Blog parada Sinistra com Renata Santos

Cálice (Cale-se)

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Apesar do dia claro, o sol escaldante e a normalidade aparente, hoje o dia estava coberto por uma nuvem cinza e pesada de tristeza, pesar e indignação. Na noite do 14 de março, a voz de uma mulher negra, favelada, feminista, homossexual e pobre foi calada da forma mais cruel possível: ela foi assassinada!

Durante as últimas horas, um sentimento estranho que não sei muito bem definir assolou a minha alma de tal forma que a certeza que sempre tive de que “um outro mundo é possível” foi colocada à prova...

Vivemos tempos sombrios em que o ódio pelo diferente apresenta-se a todo o momento, sem o menor constrangimento utilizando-se sempre com a desculpa de que a liberdade de expressão lhe dá o direito de falar o que se pensa independente, se esse pensamento atinge ou não a liberdade do outro. E isso fica evidente quando nos deparamos com os comentários deixados sem nenhum constrangimento por diversos cidadãos nos diversos posts em redes sociais sobre o assassinato de Marielle Franco.

Nos dias atuais, defender os Direitos Humanos, a democracia e a igualdade de direitos transformou-se em sinônimo de defesa de bandidos, promoção da desordem e a afronta as instituições. Ao refletir sobre isso, não consigo compreender como há pessoas que possam pensar dessa forma e me questiono: será que sabemos o que significa a Defesa dos Direitos Humanos?

A Declaração Universal dos Direitos Humanos foi proclamada em 1948 na Assembleia Geral das Nações Unidas e foi elaborada por um mundo que ainda sofria as consequências de uma Guerra Mundial. Os diversos povos que construíram essa declaração imbuíram nesse documento seus sonhos e anseios na busca por um mundo melhor ao reconhecer que cada ser humano pode desfrutar de seus direitos fundamentais, com dignidade, valorização, igualdade de direitos entre homens e mulheres, e promoção do progresso social e de melhores condições de vida em uma liberdade mais ampla sem distinção de raça, cor, sexo, língua, religião, opinião política ou de outro tipo, origem social ou nacional ou condição de nascimento ou riqueza.

Em um país sem justiça social e igualdade de oportunidades como o Brasil, em que o patrimonialismo e a desigualdade são inerentes a nossa estrutura social, defender esses direitos é ousar, é ser contra o óbvio, é ser incompreendido, é ser questionado, é ser estigmatizado, é ser perseguido, é ser assassinado... Nessas terras em que os interesses individuais se sobrepõem a todo momento aos interesses coletivos, enfrentar o status quo incomoda e tornou-se perigoso.

Marielle era uma sonhadora e, como parlamentar, representava a voz de milhares de sonhadores, que como eu, ao votar nela em 2016 lhe empoderou para lutar em nosso nome por uma sociedade mais igual, justa e solidária. Tentaram cala-la, tentaram me calar, tentaram nos calar... mas como boa sonhadora que sou, acredito que esse “cálice” se reverbera em milhares de vozes que continuaram com a luta que ela travou.

Hoje, pensei em não escrever, mas decidi não me calar!

“Quantos mais vão precisar morrer para que essa guerra acabe?” (Marielle Franco, um dia antes de ser assassinada).

Marielle Presente!

Notas:

       Link da Organização das Nações Unidas – ONU com a Declaração Universal dos Direitos Humanos: http://www.onu.org.br/img/2014/09/DUDH.pdf

       Link da música “Cálice” de Chico Buarque, infelizmente tão atual: https://www.youtube.com/watch?v=RzlniinsBeY

As dimensões do 08 de março.

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O 8 de março é o dia em que eu, como a maioria das mulheres, acordo com diversas mensagens no whatsapp de parabéns, o dia que sou parabenizada pela maioria dos homens que me encontram seguido daquela clássica frase “o dia da mulher são todos os dias, mas hoje é especial”, ganho flores, chocolates e mimos que não são comuns no dia a dia. Eu, particularmente, não me incomodo mais com essa dimensão de “comemoração” do 08 de março.

Mas o que fica na minha cabeça a cada parabéns que recebo é: Por que estou recebendo esse parabéns? Será que é porque tenho uma jornada de trabalho diária dupla ou até mesmo tripla? Ou porque sou a responsável quase que exclusivamente pela educação da minha filha? Ou porque tenho que ter a sabedoria para lhe dar com as “brincadeiras” diárias pelo simples fato de ser mulher? Ou por me impor de forma mais incisiva em uma discussão seja no âmbito profissional ou pessoal, caso eu queira que minha opinião seja considerada? Ou por ter a coragem de ter feito minhas escolhas mesmo sendo julgada socialmente? Eu prefiro acreditar que é por isso tudo, mesmo que não seja...

Na realidade, o 08 de março, assim como o dia da Consciência Negra (20 de novembro), o dia da Pessoa com Deficiência Física (11 de outubro), Dia Internacional dos Direitos Humanos (10 de dezembro), dentre outras datas “comemorativas”, devem ser encarados como um dia de discussão e reflexão quanto à questão da Mulher em todas as suas dimensões: a igualdade de gênero, a igualdade salarial, seus direitos reprodutivos, o direito a oportunidades, as criação e implementação de Políticas Públicas necessárias para essas conquistas, dentre tantas outras temáticas.

Não queremos apenas “Parabéns” queremos também que tod@s se unam na busca de igualdade de direitos e na construção do caminho para essa igualdade. E quando eu falo de igualdade, não estou dizendo que quero ser igual a um homem, até porque eu não sou o que eu digo é a igualdade de direitos e oportunidades, principalmente, levando sempre em consideração as diferenças.

Hoje nós mulheres trabalhamos mais, somos maioria com nível superior completo, já somos 40% d@s chefes de famílias do país, mas ainda ganhamos em média 23,5% a menos da remuneração dos homens, temos menos representação e participação política (apenas 16% do Senado e 10,5% da Câmara dos Deputados, para dar um exemplo), ocupamos pouquíssimos cargos de liderança e na Alta Administração. Ou seja, a situação de nós mulheres no Brasil é um grande paradoxo social onde temos muitos deveres e menos oportunidades. E isso sem falar sobre a questão da violência contra mulheres que merece um outro post só para esse tema...

Não sei para vocês, mas eu quando vejo essas estatísticas e percebo o longo percurso que ainda temos que percorrer, me solidarizo com todas as mulheres e fico feliz quando vejo um homem também se solidarizar porque sem esse engajamento de tod@s, o caminho a ser trilhado será mais longo e árduo...

A reflexão que deixo nesse 08 de março é: que sociedade nós queremos para noss@s filh@s? Que sociedade nós queremos para nós? A partir dessas respostas e dialogando entre tod@s, acredito que poderemos construir uma sociedade melhor e mais inclusiva, na qual tod@s desempenhem um papel importante. Espero que no próximo 08 de março as outras dimensões que envolvem a questão da Mulher estejam mais em discussão, além do prisma “comemorativo”.

Notas:

  1. Os dados utilizados para esse post foram retirados do estudo “Estatística de Gênero: Indicadores Sociais das Mulheres do Brasil” lançado pelo Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística – IBGE e disponível em https://biblioteca.ibge.gov.br/index.php/biblioteca-catalogo?view=detalhes&id=2101551)

O Jornal do Brasil lançou hoje um vídeo no qual diversas mulheres falam das suas percepções sobre SER MULHER. Vale a pena ver: https://www.youtube.com/watch?time_continue=109&v=ZhP4WVRnI08

Qual é meu lugar de fala?

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Ao refletir sobre o que escrever nesse meu primeiro post, me deparei com um sentimento que há muito tempo não sentia e que na realidade pensei que. dificilmente sentiria novamente. O  medo de ser julgada pel@ outr@, de estar ocupando um lugar que não me pertence.

Lembro que a primeira vez que me senti assim foi aos 15 anos, quando ingressei no curso técnico em Contabilidade do principal colégio público da minha cidade no interior de São Paulo.

O ingresso no colégio era por meio de Vestibulinho e lá só estudava a nata da  sociedade. Recordo  que quando vi o filho do prefeito na minha turma me perguntei: o que eu estou fazendo aqui? E olha que naquela época eu nem mesmo reconhecia minha condição de negra, mulher e pobre.

De lá pra cá, esse sentimento me assombrou em muitos momentos, mas, ao longo da minha vida adulta, os caminhos trilhados, as leituras devoradas, a militância vivida, as histórias cruzadas e o empoderamento conquistado me fizeram esquecê-lo, até agora. Agora, como no passado, tive vontade de desistir, desistir de escrever e seguir com minha vida no modo automático, mas eis que, minha amiga Arísia Barros tão inspiradora, levou-me, em um impulso, a propor a escrita no Parada Sinistra. Deu-me coragem  para  enfrentar esse desafio.

Agora, você que está lendo deve está se questionando: Por que diabos ela decidiu falar sobre esse sentimento nesse primeiro post? E a resposta é simples. É porque em minhas reflexões cheguei à conclusão de que esse sentimento de desconforto, em lugares que aparentemente não são nossos  é algo construído, coletivamente, no imaginário social e que em algum momento, atinge, todas as mulheres, seja na hora  de se colocar numa reunião de trabalho, de discordar do companheiro em algum ponto na criação do filho ou de expressar sua opinião publicamente num blog.

E eu não poderia deixar escapar essa oportunidade de partilhar idéias nesse espaço que também será dedicado a isso. Desta forma, esse é o meu primeiro passo para iniciar mais um processo de desconstrução dentro de mim, para além do âmbito profissional.

É isso. Estou aqui para falar sobre essa Parada Sinistra que é SER MULHER, em todas as suas dimensões: angústias, fraquezas, tristezas, felicidades, ambições, reivindicações e tudo o mais que nos é de direito. Tudo que venha  contribuir com o debate.

E pegando o gancho do post anterior de Arísia: Se esse é meu lugar de fala? Não sei.

 Só sei que aquele sentimento não está mais aqui e eu estou disposta a dialogar com vocês.

E para você que dedicou alguns minutos para ler esse texto eu te pergunto, você já se perguntou qual é o seu lugar de fala?

Eu sou Renata dos Santos, paulista de nascimento, carioca de coração e apaixonada por Alagoas...

Nota:

Parada Sinistra: Gíria Carioca que significa algo positivo mas que pode apresentar dificuldade.

 

E eu estou aqui apresentando essa mulher. Uma  preta poderosa que quero muito bem.

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Renata Santos é uma mulher que ocupa  um espaço,tradicionalmente de predominância masculina. Ela é Secretária Especial do Tesouro Estadual,da Secretaria da Fazenda, em Alagoas.

Uma  executiva de alto padrão.

Nascida em São Paulo e moradora do Rio de Janeiro. Ela é chefa da sua família.

Competência profissional,sensibilidade,sorriso largo,afetividade,poder de conciliação e versatilidade são características, apontadas pelo Secretário George Santoro,  da economista.

Qual o lugar de fala que tem uma mulher que se auto-identifica como negra em um espaço com tradição masculina?

Quais são as experiências de preconceito e resistência vivenciadas?

São sobre essas e outros temas que Renata falará em seu blog Para Sinistra ( depois ela explica o por quê do nome)

E eu estou aqui apresentando essa mulher. Uma  preta poderosa que quero muito bem..

Seja bem vinda, Renata Santos!

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