Precisei de pouco mais que um fim de semana para ler Quando Nietzsche Chorou, de Irvin Yalon. Sempre gostei de livros que bisbilhotam a alma humana. Na minha juventude, no Rio de Janeiro, aluno interno do Colégio São José (Marista), no alto da Tijuca, costumava enganar o irmão-regente que patrulhava o horário do estudo da noite, trocando a Tábua de Logaritmos por um livro de Erich Fromm.


Esta semana relembrei este tempo distante ao assistir uma reportagem na televisão sobre o assassinato de uma menina de oito anos, que teve sua casa invadida por dois criminosos. Baleada na cabeça, quando estava ao lado de sua irmã gêmea, a menina morreu dois dias depois. Na simulação gráfica do crime, cheguei a imaginar o olhar  da criança fitando seu carrasco segundos antes do tiro covarde e sem sentido. Uma brutalidade inconcebível.



Erich Fromm estudou a violência e a agressividade humana comunicando-as através do livro “Anatomia da Destrutividade Humana” onde divide a sociedade em três fases: afirmativas da vida, agressivas não-destrutivas e destrutivas. Esta última caracterizada pela relação interpessoal, marcada por acentuada violência, crueldade e sadismo. Fase que conhecemos de perto e que já faz parte do nosso quotidiano.


Mas, porque alguém atiraria em uma menina indefesa que não esboçou qualquer reação durante o assalto? Por pura maldade? Talvez. Afinal, a maldade acompanha a humanidade por milênios. Jean-Jacques Rousseau, um dos maiores pensadores europeus do século XVIII, questionava se a maldade humana era inata ou adquirida. Hoje, já se fala que ela é transmissível e que no futuro será diagnosticada como doença de comportamento podendo ser tratada através de uma “cirurgia” genética.


Como não nos é permitido aplicar a lei de talião, descrita no Código de Hamurabi, resta-nos continuar a conviver com o assassino de Gabriela, um homem cruel, cuja atitude criminosa nada tem a ver com desigualdades sociais ou com o meio em que está inserido.

A crueldade pode viver oculta na alma dos bem ou mal nascidos. Por isso,   muita besta-fera é capaz de estar  ao nosso lado sem que possamos perceber sua presença.

Um destes enganos da natureza vivia em Rio Claro, no interior paulista, e apagou para sempre a luz dos olhos de Gabriela. Por pura maldade.