nacional, Geraldo Althoff.

 

Os desabrigados reconhecem que o local provisório e as atividades educacionais os estão auxiliando a recuperar a auto-estima. Maria Luiza Macena Santos, que divide um dos apartamentos com o marido, o filho e uma nora grávida de oito meses, disse que entre todos os moradores uma coisa é unânime: a vontade de votar a ter o próprio espaço. "A vida aqui não é fácil", completa.

 

"Minha casa foi toda abaixo, mas tenho fé que um dia vou voltar a ter o meu local para morar".

 

Em todo o Estado de Santa Catarina, segundo os dados da Defesa Civil, são 12.027 desabrigados ou desalojados desde novembro do ano passado. Além das 135 mortes, os corpos de duas vítimas do Morro do Baú nunca foram encontrados.