Trabalho do Carvalho

“Dr. Bumbum” A fragilidade das instituições trabalhistas e a proliferação dos profissionais bumbuns.

Polícia Civil do Rio de Janeiro 708e6220 a4aa 4673 b12d 7ebaefc5b381 Caso de polícia.

No curso de uma das suas piores crises econômicas, morais e políticas, o Brasil conhece mais um novo personagem. Figura que é a cara, e a bunda, do momento histórico nacional: o Dr. Bumbum, médico responsável pela morte da paciente e que abandonou o mundo dos milhares de likes e curtidas nas redes sociais para virar foragido da polícia carioca.

O que até então era um procedimento “simples”, injetar uma substância plástica conhecida como metacril na região dos glúteos, tornou-se roteiro de um filme de horror, expondo, além das bizarrices criminais do Dr. Bumbum, a fragilidade das instituições brasileiras.

E como são frágeis “as regras do jogo de nossa sociedade”... E como são frágeis as “restrições concebidas para moldar nossa interação humana”... Tão frágeis que permitem um médico injetar plástico no corpo de alguém, sem nenhum suporte técnico e na sua própria residência. Além de abandonar a cliente moribunda no plantão de um hospital e fugir da polícia quando tudo deu errado.

Dr. Bumbum entendeu a lógica do mercado desregulado, bem como das instituições brasileiras frágeis e desacreditadas. Vale tudo quando mandamos todas as regras às favas e nos importamos apenas com o menor preço final do serviço ou do produto. Pra que pagar o centro cirúrgico de um hospital, quando posso mutilar pessoas aqui em casa mesmo? Pra que contratar auxiliares técnicos qualificados quando minha própria namorada pode me ajudar?

Além de mostrar que esses custos eram “desnecessários”, a ficha corrida do Dr. Bumbum que, antes mesmo da morte de sua paciente, já respondia por porte ilegal de arma, crime contra a administração pública, resistência à prisão, violação de domicilio e exercício arbitrário das próprias razões, expõe uma realidade terrível: instituições frágeis; regras que podem ser simplesmente ignoradas; conselhos, associações de classe, polícia e a própria justiça que não conseguiram impor limites ao médico que prometia resultados “top, top”.

Há quem explique que a diferença entre países ricos e países pobres está na qualidade das suas instituições e, consequentemente, na estabilidade e confiança das regras. Nessa linha de pensamento “institucionalista”, países pobres possuem grande dificuldades em estabelecer regras e instituições confiáveis e, consequentemente, estabelecer trajetórias de crescimento econômico.

Se eles estiverem certos, estamos longe do desenvolvimento de nosso País em recessão. Basta olharmos para a reforma “sic” trabalhista que abençoa a flexibilização do “teletrabalho” e a plena e irrestrita flexibilização da jornada e remuneração do trabalhador “hipersuficiente”. É como se a reforma “sic” batizasse de Dr. Bumbum todo e qualquer profissional que recebe duas vezes o teto do regime de previdência geral.

Além de flexibilizar irrestritamente descanso e remuneração, um mero contratinho fajuto passou a ser capaz de transferir para o empregado toda a responsabilidade da aquisição da infraestrutura necessária para a realização do trabalho.

A crueldade da reforma que flexibiliza remuneração, aumenta jornadas de trabalho, reduz descansos obrigatórios, trata itens básicos de segurança e saúde do trabalho como custos a serem reduzidos, transfere para o trabalhador a responsabilidade sobre as ferramentas e a limpeza do próprio uniforme repercutirá, por óbvio, na qualidade do produto e do serviço prestado ao consumidor final.

Quer seja sendo maltratado pelos garçons contratados na modalidade de intermitentes, quer seja morrendo por omissões e erros grosseiros de profissionais da saúde, o consumidor final sentirá na pele, ou no bumbum, a vinculação entre a precarização do trabalho e a falta de qualidade do serviço prestado.

Sim, ele estava certo: quando os profissionais bumbum põem seus jalecos, o bicho pega.

 

“A Invisível Pessoa com Deficiência.” Incluídos no reino dos céus, mas longe do mercado de trabalho.

Gilmar. A907da72 7f71 4da3 bbd4 b2f4f8aa66a9 (Não) há vagas

Dizem que nos tempos da Galileia havia um tal de Jesus. Ele era conhecido por caminhar sobre as águas e transformar a água em vinho, mas também por andar com todo o tipo de excluídos sociais, tais como marginalizados, leprosos, prostitutas, órfãos, pobres e, também, pessoas com deficiência. Andava justamente com pessoas que grande parte da população fingia nem existir.

Dois mil anos antes da criação de uma lei de cotas para pessoas com deficiência, o evangelho reveste-se de fundamental inclusão social, trazendo para dentro de um “reino” toda a sorte de excluídos. Naquelas escrituras, justamente pessoas consideradas inexistentes, os invisíveis sociais, ocupam lugar de destaque.

Dentre elas, há uma atenção especial com as pessoas com deficiência. Inúmeras são as passagens em que Jesus curou mancos, aleijados, cegos, mudos e muitos outros. Eles não só ocupam papel central nas narrativas como são protagonistas do anúncio da chegada de um tal “reino dos céus”.

- Ide e anunciai as coisas que ouvis e vedes: os cegos veem, os coxos andam, os surdos ouvem... e aos pobres é anunciado o evangelho.

Mesmo tendo percorrido dois milênios após a crucificação, estamos muito longe de sermos uma sociedade inclusiva. Ainda que exista um arcabouço legal e de controle, falhamos demais na necessária e urgente inclusão das pessoas com deficiência em nossa sociedade.

A lei de cotas possui mais de 26 anos e continuamos a frustrar um direito fundamental de reservar às pessoas com deficiência quantidades mínimas de vagas no mercado de trabalho. Em Alagoas, nem 46% do total das 4.500 vagas reservadas às pessoas com deficiência nas empresas são ocupadas pelos seus destinatários legais.

Muitos alegam que não há pessoas com deficiência em número suficiente para ocupar essas vagas. Dessa forma, preferem se tornar cegos para aos mais de 800.000 alagoanos que, segundo o último censo do IBGE, possuem algum tipo e grau de deficiência.

Aceitar e repetir o argumento de que não há candidatos suficientes para ocupar essas vagas é tão preconceituoso como a atitude de quem vira a cara todos os dias para o cego que pede esmola em frente à Igreja do Livramento ou da mãe-monstro que exige da coordenadora da escola transferir seu filho para uma turma sem autistas ou crianças com déficit intelectual, alegando que o contato diário com esse tipo de aluno vem piorando o desempenho de seu herdeiro.

Esse desprezo pelas pessoas com deficientes não se limita às condições genéticas. Somos igualmente excludentes com o exército de doentes e mutilados oriundos do próprio mercado de trabalho alagoano que, apenas no período de 2009 a 2015, superou a marca de 53.000 acidentes de trabalho. Toda e qualquer iniciativa de controlar essa barbárie é inócua se não soubermos onde reinserir nossos acidentados. Coincidentemente, os setores econômicos que mais acidentam, mutilam e matam são aqueles que menos incluem pessoas com deficiência em seus quadros.

Poucas são as empresas de nosso Estado que se preocupam em desenvolver um ambiente de trabalho verdadeiramente acessível ou implementam políticas de contratação de pessoas com deficiências graves e moderadas, ressalvadas nobres exceções que realmente se esforçam em adaptar as suas rotinas e instalações. Ainda, é comum a preferência por pessoas com deficiências leves ou imperceptíveis, que não impactem nas rotinas ordinárias da empresa e não causem “transtornos” para sua inserção.

Acessibilidade e inclusão da pessoa com deficiência ao mercado de trabalho continuam sendo a porta do reino dos céus. Enquanto isso, aqui no reino dos homens de Alagoas, continua sendo mais fácil um camelo passar pelo buraco de uma agulha do que um cego, um cadeirante ou um surdo mudo conseguir sair do bairro do Prado e chegar ao Centro de Maceió.

“Essa canoa vai virar” Quem prometeu mais vagas de trabalho, entregou mais desemprego.

The Gilder Lehrman Ef960fab 2cd9 4e6a 9b24 04d05bc5500b Desempregados fazem fila para o "sopão" em Chicago, Illinois, em 1931.

“A lei trabalhista é velha e impede o desenvolvimento nacional porque dificulta a geração de empregos”, dizia o deputado. Com dedo em riste, vociferava: “a economia não pode ser freada por uma CLT arbitrária e fascista”. E, na árdua missão de feitor, sentenciava: “a lei será flexibilizada, só assim será possível criar vagas de trabalho”.

Ora, ora, ora...

Quem acreditou na promessa, ficou na espera. Hoje, quase um ano depois da sanção presidencial da reforma (sic) trabalhista vendida como salvadora, somos 13,1 milhões de desempregados, o que representa 12,6% da população economicamente ativa.

Mas se ficou mais barato contratar e demitir, recorrer ao trabalho intermitente, cortar adicional nos turnos de 12 x 36 horas, contratar mulher grávida em atividade insalubre, pagar menos dano moral para trabalhador assediado, praticamente extinguir a possibilidade de ser demandado na Justiça do Trabalho e tantas outras “dinamizações”.... O que foi que deu errado? Por que a inundação de empregos não chegou?

Simples: a reforma (sic) foi só uma desculpa para diminuir o custo do empregador. Nunca houve compromisso minimamente sério em criar mais empregos.

Não há e, do jeito que estão remando essa canoa, não haverá novos empregos porque os empresários não contratam somente em função dos custos da sua produção. A principal motivação do investimento deles é a expectativa de retorno, do quanto de dinheiro ele vai ganhar. É com o olho no lucro que o empregador define quantos empregos vai gerar.

Assim, em economês: o tal “equilíbrio” do mercado de trabalho não se define na livre negociação de salários entre trabalhadores e empresários, mas no “equilíbrio” do mercado do produto. O dono da indústria, o do comércio e o da empresa de prestação de serviço não vão contratar pessoas porque, depois da reforma (sic), ficou “mais barato contratar”. Eles contratariam mais empregados somente se esperassem produzir mais, vender mais e prestar mais serviços.

Pensar o contrário, achar que empresa funciona como o “mercado” de sapatos femininos em promoção, ou ainda que a empresa vai contratar mais porque “agora” os trabalhadores “não vão mais para Justiça” reclamar é rumo certo para ver a economia quebrar, ver a canoa virar de vez.

A livre negociação de salários e a flexibilização das garantias do emprego impactam diretamente no nível de renda dos trabalhadores. Uma menor renda leva a um menor consumo das famílias. Ora, se as famílias não consomem, o dono da indústria, o dono do comércio e o dono da empresa de prestação de serviço não terão nenhuma expectativa em melhorar a produção ou as vendas e não vão contratar ninguém. Ou melhor, vão é demitir ainda mais.

Bem-vindo ao Brasil de nossos tempos. Isso se chama crise. Recessão.

Estamos muito próximos do índice de desemprego dos Estados Unidos no início dos anos 30, após o crash da bolsa de valores de Nova York, no período chamado Grande Depressão, onde 20% da população ativa de lá estava desempregada.

O New Deal do governo Roosevelt, de 1933 a 1937, propunha como remédio econômico, dentre outras medidas, a redução da jornada de trabalho, definição de salários mínimos, seguro-desemprego, custeio de obras públicas, incentivo a criação de sindicatos e “aposentadoria” para os maiores de 65 anos. Isso foi fundamental para a criação da demanda de bens e serviços suficiente para estimular a produção e o comércio. A melhor expectativa dos empresários gerou mais empregos e a economia voltou a se desenvolver.

Ou seja, a ampliação das regras de proteção do trabalho, o aumento da renda dos trabalhadores, aliados a uma política de forte investimento público, foi fundamental para que os Estados Unidos superassem a mais devastadora crise econômica de sua história e que repercutiu em todo mundo.

Por aqui, estamos fazendo justamente o contrário, numa espécie de marcha do remador rumo ao fundo do mar.

 

“Frauda-me com força” Um roteiro pornográfico para as rescisões do contrato de trabalho.

40aeb2cc 0643 44a1 b847 968f4c743ccd Termos de rescisão do contrato de trabalho.

Ohh... yes... Ohh yes... Ohh yes...

Yes, ou melhor sim, poderia ser parte do roteiro de um filme pornô sadomasoquista, mas se trata apenas de um “convite às fraudes” que algo travestido de legislação do trabalho faz aos empregadores e trabalhadores de forma ativa e passiva.

Sem uso de pomadas japonesas e “azulzinhos”, poderíamos passar horas debatendo sobre gêneros de filmes pornôs, bem como sobre as permissividades que a reforma “sic” desnudou: fraudes na contratação e formalização de vínculos, no controle e pagamento de horas extras, no pagamento de danos morais, na dificuldade de acesso à Justiça, dentre outras. Um leque de perversões para saciar a lascívia do mais exótico tarado. Mas preferimos nos concentrar no fetiche da fraude à rescisão do contrato de trabalho.

Antes da abertura promovida pela reforma “sic”, existiam, em regra, duas principais formas de desligamento: uma motivada pelo empregador, demissão, e outra motivada pelo empregado, pedido de desligamento. Dentre outros direitos, a primeira ensejava o pagamento de uma multa rescisória de 40% do saldo do FGTS e a percepção do seguro desemprego; a segunda não “dava” direito a multa, tampouco seguro desemprego.

Contudo, nas sombras das alcovas mais liberais, havia uma “casadinha”, uma “fraudezinha” muito praticada que consistia na transformação do real “pedido de demissão” em falso “demissão sem justa causa”. Funcionava assim: o patrão fingia que demitia o empregado, o qual sacava indevidamente a multa de 40% e o seguro desemprego. Nessa “meinha”, no melhor estilo “primeiro eu, depois você”, não havia regra: em alguns casos os “parceiros” dividiam a multa rescisória/seguro desemprego, em outros o empregado devolvia a multa na sua íntegra e ficava com o seguro desemprego. Dependia da voracidade e da “tara” do dominador daquela relação.

Pois bem, visando regulamentar a suruba, foi criada uma “demissão consensual”, sem direito a palavra de segurança, onde é possível que empregador e empregado, livremente, decidam pela rescisão do contrato de trabalho, sendo possível o trabalhador receber metade da multa, ou seja, no valor de 20% sobre o saldo do FGTS, e movimentar até 80% dos recursos do FGTS. Sexo “legal” e com camisinha, mas sem seguro desemprego.

Você pode estar se perguntando algo do tipo: “Mas não é do trabalhador?” E acrescentaria, provavelmente: “Ele está dando o que é dele, para quem ele quer dar e ninguém tem nada a ver com isso”.

Não é bem assim... Longe de mim querer melar essa suruba, tampouco desejo participar como voyeur. Contudo, o FGTS é um fundo de longo prazo, uma renda diferida do trabalhador, que faz parte do portfólio das fontes de financiamento para o desenvolvimento de nosso País, usado basicamente em construção civil e saneamento básico. Ou seja, quanto menos no fundo, mais fedor e menos investimento.

Yes... yes... yes.... O ápice dessa relação está chegando agora... Principalmente nos setores de grande rotatividade de mão de obra sem qualificação, o empregador pode gostar do fetiche e ampliar a orgia de um para todos os casos de desligamento. Não seria muito difícil e o argumento é bem conhecido: “ou dá ou desce”, uma espécie de “se não pedir demissão, nunca mais te contrato novamente”.

Somando-se isso ao fim da obrigatoriedade das homologações das rescisões dos contratos de trabalho, temos um roteiro bem definido para uma deliciosa orgia nesse filme pornô em que foi transformada a CLT.

“Aprendiz de Otário” As perdas que as reformas impõem aos que recebem menos de um salário.

MTb. Aa1e1bc3 45e1 41cd ad75 8421761b6fa9 Precisa-se desesperadamente de um parceiro.

Há quem diga que a reforma (sic) trabalhista foi feita para modernizar as relações entre patrões e empregados, aumentar o número de postos de trabalho, fazer a economia crescer, acabar com a velha burocracia da CLT, cortar privilégios de castas abonadas. Ora, ora, ora...

Quem acredita nisso, na melhor das hipóteses, não leu a tal reforma (sic) ou, ainda, a micro “reforma da reforma”: uma tal de Medida Provisória n. 808, de 14/11/2017. O “inocente” ficou só na propaganda paga da televisão, nos programas de auditório de gosto duvidoso com entrevistados igualmente duvidosos e que distribuem notas de 50 Reais.

Várias noites de sono poderiam ser perdidas na desgastante tarefa de ilustrar as derrotas infligidas ao trabalhador, em especial o mais pobre e vulnerável, justamente aquele que deveria ser mais protegido. Contudo, vou me ater a uma questão previdenciária das mais assombrosas já vistas nos últimos tempos.

Sim, isso mesmo! Uma questão previdenciária na reforma (sic) trabalhista. Um “jabuti” que, como não sabe subir em árvore, só está lá porque alguém botou.

Para quem acha que a tal reforma previdenciária não pode passar em tempos de exceção, esquece que seus direitos podem virar fumaça enquanto a banda desfila e o povo assiste aos drones, tropas e tanques nas águas de um Rio em ruínas.

Pelo menos meio milhão de adolescentes e jovens atualmente contratados como aprendizes foram feitos de otários. Ainda que sejam registrados e tenham a contribuição previdenciária descontadas de seus contracheques, não mais terão esse tempo considerado para suas aposentadorias, nem gozarão do benefício do afastamento remunerado em caso de doença.

Ou seja, vão pagar por um serviço que não terão mais direito. Isso mesmo, não precisa ser especialista em Direito para sacar que isso é um roubo, um vilipêndio.

Para quem não conhece a aprendizagem, em resumo, ela é uma cota obrigatória que a empresa deve cumprir, em regra, com adolescentes e jovens de 14 a 24 anos. A lei privilegia pessoas em situação de vulnerabilidade ou risco social, tais como egressos do trabalho infantil, matriculados na rede pública de ensino, desempregados, jovens em medida socioeducativa, pessoas com deficiência, dentre outros menos abonados.

A lógica do mercado, tão presente nas políticas de austeridade do atual governo, manda um claro recado para aquele adolescente e jovem vulnerável: vão todos catar latinha, lavar para-brisa nos sinais de trânsito, vender refrigerante na porta do estádio em dia de jogo ou ajudar os pais nas feiras livres do Brasil. Pois, afinal de contas, pelo menos nessas atividades eles não terão que contribuir para uma suposta Previdência que não vão usufruir.

Esse “estímulo” ao desestímulo da formalidade dos contratos do trabalho só vai contribuir para aumentar o número de jovens que nem estudam, nem trabalham. Em 2016, essa fatia ficou em 25,8%, segundo o IBGE. Desestimular a inserção desse público no mercado de trabalho é ferir de morte o desenvolvimento de uma nação.

Se você ainda não acredita que o aprendiz foi feito de otário, leia aqui a tal medida provisória e preste atenção no art. 911-A e seus parágrafos.

Ahhhh.... Esqueci de falar que essa barbaridade não vale só para o aprendiz. Vai fazer de otário todo aquele trabalhador que recebe menos de um salário mínimo.

Cuidado! O otário pode também ser você.

“O voo das carteiras de trabalho da Tuiuti” E que a Beija-flor se cuide porque o vampiro foi vice.

Mauro Pimentel 4edc83b1 0bbe 4a64 b5b8 dcba640cb483 Vampiro com faixa presidencial da Paraíso do Tuiuti

Imagine se o Clube de Regatas Brasil ou o Centro Sportivo Alagoano, que competem dividindo o coração dos torcedores de Maceió, chegasse a uma final do mundial de clubes. Ainda sonhando, imagine que nessa partida derradeira, o representante alagoano enfrentasse nada mais, nada menos, que o atual campeão mundial, o milionário Real Madrid.

Se não bastasse tamanha façanha, suponha que a onírica partida ainda tivesse sido disputada lance a lance pelos jogadores se superando em técnica e emoção. Ao fim dos 90 minutos regulamentares, empataram. Restou a emoção da cobrança das penalidades máximas. Nos pênaltis, um gol convertido para um e para o outro também. Até que o último chute encontrasse a ponta da luva do goleiro do time espanhol ao espalmar a bola para fora do gol. Comemoração para os campeões esperados.

Hoje, quarta-feira de cinza, algo inimaginável aconteceu. Uma escola de samba, cujos integrantes são a sua principal riqueza, pouco conhecida pelos brasileiros, acaba de perder o título de campeão para uma das mais tradicionais, ricas e populares do carnaval carioca por apenas um mísero décimo de nota.

Não passa por este cronista menor diminuir a exuberância do primeiro lugar. O título foi justo e a escola fez por merecer. Contudo, o valor do segundo lugar desperta meu espirito e conquista toda a minha simpatia. E em verdade, para mim essa é a glória do campeão.

Por causa dessa quarta-feira de cinzas, acredito que, realmente, começamos o ano de 2018 hoje, uma espécie de réveillon atrasado. Uma sensação de que sim, podemos começar tudo de novo, podemos entender o que aconteceu de errado, podemos aprender com nossos erros e podemos construir o futuro de um Brasil mais justo e solidário.

Aula de história e de consciência social, política e econômica em forma de samba enredo, fantasia e carro alegórico. Em tempos tão obscuros para a arte no Brasil, fomos presenteados pela sagaz e voraz expressão cultural da comunidade de São Cristóvão, Rio de Janeiro.

Se não bastassem as alegorias da herança escravocrata do último país americano a abolir essa chaga social, essa forma nefasta de exploração do homem pelo próprio homem, era notória a clara relação com a precarização das relações de trabalho. Assim como nas ruas de nossas cidades, desfilaram pela Sapucaí alas de foliões ambulantes, de pessoas sem emprego, mas que a cada dia precisam matar um leão para prover o seu sustento e de suas respectivas famílias.

Os operários em carteira de trabalho gigantes que desfilavam na “ala dos guerreiros da CLT” da Paraíso do Tuiuti representam os milhares de trabalhadores vilipendiados por uma reforma (sic) de horrores. Tantas que não caberiam em um só desfile. Isso para não falar no bloco do arrastão previdenciário que ainda pode passar  pelo Congresso Nacional nos próximos meses.

Mas continuo tendo esperança no Direito do Trabalho, ainda que seja muito parecida com aquela dos foliões de uma escola de samba, até então desconhecida, e que almejaram se transformar nos campeões do carnaval de 2018.  

Ficou a esperança que a revoada de tuiutis nos inspire.

“Quando afogamos trabalhadores no esgoto.” Carta à mãe do acidentado morto em Maceió.

Foto: Assessoria de Comunicação do Corpo de Bombeiros/AL Abf73de5 6dec 4347 b40e 5292722369a3 Acidente fatal na rede de esgotos de Maceió.

A compaixão é a medida de nossa humanidade e respeito ao próximo. Por isso, não nos devemos calar quando o sofrimento e a perda nos unem. Mesmo assim, buscar as palavras certas para confortar um coração dilacerado é tarefa impossível, tarefa inútil. Nada do que será escrito poderá apaziguar a dor da alma de uma mãe que perde um filho com apenas 23 anos de forma tão cruel e violenta.

Em que pese não lhe conheça, tampouco sua família, nessa última semana a senhora permaneceu em meu pensamento. De longe, sofremos da mesma dor e desgosto, mas com intensidades diametralmente diferentes. Eu pensando nos porquês de nossa sociedade tratar com tamanha injustiça e descaso seus trabalhadores; a senhora destroçada pela perda de um filho, de alguém criado com amor e que foi tirado da senhora abruptamente.

Vivemos em um país demasiadamente violento para quem trabalha, um dos mais inseguros do mundo. Mais de 612 mil trabalhadores em 2015 sofreram algum tipo de acidente de trabalho, dos quais 2.502 foram fatais, o que corresponde a uma morte a cada três horas e meia. Em verdade, uma guerra velada que acidenta, mutila e adoece milhares.

Ainda que seu filho seja único para a senhora, ele passou a apenas uma estatística para uma sociedade tão indiferente à vida. Uma sociedade capaz de enaltecer o extermínio sumário, vomitando o jargão “bandido bom é bandido morto”, é incapaz de bater panela, de carregar faixa ou fazer passeata e buzinaço quando um trabalhador honesto sai de casa para trabalhar e morre por causa da sua labuta.

Somos uma sociedade histérica, desigual e desonesta na qual a defesa de quem só tem a força de trabalho não rende mais votos que a execução sumária de jovens negros e pobres das periferias.

Talvez, mesmo tendo o seu filho sido tragado pelo esgoto da cidade de Maceió, a senhora ainda escute que o acidente ocorreu por displicência do trabalhador, invertendo o papel de vítima para culpado, transformando seu filho em suicida. Talvez seu coração seja ainda mais mutilado ao receber essa informação não apenas daquele que vai defender o empregador, mas de alguma das instituições criadas para defender o trabalho.

Saiba que em 10/05/2017, ao participar de uma audiência no Senado, Ives Gandra Filho, Presidente do Tribunal Superior do Trabalho, afirmou que as indenizações estimulam a automutilação pelos trabalhadores, arrematando que “o trabalhador pode até provocar um acidente ou deixar que ele ocorra porque para ele será melhor”.

Ao comparar o trabalhador ao soldado que “retirava um dedo na mão esquerda para não ir à guerra”, o ministro deixa o anedotário tragar a honra do colega de trabalho de seu filho que, ao vê-lo à beira da morte, perdeu a vida tentando salvá-lo. Um herói também esquecido pela história.

Estamos em época negra para os trabalhadores. Passamos por uma “reforma” extremamente danosa para o hipossuficiente. Trabalhadores pobres, ainda que beneficiários da justiça gratuita, terão que pagar honorários advocatícios e periciais se perderem as ações. Ou seja, há muita possibilidade que mães de jovens trabalhadores pobres, como a senhora, sem recursos financeiros para contratar bons profissionais e ainda abaladas pela perda do filho, possam vir a ser condenadas por não provarem que seus filhos não foram suicidas quando se acidentaram no trabalho.

Se não bastasse, vendilhões propagam uma reforma previdenciária em que os trabalhadores vão morrer antes de se aposentar, ainda que isso já seja verdade nos esgotos de Maceió.

Por fim, os meus mais sentidos pêsames para toda sua família, pela perda do seu ente querido. Que todas as preces se revertam para a sua paz e para o conforto de seu coração. Desejo ainda que o véu da indiferença pelo trabalhador seja retirado de nossa sociedade e de nossas instituições. E que o Direito do Trabalho seja uma ferramenta na busca da justiça.

Para saber mais sobre a tragédia, clique nos links abaixo:

http://www.cadaminuto.com.br/noticia/315594/2018/01/27/homem-morre-e-outro-desaparece-durante-trabalho-em-tubulacao-de-esgoto

http://www.cadaminuto.com.br/noticia/315957/2018/02/05/acidentes-de-trabalho-sao-causados-pelas-empresas-e-podiam-ser-evitados

 

 

 

 

“Economistas sem mãe, nem partido” A doutrinação dos que não conhecem a sua própria história.

Mike Luckovich 18401f9e 4190 4a38 8029 87b619a55e77 Desigualdade

Enquanto o Estado de Direito se liquefaz e garantias básicas são exterminadas pela caneta do, talvez, mais reacionário Congresso que esse País já possuiu, muitos preferem se preocupar com a neutralidade (sic) do ensino e punir quem manifestar qualquer opinião que "induza o pensamento” de alunos em sala de aula.

Há quem fale em tipificar o crime de “assédio ideológico” e compare a discussão política na escola ao “assédio sexual” por medo de que os alunos sejam doutrinados para defender ideologias de esquerda ou se transforem lideranças estudantis. Tal neutralidade (sic), na sua máxima expressão política, é uma mera tentativa de isolar a possibilidade do debate e conduzir os estudantes a uma “verdade única” sem questionamentos. É apresentar conclusões aos alunos, sem testes e antíteses, limitando a opinião e a formação crítica.

A escola sem partido tem consequências terríveis, haja vista o que fizeram aos economistas e, consequentemente, com à política econômica de nosso País. Inequívoco que as maiores consequências da ruptura dos direitos sociais, trabalhistas, previdenciários, democráticos e de confiança nas instituições que desestabilizaram o Brasil vieram de uma avassaladora crise econômica. Porém a crise não veio da corrupção, sabidamente histórica, cultural e estrutural em nosso País. A “coisa” só degringolou quando faltou dinheiro, quando a economia sacudiu. Enquanto roubavam na fartura, ninguém reclamava, nem batia panela e o Brasil tocava a sua vida da maneira que podia.

Muito antes de se falar em doutrinação ideológica, as cátedras dos cursos de economia em nosso País já eram preenchidas por alunos “neutros” (sic). Futuros economistas que não foram confrontados com alternativas às políticas contracionistas que eliminam de toda a forma o gasto público com educação, saúde e “bem-estar social”. Futuros economistas que só sabiam enfrentar a inflação com desemprego, que só encontravam respostas olhando para gráficos cartesianos onde não cabem os aspectos estruturais de nosso País. Futuros economistas que foram doutrinados a só buscar reduzir o papel do Estado na economia para sobrar mais dinheiro para o pagamento dos juros.

Os nossos economistas brasileiros foram, nas faculdades, universidade e centros de pós-graduação, doutrinados pela lógica do mercado liberal, do estado mínimo que joga para debaixo do tapete a chaga social de que a camada 1% mais rica da população brasileira detém 28% da riqueza do País.

Tal lógica não tem soluções para o 25,4% da população brasileira que em 2016 viveu com menos de R$ 387,00 por mês, segundo o Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística. Essas externalidades (sic) não serão resolvidas pela lógica do plano de saúde ou do colégio particular, cujos custos têm que ser arcados pela já tão massacrada classe média.

A doutrinação dos economistas é tamanha que a maioria dos mais aclamados cursos de mestrado e doutorado em economia sequer corrigem as provas de “formação histórica e econômica do Brasil” dos candidatos ao seu ingresso.

Isso mesmo! Acreditem! Muito pior do que o ENEM onde não se pode zerar na redação, os candidatos a uma vaga em alguns centros de pós-graduação podem se dar ao luxo de desconhecer os motivos pelos quais diversos planos econômicos fracassaram e porque nos encontramos em situação de extrema desigualdade, pobreza e estagnação. Em verdade, se souberem as fórmulas matemáticas e decorarem bem as regras cartesianas, podem desenhar uma carinha sorridente na “redação” da prova e, mesmo assim, estarem aptos a se tornarem mestres e doutores.

Não é por coincidência que justamente os “mais proeminentes e famosos” economistas que ditam a política cambial, de juros e fiscal, se formaram em algumas das escolas “mais proeminentes e famosas” do País que desprezavam a nota da já desprezível matéria de “formação história e econômica do Brasil”.

Sim, sem dúvidas, somos uma nação fadada a repetir os mesmos erros do passado, certamente na economia e talvez, quem sabe, em todo nosso sistema educacional.

“Ano 2049 – Nas ruínas do Direito do Trabalho” Somente os astronautas do futuro poderão desvendar onde falhamos.

Arqueólogos da antiga Zona AL-5782. 67dd5618 856d 46e3 b2bf d9dddcc77b48 Portas abertas ao trabalho infantil.

Hoje, 11 de novembro de 2049, navegamos sobre a Zona AL-5782, que décadas passadas se chamou cidade de Maceió, Alagoas. Os escafandristas acabam de regressar da última pesquisa em campo: coletaram as derradeiras informações do pouco existente das ruínas submersas de usinas esquecidas no passado. Também encerraram as escavações nos prédios-caixões outrora utilizados como empresas de telemarketing, tão comuns naquela época.

Os arqueólogos concluíram que aquelas primeiras estruturas processavam cana de açúcar e rurícolas pelas engrenagens pouco mais avançadas do que aquelas utilizadas na escravidão. Os prédios-caixões, embora mais recentes que as usinas, processavam jovens em primeiro emprego com pouca instrução, matéria-prima abundante naquela época.

Já é possível a nossa equipe apresentar ao controle da missão algumas conclusões sobre a forma de como o Direito do Trabalho e suas instituições deixaram de existir.

Há registros sobre o papel de ministros, que em época de Estado laico, declaravam-se “cristãos”, mas, aberta e desavergonhadamente, pregavam o trabalho escravo como importante para o desenvolvimento; o critério censitário para definir a “moral” dos trabalhadores; o suposto grande número de trabalhadores que se mutilavam com o fito de receber indenizações; e muitas outras posições que ruboresceriam as faces de Jesus Cristo.

O comportamento deles limitava-se ao anedotário, bobos da corte que só se encontravam naqueles cargos por questões político-fisiológicas e cujo papel na história foi extremamente limitado, assim como seus respectivos currículos.

O poder legislativo, notadamente na destruição causada pela reforma (sic) trabalhista, possui certo destaque. Ele foi fundamental para a involução tecnológica e social daquele período, pois arruinou a demanda pelo emprego.

A dita reforma, mais para demolição, desarticulou seriamente a estrutura produtiva do País. Pessoas deixaram de almejar empregos como médicos, engenheiros, pesquisadores e astrofísicos para abrir PJ’s, viver de bicos, pulando de trabalho em trabalho, com nenhuma possibilidade de contribuir para a construção de um projeto desenvolvimentista nacional.

Em nome da precarização das condições laborais para supostamente aumentar a quantidade de postos de trabalho, passou a ser mais vantajoso ao trabalhador virar “mico” empreendedor individual, por exemplo vendendo cerveja e refrigerante na porta do estádio Rei Pelé em dia de clássico do CSA vs. CRB, do que se sujeitar a ganhar centavos por hora extra negociada “livremente” entre patrões e empregados.

Contudo, há uma injustiça em atribuir a responsabilidade de tal desconstrução a somente ao poder legislativo, a uma só entidade, a um só momento histórico. Os fundamentos basilares do Direito do Trabalho foram demolidos em ação coordenada por vários outros poderes e “sem poderes”.

O executivo foi responsável pela depredação e inanição da prestação do serviço público. A estratégia foi, até certo ponto, simples: não abrir concurso para sequer repor os quadros efetivos; deixar as estruturas físicas das repartições em condições insalubres e, literalmente, em ruínas; desinvestir em tecnologia; não destinar orçamento sequer para insumos básicos como gasolina para viaturas.

Quanto ao poder judiciário, nossos arqueólogos verificaram um histórico de implosão de princípios trabalhistas nos tribunais superiores, como a prescrição quinquenal de FGTS, permissão para contratação de Organizações Sociais na administração pública, prevalência do negociado sobre o legislado, cancelamento da ultratividade dos instrumentos coletivos de trabalho, nulidade da desaposentação, dentre outros.

Hoje, em 2049, concluímos que as pessoas daquela época eram realmente inocentes em acreditar que frases como “tenho alergia ao Direito do Trabalho”, “a justiça do trabalho nem deveria existir” ou “a fiscalização do trabalho impede o crescimento econômico do País” eram fanfarreadas somente nos gabinetes dos congressistas na Capital Federal.

Tamanha inocência só se compara àquela das pessoas que, realmente, acreditavam que hoje, 2049, teríamos conhecimento suficiente para viajar no tempo e retornar ao passado, mesmo deixando uma geração inteira de cientistas trocar os estudos para limpar os túmulos e vender flores aos visitantes dos cemitérios da antiga Zona AL-5782.

Atenção! Faça a sua parte e registre nas caixas de comentários da seguinte reportagem o quanto você “acha bacana” que crianças e adolescentes trabalhem limpando túmulos. Afinal de contas, “eles podiam estar roubando, matando ou se drogando”.

http://www.cadaminuto.com.br/noticia/312236/2017/11/03/auditores-fiscais-flagram-trabalho-infantil-nos-cemiterios-no-dia-de-finados

Sua colaboração será muito importante para que os arqueólogos do futuro escrevam porque estávamos fadados ao atraso cultural, tecnológico e ético.  

“Mariannes, Isabéis, Rosas e outras libertadoras” O ideal libertário entre machos escravocratas.

Eugène Delacroix, 1830. Ed001deb 7247 4cdf bdc3 5a59a8cb3465 La liberté guidant le peuple.

O País se liquefaz em uma implosão de princípios basilares. Não falo de conceitos econômicos, como desenvolvimento, emprego ou renda, mas de fundamentos inerentes a condição humana, pilares que uma vez retirados fazem desabar nossa espécie sapiens, reduzindo-nos aos escombros e ruínas do animalesco.

Também não falo de direitos sociais. Passo ao largo dos “luxos” como saúde e educação públicas, desprezados tanto pelos gestores (sic) públicos, como também pela classe média que os elege e que acha normal ter que pagar para fugir dos serviços de péssima qualidade oferecido pela União, Estados e Municípios.

Eu falo da liberdade. Literalmente, da liberdade.

Com tristeza e descrença no ser humano que mostra seu lado mais perverso, agarro-me a símbolos para, ainda, acreditar no homem, da mesma forma como o torcedor devoto que, mesmo sem gritar gol há vários jogos, sem ter seu time campeão em inúmeros torneios, apega-se à bandeira do clube pendurada na parede da sala, à insígnia de seu time no decalque da velha caneca de alumínio e às memórias dos artilheiros que há décadas deixaram de balançaram as redes dos adversários.

Símbolos servem para afirmarmos nossas crenças.

Em sua pintura mais famosa, Delacroix pintou a liberdade como uma mulher guiando o povo com a bandeira francesa em uma mão e um mosquete na outra, avançando por cima dos corpos dos derrotados. Seus seios completamente descobertos, além de registar sua condição de robusta mulher do povo, sublinha sua condição feminina.

Longe da Europa e mais de 50 anos depois, a Princesa Isabel, a redentora, assinava a Lei Áurea, abolindo a escravidão no País. Fomos o último país independente do continente americano a abolir completamente a escravidão e, por isso, os grilhões ainda estão arraigados em nossa sociedade. Um ano depois, Pedro Américo pintou “Libertação dos Escravos” com a liberdade também personificada em mulher. O escravo liberto, o menino e o demônio derrotado são as únicas figuras masculinas na obra.

No mundo real, foram mulheres que ajudaram a fundar o combate a condições análogas à de escravo no Brasil: nos anos 90 integraram e coordenaram os primeiros grupos móveis do Ministério do Trabalho, abdicando do conforto de suas casas e do convívio familiar para adentrar aos rincões do País, a fim de erradicar a escravidão contemporânea. Fizeram história com coragem, de peito aberto, desbravando o caminho que seria reconhecido e valorizado mundialmente.

Há apenas dois dias, uma outra mulher, Rosa Weber, impediu que o Ministro do Trabalho (sic) revogasse o Código Penal brasileiro, por intermédio de uma portaria que, além envergonhar o pior dos juristas, retrocedia o Brasil a 1888, restringia o conceito de condição análoga à de escravo e estabelecia critérios políticos na inclusão de empregadores na “lista suja” de trabalho escravo.

Enfrentando homens brancos, de idade avançada, auto declarados “cristãos” e na sua grande maioria casados com mulheres belas, recatas e “do lar” foi uma Rosa que teve a coragem e o poder de proferir, ainda que sujeita a revisão pelos seus pares, que a tal portaria “ao restringir indevidamente o conceito de ‘redução à condição análoga a escravo’, vulnera princípios basilares da Constituição, sonega proteção adequada e suficiente a direitos fundamentais nela assegurados e promove desalinho em relação a compromissos internacionais de caráter supralegal assumidos pelo Brasil e que moldaram o conteúdo desses direitos”.

Ela foi brilhante e dourada: áurea. O que reforça, ainda que simbolicamente, que a liberdade é feminina e como uma musa nos inspira a continuar acreditando.

Quase na segunda década do século XXI, defender “a” liberdade como valor indisponível e inalienável de sucessivos ataques é algo apavorante. Sinal de tempos sombrios e de retrocessos bizarros. Abrir mão dela não é meramente perder “direitos”, mas nossa condição humana, afundando em lamaçal ético, sem sermos salvos pelas mãos de uma redentora.

Veja o documentário "Frente de Trabalho" realizado pelo Sindicato Nacional dos Auditores Fiscais do Trabalho  - Sinait sobre condições análogas à de escravo no Brasil. Direçao: Caio Cavechini.

 

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