Raízes da África

Fundação W.K. Kellogg apóia construção de mecanismo que garanta à sustentabilidade da causa da Equidade Racial, em Alagoas.

Acontece dia 13 de março o II Encontro Etnicidades Nordeste: “Promoção da Igualdade Racial, em Alagoas - Teoria e Prática”, coordenado pelo Projeto Raízes de Áfricas, sob patrocínio da Fundação W.K. Kellogg e Federação das Indústrias do Estado de Alagoas.
Durante o II Encontro Etnicidades Nordeste a Fundação W.K. Kellogg e o Centro de Estudos Afro-Orientais (CEAO da Universidade Federal da Bahia (UFBA) CEAFRO farão a apresentação do Marco de Referência para a construção do Mecanismo de apoio à sustentabilidade da causa da Equidade Racial.
O Programa de Equidade Racial e Inclusão é uma iniciativa pioneira da Fundação W.K. Kellogg. Iniciado em 2008 tem o propósito de apoiar a construção de um Mecanismo no Nordeste do Brasil. Em 2009 o CEAFRO realizou um mapeamento inicial de organizações, lideranças, políticas e iniciativas no campo da equidade racial nos nove estados do Nordeste, dentre eles, Alagoas. A pesquisa utilizou de uma metodologia participativa.
Para o II Encontro serão convidadas prioritariamente lideranças que participaram do encontro do mapeamento, ocorrido nos dias 06 e 07 de julho de 2009, na Federação das Indústrias, como também representantes de organizações, movimento negro, governo, universidades, financiadores que atuam em Alagoas.
O Projeto Raízes de Áfricas de Áfricas é o articulador e mobilizador dessa ação no Estado de Alagoas.

A Fundação Kellog
Criada nos Estados Unidos pelo pioneiro da indústria de cereais Will Keith Kellogg, a Fundação W.K. Kellogg é hoje uma das maiores financiadoras privadas do mundo, com
doações nos Estados Unidos, América Latina e Caribe, e sul da África, entre outras regiões.
Sua missão é ajudar as pessoas a ajudarem a si mesmas, por meio da aplicação prática de conhecimentos e recursos para melhorar a qualidade de vida das atuais e das futuras gerações. Atualmente, em sua programação para os Estados Unidos, a Fundação prioriza saúde, segurança alimentar e desenvolvimento rural; juventude e educação; filantropia e voluntariado.
No sul da África, os esforços estão centrados em fazer mudanças no contexto socioeconômico local. Participam da programação África do Sul, Botsuana, Lesoto, Malavi, Moçambique, Suazilândia e Zimbábue. A estratégia usada na região segue os seguintes objetivos: capacitar lideranças; incrementar a capacidade das comunidades; promover o desenvolvimento e a transformação de organizações e instituições continuar apoiando aquelas ações que pretendem fortalecer os mecanismos de coordenação.
O Ceafro

O Ceafro é um programa do Centro de Estudos Afro-Orientais (CEAO da Universidade Federal da Bahia (UFBA), de educação e profissionalização para a igualdade racial e de gênero, em desenvolvimento desde 1995.
Fundado sob três princípios básicos da existência negra na Diáspora - Ancestralidade, Identidade e Resistência -, em sua trajetória político-pedagógica, o CEAFRO tem investido numa construção teórico-metodológica baseada nos referenciais identitários dos sujeitos nela envolvidos.
Em todos os projetos desenvolvidos, teoria e prática caminham juntas, e o Programa vem contribuindo para as ações afirmativas e políticas públicas focadas em raça e gênero, com repercussão não só em Salvador e no Estado da Bahia, mas em outros municípios, estados, regiões do Brasil.


Serviço: II Encontro Etnicidades Nordeste: ‘Promoção da Igualdade Racial, em Alagoas: Teoria e Prática”
Dia: 13 de março 2010
Local: Auditório Antônio Cansanção -Federação das Indústrias do Estado de Alagoas- Av. Fernandes Lima, 385-Farol( a confirmar)
Informações e Inscrições: 8827-3658/8815-5794
Será servido almoço aos participantes
Inscrições limitadas
 

ENTREVISTA: Ações Afirmativas para Negros

Em outubro de 2009, atendemos com incomensurável prazer a solicitação para concedermos uma entrevista à Luciana, participante entusiasta de nossos encontros afro-alagoanos de educação e aluna da Faculdade de Educação e Comunicação, do Centro de Estudos Superiores de Maceió, o CESMAC, tendo como objetivo fundamentar o trabalho conclusivo para o Curso de Pós-Graduação “Latu-Sensu em Geo-História”, sobre ações afirmativas para a população negra. A disciplina Metodologia do Ensino II, ministrada pelo professor doutor Luis Paulo Mercado.Luciana assim como Camila Carnaúba,  tem feito  a roda da vida girar, multiplicando  e resignificando a importância dos encontros afros alagoanos de educação.
Abaixo socializamos a entrevista:


ENTREVISTA: Ações afirmativas para negros
Arísia Barros é formada em Letras pelo Centro de Estudos Sociais (CESMAC) e tem especialização em Educação e Literatura pela Universidade Cidade de São Paulo. Poetiza, escritora e redatora é co-autora da Lei Estadual nº 6.814/07. Consultora para aplicabilidade das políticas educacionais para uma pedagogia anti-racista: Lei Estadual nº 6.814/07 e Lei Federal nº 10.639/03. Consultora no estudo das relações étnico-raciais no contexto escolar,embasada na implementação da Lei nº 10.639/07 e Lei Estadual nº 6.824/03.Consultora para elaboração de programas de combate ao racismo. Atuou por 05 anos como Coordenadora do Núcleo Temático Identidade Negra na Escola e Gerente de Educação Étnico-Racial da Secretaria de Estado da Educação e do Esporte. Atualmente coordenada o Projeto Raízes de Áfricas.
L e C- Para darmos início a nossa conversa você poderia reconstituir a sua trajetória acadêmica e como passou a se interessar pelo estudo das relações raciais?
Arísia Barros:
Os estereótipos, a segregação dos espaços seja na escola, ( Faculdade, Agência de Propaganda pelas quais passei) e as injustiças sociais impetradas pelo racismo me mobilizaram a estabelecer um foco de trabalho: discutir até a exaustão sobre as mazelas do racismo na busca de provocar o diálogos em rede de pessoas e para o desenvolvimento, formulação e implementação de políticas públicas, principalmente no estado de Alagoas.
L e C- Qual a sua avaliação sobre a Lei 10.639 que tornou obrigatório o ensino de “História e cultura afro-brasileira” na rede oficial?
Arísia Barros-
A escola brasileira consegue estabelecer um parentesco consangüíneo com as concepções da dominação colonial, construídas a partir de uma colagem eurocêntrica, inviabilizando a existência do povo negro. O agravante no processo histórico/educacional é a naturalização do racismo. Existe algo de errado num mundo/escola, país-50% africano - em que as pessoas buscam uma hegemonia ariana. Qual a Alemanha que vive em nós: a de antes ou depois do muro? A escola brasileira precisa traduzir em seu currículo a observância dos princípios do pluralismo e da diversidade nas mais diversas esferas do convívio humano. Criar histórias positivas dos povos ditos diferentes: negros/negras, indígenas fundamentando um olhar cúmplice sobre o sentido cíclico da história da humanidade. Só o conhecimento quebra as fronteiras do preconceito, traduzindo uma escolarização capaz de romper com a consolidação de estereótipos sociais. A LEI FEDERAL Nº 10.639/03 é avanço na medida que busca estabelecer a consciência e o conhecimento sobre a participação sócio-política da população negra brasileira na história do Brasil.
L e C- Qual a sua visão sobre Ações afirmativas no Brasil?
Arísia Barros-
As ações afirmativas são estratégicas políticas diferenciadas que tem o propósito de não só investigar como também combater a ausência de oportunidades e mobilidade para segmentos que vivem situações de desigualdade histórico-sociais. O estado brasileiro, reconhecidamente racista precisa consolidar políticas como as ações afirmativas que visam a valoração histórico-social das populações vulneráveis.; Também é necessário estabelecer políticas de orçamento específicas para o desenvolvimento de pesquisas que investiguem os problemas vividos pela população negra, visando conduzi-la a uma participação igualitária no seio da sociedade.
L e C- Para você qual o sentido de defender Ações afirmativas para a população negra?
Arísia Barros- O estado brasileiro tem uma vasta trajetória de segmentação e omissão do elemento negro na contextualização da história. O desconhecimento da historicidade negra cria um ciclo de desinteresse institucionalizado. A linguagem social da discriminação brasileira se reinventa cotidianamente e assume o discurso oficial, hierarquizando o discurso do colonizador, estabelecendo a negação de tudo que é diferente, fazendo o Brasil esquecer que é o segundo país mais negro do Mundo. As ações afirmativas são o combustível para que o Brasil lembre da multiplicidade e riqueza da sua história para que ela possa ser vista e respeitada a partir de todos os ângulos étnicos.
L e C- As Ações afirmativas respeitam os princípios constitucionais da Igualdade ou reforçam as desigualdades entre as pessoas?
Arísia Barros
- Quem vive abaixo da linha do bem estar social sabe o que é viver em desvantagem em detrimento a outra parcela da população que usufrui de isonomia social. Para colocar essa população numa condição de igualdade torna-se imprescindível formular políticas públicas que estimulem o princípio da equidade. Observando pela ótica da busca de direitos e do equilíbrio social as ações afirmativas buscam auferir o princípio da dignidade humana. Isso é inconstitucional?
L e C- Quais as intervenções você acredita que podem contribuir para diminuir a distância socioeconômica entre brancos e negros e a discriminação racial no país?
Arísia Barros-
O estado político brasileiro precisa acordar para questões que envolvam o princípio da igualdade humana estourando a bolha de inércia que o envolve no comprometimento político com a temática. Basicamente, existem duas formas de se combater o racismo: distribuição de renda, atendendo ao princípio da isonomia social e uma educação cuja pedagogia traduza o respeito as diferenças
O desafio é grande e apesar do apartheid que já persiste e insiste a mais de 500 anos é hora da gestão pública sair do campo das abstrações para a resolução de problemas concretos que minimizam a história e memória do povo negro.
O combate ao racismo é uma delas!

1- Ações Realizadas quando gestora do Núcleo Temático Identidade Negra na Escola e Gerência de Educação Étnico-Racial, da Secretaria de Estado da Educação e do Esporte do Estado de Alagoas em 05 anos de atuação:
? Primeiro estado do Brasil a estadualizar a lei federal nº 10.639/03, através da legislação estadual nº 6.814/07, de 02 de julho de 2008.
? Realização de 33 Encontros Afros Alagoanos de Educação - Alagoas é o único estado do Brasil a oferecer formação permanente e continuada em diversidade étnico-racial.
? Avanço em 70% das escolas públicas na compreensão de um projeto político-educacional que contemple a diversidade cultural e étnico-cultural.
? Articulação com instituições políticas de diferentes esferas públicas e privadas na perspectiva de garantir a execução de ações que garantam a política de promoção da Igualdade Racial, pautadas no princípio da diversidade.
? Criação de um informativo impresso, como mecanismo de discussão, apreensão e divulgação das ações étnico-raciais.
? Único estado do Brasil a criar um calendário pedagógico específico para pautar as efemérides negras e as ações na questão da diversidade étnico-racial.
? Criação de prêmios, como mecanismo de divulgação e viabilização de trabalhos e pesquisas no campo nas relações de gênero e da história afro-brasileira e africana.
? Realização em parceria com a Secretaria de Educação Continuada Alfabetização e Diversidade e os Estados de Sergipe, Pernambuco e Paraíba, em maio de 2004, do I Fórum Educação e Diversidade Étnico Racial: A Escola e a Identidade Negra (o único no Brasil com caráter regional) 390 participantes
? Alagoas foi o 2º estado do Brasil a implementar o Fórum Permanente Educação e Diversidade Étnico-Racial, em 08 de julho de 2004- visando construir as bases para um diálogo com outros órgãos governamentais, sociedade civil e movimento negro.
? Articulação com os municípios para criação e operacionalidade nas Secretarias de Educação do Núcleo de Estudo em Diversidade Étnico-Racial..
? Realização de 06 Rodas de Diálogo - espaços criados para discussão com um número menor de pessoas sobre as especificidades da temática negra.
? Realização de encontros sócio-educativos em espaços marginalizados ( presídios, unidades prisionais de internação feminina.
? Proposição da implementação da escola de Educação de Jovens e Adultos no Estabelecimento Prisional Santa Luzia.
? Realização de um Encontro Afro Alagoano na Bienal do Livro- 2007
? Realização pioneira,com a participação do MEC do I Fórum Nacional da Consciência Negra na Educação: ‘Iká Kô Do
? Articulação para a criação da Comissão Executiva de Promoção das Políticas Públicas para a Igualdade Racial.
? Criação de espaços, nas “Rodas de Diálogo’ para as internas da Unidade Feminina possam relatar experiências e exercitar a cidadania.
? Alagoas foi escolhido por unanimidade pelo Conselho Nacional dos Secretários de Educação para ser a representante do mesmo, no Grupo Interministerial, criado pelo Ministério da Educação, para a implementação da Lei nº 10.639/03. Somos a única Secretaria de Educação do Brasil a fazer parte do referido grupo. ( agosto 2008)
? Estabelecimento de parceria acadêmica com os embaixadores de Moçambique, Cabo Verde, Angola, Cônsul de Guiné Bissau e a Comissão dos estudantes africanos da Universidade Federal de Alagoas.

 


































 


 

Carta a Osvaldo Mendes, ou Saudades de Belém, Meu Bem!


Um dia no correr dos meus vinte anos determinei-me a sair de Alagoas na busca de conhecer outros lugares,investir em perspectivas. Decisão tomada comuniquei a família. Entre choros e recomendações maternas avizinhei-me da coragem, entrei em uma viagem de ônibus que durou exatos dois dias e meio e finalmente desembarquei em Belém do Grão Pará. Eu, uma mala,a mochila e a valentia da juventude.
Meu primeiro contato ao chegar em Belém foi com o mercado de ferro,o Ver-o-Peso, a maior feira livre da América Latina, eleito entre as 7 Maravilhas do Brasil.
O Ver-o--Peso fica na na Cidade Velha. Difícil descrever a sensação de liberdade que invadiu alma ao olhar aquele mundão de construção rodeado por terra-rio-mar, ou seja água,gentes e cheiros. E eu estava justamente ali, em Belém do Pará. No Norte do país! Meu coração ainda traz lugares e histórias conjugadas em território paraense.
Belém tem 394 anos e, é a segunda cidade mais populosa da Amazônia.
Há 200 anos Belém do Pará era a Capital das Especiarias, hoje é a "Cidade das Mangueiras", cercada de florestas e águas. Belém foi a primeira capital da Amazônia por isso é considerada a "Metrópole da Amazônia".
Belém é tão hospitaleira que se veste de Portão de Entrada da Amazônia. Entrada feita de caminhos sem atalhos que nos levam ao Círio de Nazaré, com sua corda feito cordão umbilical, medindo 350 metros de comprimento e 48 milímetros de espessura, unindo gentes,cheiros, suores a um pacto espiritual com a Virgem. É uma manifestação que vai além da religiosidade. Gentes sendo intérpretes da devoção absoluta na “santinha”, a Virgem de Nazaré. O Círio acontece anualmente no segundo domingo de outubro e reune em torno de dois milhões de fiéis. A primeira vez que assisti o Círio a emoção foi bombática. Belém é sacra!
Os ouvidos emparedados pelo tempo ainda escutam o regionalismo da língua do paraense, a delicadeza do “maninha” , a contradição do “o porque então?”, ou a ênfase do “égua!”
Belém é terra de cultura e histórias . É terra do Museu Paraense Emílio Goeldi.
Belém se veste de chuva nos momentos prováveis.Chuva com hora marcada?
Belém é gastronômica. Que saudades da maniçoba da Dona Rosa lá do bairro do Jurunas, da pupunha degustada no café da manhã! Provei o açaí e não gostei. O que para o povo do Pará era um sacrilégio. Açaí no Pará é religião.
Morei em Belém do Pará alguns anos e ainda hoje escuto os ecos de saudade nas esquinas da memória. Benditos sejam os dos arroubos da juventude minha!
Ainda hoje relembro as curvas e travessas mais estreitas da Cidade Morena. As repúblicas que me abrigaram. Primeiro a das meninas, depois dos meninos. Em Belém aprendi o que é solidariedade humana, aconchego. Lembro da rua Humaitá, minha primeira moradia, de verdade. Das andanças pelas noites de Belém. Conheci a Belém embriagadoramente profana. O eclético e a poesia da malandragem se encontrando nos bares da Praça da República.
Eu no alto dos meus vinte e poucos anos fui pro Pará e parei, cheguei em Belém fiquei, ao menos por alguns tempos. E nem açaí tomei...
Tardo um tempo para arrumar palavras são saudades imensas da cidade com pefume de ervas. Faz tempo que não a vejo. Exatos 20 anos!
Foram três meses de aperreio na busca de colocação como profissional. Como professora me foi oferecido um emprego em Xinguara, interior do Pará, como havia um histórico de extrema violência na cidade resolvi não aventurar. Afinal toda aventura tem limite. Tinha saído de uma pacata Maceió de singelos passeios pela madrugada afora e é claro que não iria ser tão afoita de me jogar no olho do furacão. Apesar da determinaçãoa de persistir e insistir as necessidades materais ameaçavam se transformar em um oceano de desespero, até que respondi a um anúncio de jornal.
Conclusão: Consegui estágio, como aprendiz de redatora publicitária, na maior Agência de Publicidade do Norte Nordeste, a Mendes Publicidades. Salva pelo gongo!
Conheci Osvaldo Mendes em 1986 quando estagiária em redação publicitária entrei para fazer parte do “cast” da Mendes.
Apesar da inevitável relação de hierarquia ,Osvaldo Mendes, foi professor inspirador ao dizer que a melhor forma de lidar com os riscos é encarar o desafio de enfrentá-los e tirar disso o melhor aprendizado para a vida. O mestre que realimentou conhecimentos com intervenções cruas, duras que dessarumavam as idéias, nossos cinco sentidos e nos instigava a devassar sem complacência os ousados caminhos para o manuseio e a conseqüente criação-criativa.
Com Osvaldo Mendes aprendi a força e o poder que moram no protagonismo da ação nunca antes pensada. Analisar, comentar, dissecar, esgotar e reinventar caminhos da criação, criando.
E a lição foi tão bem aproveitada que uma das nossas primeiras peças produzidas para a Mendes, com o título de “Rádio Marajoara? Eu, hem,nem te ligo!” foi premiada com a medalha de bronze no Prêmio Colunistas Norte-Nordeste -1986.
Aprendi com Osvaldo Mendes a ficar atenta a oportunidade. É do ocaso que extraímos a essência do novo.
Recordar é fazer um passeio por tempos e caminhos que se cruzam entre a saudade e um vasto território da aprendizagem humanizadora e profissional. A experiência de viver em Belém e ter trabalhado a filosofia à La Mendes, “perfeccionismo como palavra de ordem”, foi e ainda é um divisor de águas em relação à minha história pessoal e profissional, sucessos, referências e coisas tais
Osvaldo Mendes merece ser tratado em capítulos múltiplos. Como se fosse a interpretação dos muitos talentos que descobriu como um substancial inventário de vidas.
Conhecer Osvaldo Mendes foi fundamental para minha atual biografia de vida. Conviver com seu perfeccionismo da prosa enxuta, precisa e sem volteios me fez valorizar as possibilidades da palavra. Aprendi a fazer sempre um bom trabalho, ser reconhecida pelo desenvolvimento da ação pioneira e sobretudo inédita
Um dia peguei o ônibus de retorno e vinte anos após o regresso escrevo essa carta, meu caro Osvaldo Mendes como forma de agradecer todos os pontos desfiados, os rasgos das interrogações numa permanente decifração da idéia bruta.
Obrigada, Osvaldo Mendes, por fazer-me descobri que “a palavra é o meu domínio sobre o mundo”. Como diria Lispector, a Clarice.
Obrigada!
 

A neutralidade étnica do discurso na política


Esse é mais um artigo extenso que em alguns momentos foi fragmentado em pequenos artigos para tornar a leitura mais palatável. Publicado em 06 de setembro de 2008, no Caderno Saber da Gazeta de Alagoas, o artigo precedeu ao “Debate Democrático pela Diversidade: Meu Voto Tem Cor. A Cor do Compromisso Cidadão”. A idéia do debate, organizado em nossa coordenação na época a frente do Fórum Permanente de Educação e Diversidade Étnico-Racial com o apoio da Federação das Indústrias do Estado de Alagoas foi possibilitar espaços político-afirmativos para discussão da temática racial, o envolvimento dos vários segmentos da sociedade na construção participativa e consciente de políticas públicas para a área da saúde, educação,emprego e renda da população negra maceioense, permitindo-lhes uma análise crítica acerca das diferentes plataformas de governo, ao tempo que possibilitará aos candidatos a apresentação das idéias, enquanto políticas públicas.
Na época estiveram presentes os então candidatos Mário Agra (PSOL), Solange Jurema, (PSDB), Judson Cabral (PT) e Manoel de Assis (PSTU).
Resultado do debate? Na ótica política a população negra é discriminada/excluído simplesmente pela situação vulnerável da pobreza. A visão ainda é das políticas universalistas.
Inserir a promoção de políticas para igualdade racial nas plataformas da campanha de 2010 é dos principais desafios contemporâneos da população negra em, permanente movimento.


A neutralidade étnica do discurso na política


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Seu nome era Daniel, negro alto, bonito. Morreu aos 19 anos a gangue o matou, dentro de casa, aos pés da mãe. Foi a sentença da droga.
“Paralelamente à heterogeneidade de idade e de sexo, observa-se que há uma dramática concentração de risco na população negra (somatório da população que se autodenomina com cor da pele preta e parda. As taxas de homicídios são mais elevadas entre os negros em todas as faixas etárias, com muito mais intensidade entre 20-29 anos. Embora os dados relativos a esta variável padeçam de elevados sub-registros nas diferentes fontes onde eles são notificados, há indicações de que a distribuição desigual de riquezas e recursos sociais (educação, saúde, saneamento) entre brancos e negros, no Brasil, acaba por provocar desigualdade na distribuição da morte violenta. Assim, são os homens negros e, entre estes, os mais jovens, as vítimas preferenciais da violência letal. Como se sabe, “cor” no Brasil constitui um atributo social, sendo uma praxy de escolaridade, renda e outros indicadores de acesso a bens e consumo. Inegavelmente, grande maioria dos negros em nosso país concentra- se nos estratos inferiores da pirâmide social.
Outro nome era Cícero menino de coração bom, quase todos os dentes voaram ao sabor da miséria, era vendedor ambulante, negociava legumes em um carrinho de mão no Mercado da Produção. Morreu numa troca de tiros. Negro como
Daniel.
De acordo com um estudo divulgado pelo Dieese (Departamento Intersindical de Estatística e Estudos Socioeconômicos) no final do ano passado, observa-se que o desemprego é sistematicamente mais elevado entre a população negra, qualquer que seja o nível de escolaridade pesquisado. As taxas de desemprego entre os negros chegam a ser 46% mais altas que a dos brancos.
Maria era mais um nome. Adolescente com corpo de mulher. Engravidou aos 14 anos de um ficante qualquer. Engessada na pobreza e com quase nenhum estudo sofreu o pão que ninguém quis amassar. Morreu com o filho na barriga nos corredores do hospital público de hipertensão arterial aliada a uma desnutrição de esperança.
“Os negros desenvolvem mais hipertensão do que os brancos. São mais vulneráveis à doença. Uma das hipóteses para justificar esse fato está nas condições em que eram trazidos da África para a América. Muitos morreram por causa das infecções, porque vomitavam e tinham diarréia e não conseguiam reter líquido. Desse modo, houve uma espécie de seleção natural. Provavelmente, a maior parte dos negros que suportou a viagem comia sal, retinha líquido, o que elevava a pressão, e transmitiu essas características aos seus descendentes”. (Décio Mion - médico, especialista em pressão arterial)
A filha de Márcia morreu aos cinco anos de anemia falciforme. Morreu pela ausência de medicamentos e formação específica dos profissionais da área médica sobre a doença que mata no Brasil um número considerável de crianças, especialmente as negras.
A anemia falciforme é uma doença incurável que atinge freqüentemente a população negra e os seus descendentes, mas ocorre também em brancos, particularmente os que são provenientes do mediterrâneo (Grécia, Itália, etc.) No Brasil estima-se que 3 de cada 100 pessoas em geral portadoras de traço de Anemia Falciforme sendo que 1 (um) em cada 500 negros brasileiros nasce com a doença.
Marcos, 15 anos, negro cabelo black power já foi abordado inúmeras vezes. Já foi preso e algemado, como “elemento suspeito”. Jovens negros têm uma maior probabilidade de não terem seus direitos constitucionais respeitados, transformando-os em potenciais marginais na ótica policial: a aparência os denuncia.

O racismo é um código-língua
O racismo é um código-língua fundamentado na tolerância civil ética-política que sob a égide do sectarismo onipresente e multiforme incorpora a tolerância passiva, aquela que permite as transgressões nas relações humanas, sócio-raciais, criando respaldo para que a intolerância, dentre ela, o racismo, se instale. Faz-se necessário construir um novo arcabouço para compreendermos politicamente a sociedade contemporânea. A arte de fazer política não pode está desligada da história cotidiana. Urge estabelecer um eloqüente diálogo com a complexa teia da diversidade humana.
As propostas políticas têm que enxergar o povo pela ótica das suas especificidades sócio-étnicas e sair do lugar comum dos “eliminar”, “erradicar”, “combater” a pobreza, como se ao fazê-lo, por tabela, acabaríamos com as desigualdades sócio-raciais do negro.
Segundo Santos, Izabel: “A gente acreditou, por muito tempo, que ao resolver as desigualdades econômicas, de gênero, orientação sexual, às de raça viriam juntas. No interior das nossas próprias organizações, o que a gente fez foi reproduzir essas desigualdades que aconteciam fora. Também dentro das organizações do movimento negro nós tínhamos conflitos de gênero. Acho que esses fatos das lutas sociais, das políticas sociais não terem contribuído muito para discussão racial é exatamente essa idéia de achar que alcançando algumas políticas públicas, diminuindo esse conflito econômico, a gente resolveria a questão racial. Discutir pobreza não é suficiente para acabar com a desigualdade racial”.
O racismo político ocupa um espaço sem tempo
Maceió, capital do estado de Alagoas, tem uma população de 922.458 habitantes (dados de 2006), dos quais segundo o Tribunal Superior Eleitoral (TSE) 504.642 são eleitores; 55,63% são mulheres (280.719) e 44,31 homens (223.617).
Mesmo tendo uma significante estatística de exclusão social entre a população negra/parda maceioense ainda é grande o desconhecimento/descaso dos poderes constituídos em relação a ações concretas que visem combater as desigualdades raciais e de gênero na capital alagoana. O desafio que se impõe, portanto, nessa campanha para eleição dos cargos majoritários e minoritários para a Prefeitura de Maceió, é assegurar que a diversidade-especialmente a étnico-racial, seja respeitada e compreendida histórico e juridicamente, nos projetos políticos. A noção de perspectivas na política é a criação do discurso dialógico. Aquele que visionário enxerga as diferentes e complexas realidades urbanas em um mergulho aprofundado na pluralidade sócio-racial. Não só exaltando-a mais conhecendo os intrincados caminhos criadores dos lastros de rupturas da cidadania. O discurso político tem como dever prioritário estimular o debate no mais amplo cenário de discussões possíveis. É preciso gerar espaços de oportunidades para que possamos afirmar todas as pessoas como cidadãs legítimas em direitos e deveres, assim como está escrito na Carta Magna. Ações afirmativas.
O discurso político é econômico em sua revolução cotidiana
O discurso político é econômico em sua revolução cotidiana, ainda investe no embate de idéias contrárias feito de argumentos e réplicas, esquivando-se de soluções concretas para levar a toda pessoa o artigo quinto da Constituição brasileira.
O combate à desigualdade étnica envolve estratégias de conhecimento, difusão e mobilização. Exige a parceria dos movimentos sociais, do poder público, iniciativa privada e sociedade em geral. Exige a criação de iniciativas que se proponham a fazer do discurso um instrumento dinâmico para a construção de idéias e interesses comuns, mecanismos de prevenção do racismo institucional, ações concretas, como meios de
acesso aos serviços de saúde, educação, emprego e renda para a população menos assistida, dentre ela, o povo negro.
O racismo foge da nossa percepção cotidiana e se abriga nos quilombos urbanos: as favelas. Favelas que traduzem na população negra o seu maior contingente.
Urge inserir nas propostas políticas dos e das postulantes aos cargos para a Prefeitura de Maceió questões específicas que atendam a esse contingente, que 120 anos após a abolição, ainda enfrenta problemas oriundos do imaginário sócio-escravagista.
O combate à intolerância racial envolve estratégias e programas de governo que a partir da releitura do molde econômico da escravatura, crie estratégias possíveis de combate ao racismo institucional, nas áreas de saúde, educação, emprego e renda. Propomos algumas idéias:
1-Criação de um programa permanente de alerta contra Anemia Falciforme (assim como o da Dengue). A anemia pode se detectada no Teste do Pezinho, quando é coletado sangue do calcanhar do recém-nascido. O ideal é que seja realizado entre o terceiro e sétimo dia de vida do bebê e 48 horas a primeira mamada;
2- Implantação da triagem universal (prevenção e controle da hipertensão) nos diversos serviços de saúde, para promover a medição indireta da pressão arterial em todas as crianças a partir de 3 anos de idade, durante as consultas médicas, em pelo menos uma vez ao ano.
3- Implantação do quesito cor/raça/etnia pelo SUS tendo como objetivo criar espaços de investigação sobre as vulnerabilidades específicas de cada segmento populacional.
4- Inclusão de práticas de promoção e educação em saúde da população negra nas rotinas assistenciais e facilitação do acesso em todos os níveis do sistema de saúde/educação.
5- Inserção nos currículos das escolas do município de Maceió o estudo da história afro-brasileira, afro alagoana, consequentemente afro-maceioense. (Lei Federal nº. 10.639/03 e Lei estadual nº. 6.814/07).
A construção da dignidade social nasce da construção de uma cultura do respeito ao outro/outra e suas diversidades.
Segundo Oliveira, Fátima: “O racismo, ao contrário do que muita gente alardeia, não é o mesmo que miséria ou pobreza. Discriminação, preconceito e opressão de classe são DIFERENTES de discriminação, preconceito e opressão de gênero ou de raça/etnia. Cada uma possui dinâmicas de surgimento e de operacionalidade que lhes são peculiares, logo nenhuma se funde, ou se confunde, com a outra, embora possam ser reforçadas quando se abatem sobre a mesma pessoa. Cada uma exige políticas específicas adequadas. Urge que o governo entenda, por sensibilidade ou por dever de ofício, que políticas universalistas são insuficientes para abolir o racismo. E seja determinado e lance as bases de uma revolução cultural que ressoe nos usos e costumes, nos mitos e nos ritos que sustentam o racismo. É improvável um país chegar a um futuro grandioso quando metade do povo está acuado pelo racismo. Superar o racismo é uma questão estratégica para o Brasil, logo não pode ser apenas um assunto dos negros, o que indica que órgãos de governo e políticas públicas para combate ao racismo não podem ser minimalistas e nem reedições de guetos”.
Sabemos que o racismo não será superado por decreto ou com a boa vontade de alguns.
Sabemos dos entraves racistas estruturais e conjunturais, entretanto é preciso avançar rumo à democratização dos direitos do ser humano.
Já é hora da capital alagoana desvendar seus quilombos urbanos e cotidianos e fundamentar que cidadania também tem cor. A cor do compromisso cidadão!

 

 


 

arisia.barros@ig.com.br/negrasnoticias@yahoo.com.br

Nunca fomos libertos e sim libertandos.Uma ação gradual e paulatina de legitimar e justificar o sistema de dominação.


O Estado muda as simbologias que identificam o passado escravocrata para não identificar as contemporâneas estruturas que estabelece a geografia da violência atingindo literalmente a população negra.
É um rascunho mal ajambrado da alforria condicional, aquela que ao libertar estabelece o vínculo da dependência. É um jogo de cabra-cega. Um faz de conta cênico.
Ainda somos escravizados pela omissão e negligência da política de domínio senhorial do estado brasileiro, apesar dos mais de três séculos e meio de “escalação’ para o trabalho forçado.
Ainda estão nos cobrando à dívida do pecúlio, como “escravos” de ganho. Nunca fomos libertos e sim “libertandos”.Uma ação gradual e paulatina de legitimar e justificar o sistema de dominação.
As formas de cimentar com barreiras contemporâneas o acesso da população negra aos grandes rincões da democracia participativa são arrogantes e camaleoas. O racismo é arrogante!
Existe uma relação incestuosa entre alguns filhos e filhas da esquerda, da direita, do centro, do sul e nordeste dessa pátria que escudados por interpretações extremistas do pacto nacionalista de brasilidade buscam subestimar ou mesmo suprimir as muitas vozes históricas, criando um código-próprio; o da morenice brasileira.
Existe um limite atemporal e ideológico que separa a epiderme “morena” da negra. Ser morena é estar mais próximo ao ideário da branquitude brasileira.
O desafio da população negra é demarcar territórios para uma participação mais efetiva no protagonismo social. Papéis de segunda ou terceira classe, como regra geral já não nos serve. Ressignificar a história da comunidade negra é uma forma de quebrar paradigmas, sufocar o imaginário social que ainda nos coloniza e em contraponto valorizar as escutas de Áfricas no Brasil, alimentando a auto-estima identitária da população oriunda.
O tráfico negreiro foi um dos negócios mercantis mais lucrativos de toda a época moderna.
Nosso discurso não é o da vitmização, ele captura a biografia de um povo e ousa ir além das possibilidades.
Segundo Mir, Luís: ‘Temos embates de sangue,problemas de mestiçagens,esforçosde ajustamento e absorção. Dependendo da região,domina o índio,o afrodescendente,o imigrante europeu. Essa gama étnica admite todos os tons e tragédias pelo modo como foi vilipendiada e violentada pela balcanização,primeiro dos colonizadores,depois mantida pelos pais da pátria independente. Isso nos impediu de ter uma humanidade brasileira, como formação social e étnica”.
Ainda somos hóspedes incômodos, sem direito ao usufruto da anistia. Ainda ocupamos as funções secundárias no sistema universal do racismo “velado” e subterrâneo.
A hipoteca social do estado brasileiro com a população negra ainda não foi quitada.
E Mir, o Luís reafirma: “As grandes revoluções e os grandes governos exigem uma pleide de homens e “mulheres” ( acréscimo nosso) especiais, que unam o compromisso, a capacidade de interpretação dos problemas nacionais, o sentido prático da política e um compromisso real com o seu povo”.

 

Na era do Projeto Geração Saber é imprescindível que o Conselho de Estadual de Educação seja realmente a ponte entre os órgãos governamentais e a implementação de políticas públicas.


A África fica do outro lado da rua, só nos falta coragem de atravessá-la, diz-nos o professor Henrique Cunha, da Universidade Federal do Ceará, em um texto conciso e preciso que nos aponta a importância do estudo da história africana e negra brasileira nas salas de aula.
A frase nos remete a urgente necessidade pedagógica de promover a dança dos elos visando desmistificar opiniões preestabelecidas e impostas pela sociedade contemporânea. A distância que separa do outro lado da rua de uma possível consciência negra tem nome e ideologia da hierarquização de grupos humanos: racismo!
Como trabalhar a questão dos estereótipos, racismo, sexismo e as muitas e variáveis formas de preconceitos?
A educação é uma das mais importantes argamassas para que nós, professoras e professores possamos ladrilhar de conhecimento as muitas ruas que nossas crianças e adolescentes terão que atravessar ao longo ao longo da vida.
O preconceito é fruto legitimo da nossa falta de conhecimentos. A África que existe em nós é um continente sem ruas. É um beco sem saída.
Precisamos sim, aprender a lidar com a pluralidade étnica e cultural que senta nos bancos de nossas escolas, afinal o estado brasileiro fora do continente africano é o maior em população negra.
Precisamos apreender a exercitar a pluralidade da educação investindo bem mais além do nosso abecedário metódico e geracional.
Que façamos a nossa reflexão; afinal porque resistimos tanto e tão bravamente em atravessar essa distância que nos aproximará de experiências ricas de saberes,trocas e vivências?
Nossa resistência é produto da nossa história escravocrata que ainda sobrevive nos subterrâneos sociais. Precisamos rompê-las.
Precisamos reavaliar nossa prática pedagógica ao positivar o fundamental papel das etnias na construção de pontes e caminhos históricos.
Que possamos propor uma releitura das limitações que impomos ao contribuir na divulgação dos estereótipos: Isso só pode ser coisa de negro!. Das imagens negativas instauradas nos livros didáticos, povoando o imaginário das crianças: Tia, minha mãe diz que todo negro é mau! E sedimentando conceitos articulando preconceitos na sociedade escolar.
A negação de informações esfacela identidades históricas. A gente só ama aquilo que conhece. Conhecer as muitas histórias dos povos é uma viagem fascinante ao topo das descobertas. E descoberta é a sumula do aprendizado.
A Lei Estadual nº 6.814/07 sancionada em 2007 têm o papel de romper paradigmas.
Na era do Projeto Geração Saber é imprescindível que o Conselho de Estadual de Educação seja realmente a ponte entre os órgãos governamentais e a implementação de políticas públicas.
Ou a Lei Estadual nº 6.814/07 sancionada pelo chefe maior do estado, o governador, não é considerada política pública?
Será?

 

Reconhecer o racismo é expor o abismo entre o racismo benigno e a anatomia do apartheid social.

Uma democracia não se faz com a voz única dos governantes, mas com o registro vocal do povo ecoando cantos de futuro.
Uma democracia exige participação popular. A equação entre poder e povo funciona melhor quando há porta-vozes de uma nova realidade de culturas,etnias,religiões.
Porque falar sobre racismo?
Porque o tema precisa ser explorado a exaustão para que o passado de dominação não continue a re-alimentar os famintos territórios da nossa memória pós-colonial.
Segundo a professora Roseli Fischmann:“O racismo é uma guerra permanente, declarada ou tácita, mediante uso de quaisquer armas, materiais ou imateriais, com o fim de eliminar o grupo a quem se rejeita a condição humana e a quem se nega a mera possibilidade de existir. A arrogância racista encontra-se exatamente aí, em um inexistente direito que se auto-atribuem os racistas de decidir que alguns não merecem coabitar o planeta.”
Nossa memória colonial vive aprisionada na expatriação negra, estabelecendo lugares distintos dos vencidos e vencedores. Fragmentada ela avança e retrocede porque reconhecer o racismo é expor o abismo entre o racismo benigno e a anatomia do apartheid social.
Segundo Luís, Mir: A máquina social e econômica do racismo existe formal e legalmente em nossa história até a Abolição, 1888. A partir daí, é subterrânea. Trazê-la a luz da superfície exige destrinchar suas relações com o poder do Estado, as etnias dominantes e seus mecanismos. Frente ao racismo como fato social (para nos limitarmos a um universo), ele tem as mais variadas camadas e alegorias, o afirmativo e o negativo, produzindo o ambíguo, o que não é nem um a coisa nem outra embora assim se apresente e negando não apenas o que é evidente, mas inclusive o que contradiz ao evidente”
Escrever sobre racismo é expandir as possibilidades de representação de um povo ainda fraturado pela memória de um passado que em muitos momentos emerge de nosso inconsciente coletivo em frases curtas e pontuadas de posturas segregadoras.
As muitas Áfricas que moram no Brasil serviram de elementos referenciais para enfatizar a eloqüência da diversidade de um povo que tem uma identidade nacional, mas possui a alma povoada de enredos africanos. Tentar abortar isso é rememorar os estupros metafóricos ou não,sistematizados, planejados e aceitáveis na colônia. Afinal nem gente éramos. Alma então, nem possuíamos!
O Brasil se veste de anônimo quando cruza com as memórias de Áfricas: O BRASIL NÃO QUER SER AFRICANO!
Escrever sobre racismo é fazer um contraponto entre a invisibilização social, as lembranças gravadas na epiderme e o silêncio endurecido de um povo. É transcender a história para agregar as Áfricas negras plantadas no cotidiano .
Escrever sobre as teias do racismo é romper o exílio das palavras tornando-as propaganda do ativismo por uma causa que ousa querer mobilizar uma número infinito de pessoas, gentes das Alagoas, do Brasil e de um universo sem fronteiras, que traga a mídia como interprete e parceira na construção da noção essencial de liberdade como forma de vida
E deixo a pergunta no ar: por que há tanta dificuldade no debate sobre o racismo?
Porque de nossa resistência?
Resistir é querer não ver?!?
O que é mesmo diáspora?

 

O Brasil Não Quer Ser Africano

O artigo abaixo nos foi solicitado, em 2006, pelo jornalista Ênio Lins, um grande parceiro. Publicado em 04 de novembro de 2006, no Caderno SABER da Gazeta de Alagoas, foi reproduzido em vários sites.
O artigo vem cumprindo o papel a que foi destinado de servir como ponto de referência interpretativa sobre a realidade racial nos espaços da escola do Brasil como em Alagoas.
O Brasil Não Quer Ser Africano vem servindo como fonte de pesquisa para inúmeros trabalhos acadêmicos, dentre eles o do professor de educação física de Duque de Caxias, Rio de Janeiro, Bruno Rodolfo Marques que em sua tese de Especialização em História da África e Diáspora Africana no Brasil, citou o referido artigo.
A tese do Bruno promove uma análise do racismo sob a ótica de um professor de educação física, intitulado: Paixão pela nossa cor o Mineiro pau e a Educação Física. Para entender melhor o trabalho do Bruno basta fazer a busca no Google. É muito bom partilhar conhecimentos
Como o texto do O Brasil Não Quer Ser Africano é enorme já o condensamos algumas vezes nesse blog com o formato de pequenos artigos e agora estamos postando em sua íntegra por conta do e-mail que recebemos do Yuri/Leonardo que transcrevo abaixo:
“Olá camarada Arísia,
Tudo bem?
Meu nome é Leonardo, sou diagramador de uma editora de livros de Campinas e militante do PSOL. Quando cursava a faculdade de jornalismo, tive a chance de ler um artigo seu chamado "O BRASIL NÃO QUER SER AFRICANO", maravilhoso e sensacional. Gostaria de postar na minha página do twitter para que outras pessoas possam ler esta obra prima, mas infelizmente não encontrei em nenhum lugar na internet. Você saberia me dizer se este texto está disponível em algum site?
Fico no aguardo e obrigado pela atenção.
Um grande abraço,
Yuri”

O Brasil Não Quer Ser Africano
Preconceitos e Incompreensões Dificultam a Educação Cidadã em Alagoas e no País.

O racismo no Brasil é uma patologia epidêmica que espia pelas frestas das fragilidades humanas e se aloja entre a razão e o bom senso.
Com o advento da Lei federal nº10.639 de 09 de janeiro de 2003- que cria a obrigatoriedade do estudo da África e dos negros e negras descendentes no currículo escolar, as escolas brasileiras têm pela frente a tarefa de preencher com possibilidades pedagógicas, o hiato presente na história que se conta e criar espaços estratégicos para o estudo das relações inter-raciais nesse universo.
A história do povo negro é seqüestrada diariamente no cotidiano das salas de aula, nas páginas dos livros didáticos e em cada esquina do conhecimento pedagógico. Recentemente, uma professora afirmou em sua aula de história que o “país” África era pária do mundo, não muito contente com a abrangência do substantivo mundo, ampliou para universo.
Meninos e meninas demonstraram uma má disfarçada inquietação. Não que ousassem contestar a absurda avaliação histórica da mestra, simplesmente não sabiam o significado de “pária”.
Reinventam-se fórmulas para a perpetuação da “teoria das raças”. Emudece a voz histórica e as nossas concepções eurocêntricas ganham a interpretação de história verdadeira. Vira-se a página!
Outra professora transformou em lenda a história de Zumbi dos Palmares. Uma meninazinha levantou o braço e perguntou? Tia, Zumbi não existiu? E a mestra enfática: não foi bem isso que quis dizer, mas disse, afetando de modo decisivo a percepção de crianças, ainda pequenas sobre Zumbi, o Rei de Palmares!
É a pedagogia caduca na busca dos semelhantes e da exclusão dos “diferentes”, ganhando sobrevida nas salas de aula, criando espaços estéreis feito páginas em branco, onde tudo pode ser imaginado, segundo a preferência do freguês/freguesa.
É nossa ignorância histórica limitando as muitas possibilidades para que meninos e meninas, mesmo não tendo uma linguagem comum, estabeleçam espaços de partilha ética e respeito ao outro/outra. É o racismo nosso de todo dia que põe a burca e europeíza nosso olhar.
O mito da miscigenação brasileira serve de pano de fundo para mascarar, normatizar e internalizar o racismo cotidiano. Qual a escola brasileira que se atreve a dizer que a Princesa Isabel foi uma lenda?
Explosão de contradições! É a busca dos valores do colonizador radicalizando a linguagem da escola, a estruturação das diretrizes do currículo escolar data do império, impondo um processo de acomodação secular, a eurocentricidade que cala a voz/cultura/expressões negras de milhares de meninos, meninas e jovens negras, brancas,indígenas.
Educação é movimento. É a construção de pontes mais transitáveis para a promoção do discurso do respeito às diferenças e a construção singular do sentido de grupo. Educar é contar histórias, escutar atentamente as diferentes construções históricas identitárias, abrindo o leque para que todas as vozes oriundas das muitas culturas sejam ouvidas.
Quando a educação fala linguagens diversas, as respostas surgem. A tia Eunice pede à sua turma a leitura do livro “O Sítio do Pica pau Amarelo”. Após a leitura, o menino do alto dos seus dez anos de loquacidade e sabedoria, expõe ponto de vista abalizado: Tia, o Sítio do Pica-pau é igual à história do Brasil? E a tia engessada na interpretação usual do livro centenário, inquire: que idéia é essa, menino?
E ele já transpondo suas pontes: No Sítio tia, como na História do Brasil, todos os negros são escravos! Xeque mate para quem aos 10 anos já percebe que estereótipos criados e consolidados da subalternidade do povo negro são naturalizados e aceitos nas muitas literaturas brasileiras.
O Brasil atravessa a rua quando encontra a África!

A concepção da escola invisibiliza a identidade negra

Uma das características básicas do currículo escolar é a flexibilidade, entretanto, quando a temática é a negra o verbo mais conjugado é o resistir. Resistir sistematicamente aos preconceitos adquiridos em um processo de má informação e da má formação sobre a África. Resistir ao processo da construção de espaços intelectuais e de poder para um povo que foi expatriado do seu continente e mantido a força em território brasileiro, como escravizado. O corpo organizacional da escola (gestão, professoras e professores) justifica a resistência com alegações diversas. Desde o receio de não ter informações para aprofundar o assunto, com desculpas pueris como “na escola não há alunos/alunas negras,portanto não tem porque trabalhar isso”.
Para introduzir o estudo sobre o continente africano é preciso trabalhar na desconstrução e eliminação de alguns elementos básicos das ideologias racistas brasileiras.
Quais os padrões usados por nós professoras e professores no quesito beleza? Internalizamos a consciência do homem branco/europeu/cabelos lisos e de preferência loiros. E, quando eu escolho padrões, eu qualifico. Eu seleciono. Eu diferencio. Eu discrimino. Eu excluo. A auto-construção negativa do adulto negro tem seu início na educação infantil. É preciso que façamos da educação um exercício salutar de tratamento das questões humanas fora dos padrões ideológicos.
Na escola não há espaço para anjos negros, nem bailarinas gordas ou princesas que tenham deficiência.
Na escola não há espaço para herói e heroínas negras. Na escola criança negra não faz parte do mundo do faz-de-conta porque no mundo do faz-de-conta, todas as princesas são brancas: Branca de Neve, Cinderela, etc, etc... A criança negra é cuspida da escola quando coleguinhas a estigmatizam como tiziu, cabelo de bombril, cabelo pixaim, ”Zumbi”, numa relação clara com sua descendência étnica. Na escola, Zumbi ainda não é rei. É apartheid estético-social. O mais grave é que o negro, com essa massificação imposta pelos valores eurocêntricos, nega a sua negritude, tem medo da própria imagem e conseqüentemente teme o direito de reivindicar sua própria história.
A escola não conta aquele conto que em 1597, o primeiro rei, Ganga Zumba, concebeu em uma serra de muitas palmeiras uma das primeiras sociedades econômica e socialmente viável e auto-sustentável: o Quilombo dos Palmares. O Brasil não conhece o Brasil!
Que motivações complexas são estas que nos faz discriminar, através de formas quase invisíveis do preconceito que se apresenta em nossas práticas cotidianas, na sutileza dos discursos? Porque é tão complexo criar uma identidade negra positiva e a vivência da negritude nos espaços pedagógicos?
Ao investir na aplicabilidade da Lei nº10.639/03, o organismo escolar promove o diálogo entre os diversos atores e atrizes do processo, paralelamente produz a argamassa necessária para a moldagem, para a construção coletiva e dialogada de uma pedagogia capaz de superar as limitantes idéias racistas, rompendo paradigmas.


Um menino Francisco e Zumbi dos Palmares

Os silêncios, vazios em sua essência histórica, e os fragmentos de memória da história de Alagoas, abrem lesões profundas e intrínsecas na contextualização da luta guerreira do povo negro - simbolizado na figura de um menino dado de presente a um padre. Um negro chamado Francisco - que antes de ser convertido aos padrões eurocêntricos da educação recebida, subverteu a idéia construída de negro como povo escravo, malemolente. Francisco que não herdou a mansidão do santo dos passarinhos. Francisco, o senhor dos quilombos. O Brasil demorou 300 anos para internalizar a questão do herói negro. 300 anos! A Rua do Brasil que dá de cara com a África é um beco sem saída! Francisco, o menino transformou-se em Zumbi, o guerreiro.
A palavra Zumbi, ou Zambi, vem do africano quimbando “nzumbi”, e significa, a
grosso modo, “duende”.
Dizem que a partir da sua vivência no mundo dos brancos, Zumbi apoderou-se da certeza de que o povo negro precisava se transformar em sujeito de sua própria história e não continuar objeto dos caprichos do senhor. Francisco, o Zumbi, contrapôs a história de que uma andorinha só não faz verão. Creio que uma andorinha só, pode sim, plantar a chuva e da terra molhada nascer o feno que chamará outros humanos famintos de sonhos e aí cabe a andorinha seduzi-los e seduzi-las para revoada.
Zumbi, o dos Palmares, concebeu no quilombo a incorporação de ideais humanitários, a legalização dos direitos humanos: somos diferentes sim, mas não desiguais! A Escola cala a voz de heróis e heroínas não hegemônicos. Ganga Zumba foi negro. Zumbi tinha orgulho da sua negritude. O povo negro não é hegemonia. A invisibilidade da história negra traz para a contemporaneidade a degola metafórica da luta palmarina e outras intervenções negras, quando as informações didáticas e sociais vêem carregadas de juízos de valor que estabelecem lugares de poder e a relação de submissão do negro escravizado com o branco/senhor/dono.
Ponto contra!
É urgente a qualificação dos espaços pedagógicos. A voz de milhares de profissionais da educação ainda se atrela e atropela as existências da multiculturalidade. Como se dará a inserção da temática negra na escola se os conceitos já vêem predefinidos e mapeados pela ótica envelhecida e empobrecida do unilateralismo dos saberes?
Ao colocar correntes no currículo, a escola nega e perpetua a África escravizada pelo sinuoso subterrâneo do racismo. Na verdade, o Brasil não quer ser africano - já dizia o grande Abdias Nascimento - o ícone brasileiro do movimento revolucionário negro. Arma-se um pano de fundo sociológico com relações de causa e efeitos nefastos nítidos e precisos na errônea reinterpretação da história e da desigualdade racial e social crônica: dominantes e dominados.
Ganga Zumba e Zumbi lideraram uma das maiores expressões de luta organizada no Brasil em resistência ao sistema colonial-escravagista E nós, seu povo descendente, fruto da noção cristalizada da hierarquia dominante, moramos em favelas, palafitas, somos o maior contingente de analfabetos.

 

O Brasil tem vergonha de ser negro

Em Alagoas, dados do IBGE informam que 47% das crianças analfabetas são negras e 27% pardas. Portanto, analfabetismo em Alagoas não é só um apartheid de classe, é principalmente um drama de cor. E essa cor é negra. A construção de conceitos estereotipados atrapalha o desempenho escolar da população negra, o que se reflete nos índices de analfabetismo, evasão e repetência.
Antes de sermos pessoas, somos diagnósticos críticos. Segundo relatório da ONU (Organização das Nações Unidas) em cada grupo de dez jovens de 15 a 18 anos assassinados no Brasil, sete são negros. A raça também representa 70% na estimativa de 800 mil crianças brasileiras sem registro civil. “Entre os indicadores negativos, os negros só perdem para a população indígena na taxa de mortalidade infantil.” Os números, contidos no relatório “Estudo das Nações Unidas sobre a Violência contra Crianças”, mostram que o perfil das vítimas da violência vai muito além da faixa etária.
Porque o estado brasileiro- o último a conceder a alforria, o segundo país mais negro do mundo ensurdece a vozes negras dos negros?
Como conceder tratamento político igualitário a quem vive no olho do furacão das desigualdades sociais? O estado brasileiro ainda ignora Palmares dos pobres e dos negros. E, como somos maioria nos dois gráficos estatísticos,afirmamos que o
organismo estatal ignora o povo negro.
Segundo Aristóteles, a definição de sociedade sinonimiza com parceria, partilha de valores. Zumbi, o mais negro dos heróis brasileiros, foi unidade de luta e ao mesmo tempo transformou-se no símbolo de milhares de vozes anônimas gritando basta a exclusão.
Zumbi fez escola e hoje a lei nº10. 639/03 sinaliza para uma clara reflexão político-pedagógica do todo social.
Acreditamos que a aplicabilidade da lei em todas as escolas alagoanas - uma obrigatoriedade da Secretaria Executiva de Educação (orgão normatizador e coordenador das políticas educacionais no estado) abre janelas e portas para a um processo de humanização, socialização e singularização do currículo escolar. Abre portas para a construção da cultura de grupo e de pertencimento étnico.
E, aí muitas meninas e meninos negros, brancos, ciganos, indígenas Fransciscos, Josés, Wallaces, Isabel, Marias, se sentirão acolhidas, incluídas e visibilizadas na história de Alagoas, que na sua grande vertente, é uma história negra.
Cabe ao estado alagoano transformar a lei em políticas públicas, afinal estamos no mês da Consciência Negra, mês do herói Zumbi, mês de todo anônimo e anônima que luta por uma sociedade mais justa e igualitária.
Dagô Francico! Axé Zumbi!

arisia.barros@ig.com.br;negrasnoticias@yahoo.com.br


 

O Brasil ignora Palmares e Alagoas desconhece sua própria história


Dialogar com a história negra buscando suas singularidades e especificidades no contexto histórico do país miscigênico chamado Brasil e com isso lançar bases para a discussão sobre o racismo institucional que permeia as ações estatais é desbravar territórios lacônicos, monossilábicos.
Quando se fala em identidade negra, esculpimos as máscaras da parcialidade, o desejo do “nós” social passa tão somente a refletir a ideologia sustentada por uma necessidade “moral’ de aglutinar dentro de um contexto próprio, os negros “nossos irmãos”, afinal promover uma intensa reflexão sobre as relações de poder na sociedade brasileira mexe com os princípios da linealidade eurocêntrica.
O Parque Memorial Quilombo dos Palmares, primeiro parque temático da América Latina, oficialmente inaugurado no dia 19 de novembro de 2007, se constitui em preciosa ferramenta para a promoção do conhecimento da historicidade do povo negro. É uma galeria repleta de referenciais históricos, a arte da resistência humana, dos gritos em uníssono: “existimos sim!”, dos nossos valores espirituais, incorporados por muitos e muitas nas alcovas da subalternidade.
O Parque Memorial Quilombo dos Palmares é o maior parque temático do continente americano. Localiza-se na Serra da Barriga, em Palmares. No mesmo local existiu o mais importante quilombo brasileiro.
O referencial desse quilombo é Zumbi dos Palmares. Zumbi é o herói negro alagoano, precursor da simbologia do que é ter consciência negra. Simbologia essa que criou corpo e hoje estabelece diálogos com os discursos sociais, nos muitos recantos do território brasileiros.
E, apesar de toda nossa história o Brasil ignora Palmares.
O Parque Memorial Quilombo dos Palmares é uma alternativa ao lugar comum da história contada nos livros didáticos. É um movimento espiral de cultura, educação e turismo. É a ruptura com a imagem marginal dos negros “nossos irmãos” e sobretudo um projeto que trará desenvolvimento, ao estado de Alagoas, por meio do resgate da historicidade negra, possibilitando a geração de emprego e renda.
E apesar de toda historicidade o Brasil ignorou Palmares.
Foi tímida a inauguração do maior complexo da América Latina, eclodiu a força do poder burguês e burocrático. Essa mesma força que demarca etnicamente dentro das
políticas públicas o que é prioritário nas agendas governamentais.Afinal estávamos mesmo em Alagoas? Foi um momento sobre ou com os negros? Em que senzala prenderam a alegria característica máxima do povo africano, consubstanciada pelo afro descendentes? Onde acorrentaram o riso largo e a cantoria que abraça universos nunca dantes abraçados?
Nunca antes na história de Palmares ouviu-se tão claramente o eco dos múltiplos e sutis caminhos percorridos pelo racismo institucional que existe, coexiste com o artificialismo das relações humanas, mas não diz seu nome, criando a tão nossa
conhecida atmosfera do racismo cordial.
Alagoas, este pequeno paraíso cravado em nossa geografia sentimental, e seus afro descendentes reclamam o direito a mobilidade social, para ter o direito de ser.
Como diria o jornalista Luís Mir *povo desfigurado na sua gênese pela ausência de uma redistribuição negociada das riquezas e da participação étnica que nos permitisse consolidar um espaço público e uma sociedade civil ativa.
Somos a terra negra de Zumbi!
Novamente citando jornalista Luís Mir: A escravidão, como modelo econômico, precedeu a qualquer outra discussão ou formulação. Tudo era determinado pelo escravismo; o código tributário, o papel da terra e da agricultura, comércio e relações internacionais, instituições políticas e sociais, aparato policiais e máquina administrativa partidos políticos e sistemas de representação,tudo,absolutamente tudo.
A fundação de uma sociedade moderna-urbana e positiva- feria mortalmente o cativeiro e seus senhores. (...) Sempre que se tentou a transgressão dessa ordem, uma resposta tão violenta quanto necessária foi feita, das formas mais naturais possíveis. A ordem étnica, em sua forma pura, era uma transcendência e um destino manisfesto que não podia ser desafiado, muito menos mudado.
Precisamos trabalhar os elementos tão diferentes e conflitantes dentro da agenda política dos estados da federação. O segregacionismo das idéias ainda nos mantêm presos aos grilhões do círculo social dominante, precisamos nos apropriar da nossa história, ousar a transgressão ao discurso oficial.
O Parque Memorial Quilombo dos Palmares se bem administrado ressignificará a história negra, econômica e turística do estado alagoano. Portanto cabe a máquina estatal assumir a responsabilidade que lhe cabe neste latifúndio.
O Parque Memorial Quilombo dos Palmares é a uma pequena África, em Alagoas
 

O racismo é hegemônico equaliza pessoas pela cor da pele para depois excluí-las.

Dia de aula cívica, e sem a mínima metodologia ou proposta pedagógica, a tia da escola pergunta aos pequenos e pequenas qual a cor de pele de cada um/uma?
A menina do alto dos seus nove anos, os cabelos presos em tranças com adereços multicolores, um belo sorriso de dentes com falhas infantis, a pele segundo o IBGE é parda, e a linda menina que ensaia com passos titubeantes a sua autoconstrução identitária, levanta o bracinho e solta de supetão: Eu sou morena-branca!
A mestra, responsável pelo agregamento e formação de valores num misto de indisfarçável incompreensão ri o riso da turma. É a mesma garota que confusa em anos anteriores dissera à tia que se considerava negra. E a professora entabulando um diálogo com a democracia racial dos anos 30 impôs à criança consensos e conclusões sociais, transformando um econômico argumento pessoal em intervenção pedagógica: negra não! Você é moreninha!
Não é fácil assumir-se negro no Brasil!
A professora na ausência do conhecimento das africanidades brasileiras perdeu uma grande oportunidade de trabalhar junto com a turma o processo de construção da diversidade étnica e cultural como um território rico em descobertas.
O morena-branca da garota aparece como metáfora da não existência.
Atropelado pelos conceitos construídos socialmente o negro/negra brasileira se auto-nega, fugindo de sua origem étnica e consolidando esse processo, o estado brasileiro adota fórmulas domésticas de combate à discriminação racial: invoca o mutismo histórico como estratégia para disfarçar o desconforto em atacar o racismo de frente. O racismo é híbrido!
E lembro de depoimento de uma adolescente negra ao preencher um formulário diante do quesito cor: Sei que branca eu não sou, afinal qual é a minha cor?
A escola brasileira consegue estabelecer um parentesco consangüíneo com as concepções da dominação colonial, construídas a partir de uma colagem eurocêntrica, inviabilizando a existência do povo negro.
O agravante no processo histórico/educacional é a naturalização do racismo. Existe algo de errado num mundo/escola, país-50% africano - em que as pessoas buscam uma hegemonia ariana. Qual a Alemanha que vive em nós: a de antes ou depois do muro? A escola brasileira precisa traduzir em seu currículo a observância dos princípios do pluralismo e da diversidade nas mais diversas esferas do convívio humano. Criar histórias positivas dos povos ditos diferentes: negros/negras, indígenas fundamentando um olhar cúmplice sobre o sentido cíclico da história da humanidade. Só o conhecimento quebra as fronteiras do preconceito, traduzindo uma escolarização capaz de romper com a consolidação de estereótipos sociais. Não há consciência sem conhecimento, sem reflexão.
Portanto, torna-se imprescindível formular políticas públicas que estimulem a igualdade das condições desiguais. O combate ao racismo se faz através da educação e de distribuição de renda. A escola é o palco de engajamento para reaprendizagem de padrões comportamentais que levem a uma sociedade mais justa e igualitária. Ao omitir-se em trabalhar a diversidade étnico-racial as instituições escolares fecham as portas para muitas culturas, marginalizam outras, empobrecem o alcance do olhar e sobretudo cria estofo para o preconceito.
Se não somos racistas porque foi necessário a criação de uma lei para introduzir no ensino das escolas brasileiras o estudo da matriz cultural africana?
 

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