Trabalho do Carvalho

“Troca-troca de trabalhadores” Um swing mais que obsceno para aquecer a economia em tempos de COVID-19.

Reprodução Rs=w:350,h:263,i:true,cg:true,ft:cover?cache=true Rua Maciel Pinheiro, centro de Campina Grande/PB, 27/04/2020.

Eis que em um dos momentos mais nefastos da história do Brasil, com recordes de desemprego e perspectivas ainda piores, há um alçapão no fundo do poço: uma prometida legislação que permitirá o troca-troca de trabalhadores entre empresas.

A promessa é de que seja uma ferramenta para que o empresário possa trocar a mão de obra, permitindo que o setor que esteja contratando, contrate sem burocracia, e devolva o empregado, sem burocracia, para o empregador original.

Fica muito difícil começar uma análise séria sobre o assunto, tamanha a força com que o trágico e o cômico se abraçam. Talvez em condições normais, poderíamos iniciar algum comentário sobre como a proposta se remete à forma com que os senhores de escravos resolviam seus desequilíbrios de oferta em demanda de mão de obra até o final do século XIX no Brasil. Mas não...

Em tempos tão terríveis para a economia, onde o desmoronamento de um ministro da justiça prova o quanto é reduzida a capacidade de negociação individual entre patrões e empregados, demonstrando que a tal “negociação individual” não passa de verdadeira determinação patronal, permito-me voltar apenas 30 anos no passado, quando em 16/03/1990 foi anunciado o confisco da poupança dos brasileiros.

Medidas extremas como essas duas apenas demonstram a distância entre quem as define e os conhecimentos técnicos necessários para o exercício de suas funções, bem como a incapacidade de enfrentar os desequilíbrios do mercado de trabalho, no primeiro caso, e os processos inflacionários, no segundo.

Se em 1990 foi jogada no lixo toda a teoria monetária, com a implementação de uma medida arbitrária e dissociada de maiores cautelas quanto aos princípios básicos de economia, agora, 30 anos depois, são jogados fora todos os corolários que regem a relação entre patrões e empregados, reduzindo o trabalhador a um simples objeto, passível de ser trocado.

A proposta, se vingar, enseja no âmbito de toda empresa uma espécie de prestadora de serviço de mão de obra para terceiros; um negócio dentro de um negócio. Eventualmente, as pizzarias, ao descobrirem esse produto mais rentável, excluirão dos seus cardápios as tradicionais calabresas, portuguesas, pepperoni... e passarão a oferecer um produto mais rentável em seus cardápios: trabalhadores delivery.

 

Para informações sobre a proposta de troca-troca, leia aqui: https://noticias.r7.com/prisma/r7-planalto/governo-finaliza-texto-da-mp-que-vai-permitir-troca-de-trabalhadores-28042020;

aqui https://economia.uol.com.br/noticias/estadao-conteudo/2020/04/27/governo-vai-permitir-cessao-de-trabalhadores.htm;

e aqui https://www1.folha.uol.com.br/mercado/2020/04/medida-vai-permitir-troca-de-trabalhadores-entre-empresas-durante-a-crise.shtml

Fogo destrói supermercado no centro histórico de Penedo

Rs=w:350,h:263,i:true,cg:true,ft:cover?cache=true

Um incêndio de grandes proporções foi registrado na manhã desta sexta-feira (24) no centro hístórico de Penedo. As labaredas atingiram um supermerecado. 

De acordo com as primeiras informações sobre o fato, moradores que passavam pela Praça Costa e Silva notaram uma nuvem de fumaça escura saido por detras dos prédios. Lgo em seguida, constataram que o incêndio estava centralizado no Supermercado Santos 2. 

Equipes do 6º Grupamento Bombeiros Militar (6 GBM) foram acionadas para debelar as chamas que estavam atingido grande parte do estabelecimento comercial. 

Devido a grande proporçao do incêndio, e como uma forma de prevenção,  os bombeiros orientaram outros comerciantes de prédios vizinhos, a retiram os estoques de mercadorias pois poderiam também ser afetados. 

“Com o COVID-19, o trabalhador se lascou de verde e amarelo” Quatro meses sem salário, demissões e acidentes liberados.

Rs=w:350,h:263,i:true,cg:true,ft:cover?cache=true A permissão de demitir, deixar de pagar salários e mutilar trabalhadores.

Qual o pior cenário para um empregado durante a pandemia que afeta a economia do mundo? Nem as mentes mais doentias e perversas seriam capazes de construir o terror da Medida Provisória n. 927, de 22/03/2020, que supostamente se propõe a garantir empregos em face do COVID-19.

Ao passar de olhos em tamanho sadismo, causa arrepios saber que passou a ser possível um empregado ficar durante 4 meses sem receber nenhum salário. Basta que o trabalhador e o patrão negociem individualmente sob o pretexto de qualificação profissional. Assim, o patrão pode fornecer um livro usado, uma CLT desatualizada se tiver instintos de crueldade, para que o trabalhador fique em casa, sem receber nada, aprendendo sobre o que foi o Direito do Trabalho no Brasil.

Não existem diferenças práticas entre um emprego onde nada se recebe, mas que se mantem supostamente preservado, e estar desempregado.

Em verdade, a Medida Provisória ao invés de instituir medidas concretas para a preservação do emprego e da renda traveste-se em carta branca para o empregador demitir indiscriminadamente, sem qualquer punição, ou, ainda, garantia futura de recontratação. Assim, caso o empregador deseje, pode demitir quem quiser, deixar de pagar salário e cumprir com o dever elementar de garantir condições de segurança e saúde no trabalho.

Isso mesmo, liberou geral porque não haverá punições por 6 meses.

Ao se deparar com uma ocorrência, a Auditoria Fiscal do Trabalho apenas se limitará a fazer uma orientação, eximindo-se de impor penalidades. Pensem nos piores casos, nas piores irregularidades. Multas agora só para apenas quatro casos legais, dentre eles a morte do trabalhador. E precisa ser a realmente a morte dele: perder um dedo, uma mão ou um braço passaram a ser casos de mera orientação pela Inspeção do Trabalho.

Sim, isso não é um pesadelo. Você realmente está lendo isso.   

É claro que medidas de proteção às empresas seriam bem vindas em tempos tão nefastos, mas dentro de uma razoabilidade que passou longe dessa MP desleal. Ao invés de proteger o trabalho, garantir alguma forma de remuneração mínima para os que ganham até um salário mínimo, por exemplo, ou mesmo alguma esperança de recontratação, a norma imposta é uma permissão para que as empresas explorem os trabalhadores de todas as formas, inclusive com a possibilidade de adoecê-los e mutilá-los.

As demissões foram amplamente estimuladas. Os primeiros a irem para rua, sem direito a nada, nem ao de simplesmente reclamar nos plantões fiscais do que restou das antigas Delegacias do Trabalho, serão as mulheres, os aprendizes adolescentes e jovens, as Pessoas com Deficiência e os idosos, justamente aqueles que mais precisavam de ajuda nesse momento.

O mundo inteiro caminha na direção contrária, na preservação dos empregos, mas por aqui, o neoliberalismo sanguinário abandona o trabalhador a sua própria sorte, doente e sem remuneração.

Leia a MP 927, de 22/03/2020, aqui: http://www.in.gov.br/en/web/dou/-/medida-provisoria-n-927-de-22-de-marco-de-2020-249098775

“O trabalho da morte em tempos de COVID-19.” Um porteiro aposentado e uma doméstica foram os primeiros a morrer.

Rs=w:350,h:263,i:true,cg:true,ft:cover?cache=true Ilustração do COVID19

Em tempos de tanto arbítrio e intolerância, o democrático trabalho da morte nos ensina que ninguém dela poderá fugir. Independentemente da classe social, raça ou crença, todos haveremos de nos encontrar, mais cedo ou mais tarde.

Uma sociedade angustiada apenas em procurar o álcool gel nas prateleiras de farmácias e mercados, parece desprezar como o tecido social nos faz depender do trabalho de todos aqueles que estão a nossa volta.

Ainda que nossas despensas estejam abarrotadas de sabão, remédios e provisões diversas, nada disso adianta se aqueles que nos cercam, que cuidam e educam nossos filhos, que abrem nossas portas, garantem nossa segurança, entregam nossas correspondências, dentre outras tarefas consideradas secundárias estiverem completamente desassistidos pelas políticas públicas.

O fato de que os dois primeiros casos fatais de COVID-19 no Brasil foram um porteiro aposentado e uma empregada doméstica (ainda pendente de confirmação) dizem muito a respeito de como nossa sociedade vem cuidando de nossos trabalhadores e aposentados.

Há alguns anos o direito do trabalho e previdenciário vem sendo desconstruído em nosso país. A enganosa profecia de menos direitos e mais empregos, que só existe no incrível mundo dos mentirosos, vem destruindo garantias básicas justamente dos que mais merecem e mais se sacrificam em prol da economia nacional. Nessa esteira, não por coincidência, mais um golpe atinge a legislação trabalhista: parlamentares da Comissão Mista do Congresso aprovaram, por 14 votos a 1, a medida provisória MP 905/2019 que batiza de “carteira verde e amarelo” uma das maiores perdas de direitos laborais nos últimos anos.

Essa medida não estimula a criação de novas vagas de trabalho. Ela apenas se limita a provocar que os “velhos” trabalhadores sejam substituídos por “novos” empregados com menos direitos: os “novos” jogados na precariedade; os “velhos” no desemprego e na informalidade.

Talvez idosos abandonados pela legislação trabalhista também nem entrem em estatísticas oficiais de desempregados. É possível que só venham a ser considerados dessa forma após a sua morte, como o porteiro aposentado e a empregada doméstica que faleceram e sequer estavam nas estatísticas de casos confirmados ou suspeito de COVID-19, pois lhes foram negados os testes recomendados pela OMS.

Nenhuma medida de confinamento será suficiente para conter os efeitos perversos da desconstrução dos direitos laborais no País e que enfraqueceram, ainda mais, nossa já frágil economia. Nem todo estoque existente de álcool gel e máscaras descartáveis pode proteger uma sociedade que desampara seus trabalhadores.

 

Para MP 905, clique em:

https://www.correiobraziliense.com.br/app/noticia/politica/2020/03/17/interna_politica,834891/comissao-aprova-mp-que-da-beneficios-a-empresas-que-contratarem-jovens.shtml

Para a informações sobre e primeira vítima do COVID-19, clique em:

https://oglobo.globo.com/sociedade/coronavirus/parentes-do-primeiro-morto-pelo-coronavirus-no-brasil-revelam-que-ainda-nao-foram-submetidos-teste-24310745

Para a informações sobre e suposta segunda vítima do COVID-19, clique em:

https://odia.ig.com.br/rio-de-janeiro/2020/03/5883988-paciente-com-suspeita-de-coronavirus-morre-no-rio-de-janeiro.html

“O Futuro do Tribunal do Trabalho.” Entre a desonra, a guerra e os crocodilos.

Rs=w:350,h:263,i:true,cg:true,ft:cover?cache=true Tribunal Superior do Trabalho

Às vésperas da segunda guerra, o primeiro ministro do Reino Unido, Chamberlain, assinou o Acordo de Berlin cedendo a Hitler o controle da Tchecoslováquia que, em troca, garantiu que não reivindicaria nenhum outro território.

Ainda se acreditava que Hitler cumpriria sua parte no acordo quando Churchill já sentenciava Chamberlain com a frase histórica: “Entre a desonra e a guerra, eles escolheram a desonra e terão a guerra”. Acordos não diminuiriam as ambições do Führer.

A história é cíclica. Vilões se alternam de tempos em tempos para vilipendiar direitos. A avidez dos tiranos é irrefreável, pois o arbítrio não negocia.

Os últimos anos foram péssimos para o Direito do Trabalho. Suas instituições basilares foram fragilizadas e o trabalhador foi alijado de garantias históricas, rasgadas pela promessa de que menos direitos gerariam mais empregos. Ainda se espera os empregos que não chegaram e não chegarão.

Diz-se que a justiça, que é de gênero feminino, é cega. Diz-se também que sua balança equilibra as forças de uma disputa a fim de proferir veredito imparcial e com a finalidade de reduzir os conflitos sociais.

Entretanto, ao ler entrevista da atual presidente do TST dizendo que a reforma trabalhista foi “tímida” e que “vamos acabar não distinguindo mais a segunda do domingo”, resta nítido o espírito de sobrevivência das instancias políticas do Poder Judiciário Trabalhista em pactuar com insaciável precarização e perda de direitos.

Se a percepção da magistrada se turva quanto à diferença entre domingos e segundas-feiras, é importante que ela se aproxime daqueles que mais devia proteger: milhões de trabalhadores brasileiros que, diferentemente dela, não gozam de sessenta dias de férias. A eles, certamente, o domingo é muito mais caro que períodos de recessos judiciais. Talvez muitos desses trabalhadores também estejam nas estatísticas dos mais de 316 mil processos que aguardam julgamento no mesmo TST.

Naquela entrevista, nenhuma linha sobre as afrontas da cobrança de honorários e perícias, mesmo para usuários da justiça gratuita; da tabela de limitação de indenizações para danos morais; da criação do trabalho intermitente; da possibilidade de gestante trabalhar aplicando agrotóxico (somente corrigida pelo STF). Para tudo isso, timidez.

Essa omissão a tanta maldade cometida aos trabalhadores só é menos ruim do que a declaração de outro ministro do TST sobre trabalhadores que se auto mutilam para receber indenizações, como os soldados que cortavam os próprios dedos para não ir ao front de batalha.

Se a Justiça do Trabalho não cumprir seu papel no sistema de freios e contrapesos e se mostrar digna de suas tarefas constitucionais, promovendo o equilíbrio entre o capital e o trabalho, provavelmente ela sucumbirá da mesma forma que “alguém que alimenta um crocodilo esperando ser o último a ser devorado”.

 

Para entrevista com a presidenta do TST, clique em: https://www1.folha.uol.com.br/mercado/2019/12/vamos-acabar-nao-distinguindo-mais-segunda-de-domingo-diz-maria-cristina-peduzzi.shtml?origin=folha

Para ex-presidente do TST sobre automutilação: http://www.tijolaco.net/blog/presidente-do-tst-diz-que-trabalhador-se-fere-de-proposito-por-indenizacao/

Para PEC de outubro de 2019 que visa extinguir a Justiça do Trabalho: https://www.conjur.com.br/dl/deputado-apresenta-pec-acabar-justica.pdf

Para estatísticas do TST: http://tst.jus.br/web/estatistica/jt/recebidos-e-julgados

Anac abre consulta pública para rever regras de uso dos drones no país

Toninho Tavares/Agência Brasília. Rs=w:350,h:263,i:true,cg:true,ft:cover?cache=true Drone

A Agência Nacional de Aviação Civil (Anac) quer rever as regras de uso de aeronaves não tripuladas no país, os chamados drones. Na última terça-feira (5), a agência reguladora abriu consulta pública para colher sugestões e propostas da sociedade para mudanças na legislação atual, em vigência há mais de dois anos. As contribuições serão recebidas até 5 de fevereiro de 2020.

Dados de julho deste ano, mostram que cerca de 70 mil drones estão cadastrados no sistema da Anac, sendo 44 mil para uso recreativo e 25 mil para uso profissional.

A Anac disse que identificou a necessidade de rediscutir o Regulamento Brasileiro de Aviação Civil Especial nº 94 (RBAC-E nº 94), que trata dos requisitos gerais para este tipo de aeronaves não tripuladas, em razão do "desenvolvimento da aviação não tripulada e a proliferação dessa tecnologia em diversos setores".

Entre os pontos em debate está a revisão dos critérios para a concessão de licenças e habilitações de pilotos para a aviação remota. A medida permitirá o uso de equipamentos acima de 400 pés (120m) do nível do solo e operações além da linha de visão visual (BVLOS).

A legislação atual é que determina a necessidade de habilitação de piloto para as operações com aeronaves não tripuladas RPA das classes 1 (peso máximo de decolagem de mais de 150 kg), 2 (mais de 25 kg e até 150 kg) ou da classe 3 (até 25 Kg) que pretendam voar acima de 400 pés.

As contribuições serão recebidas eletronicamente, por meio da plataforma AUDPUB, disponibilizada no portal da ANAC.

“Direito de Greve e Desenvolvimento” A distância entre Alagoas e São Paulo e o respeito ao trabalhador.

Trabalho do Carvalho Rs=w:350,h:263,i:true,cg:true,ft:cover?cache=true Greve geral de 14.06 em Maceió/AL.

Desde a conquista do Brasil, as regiões tiveram “vocação” econômica em produtos voltados para o mercado internacional. Pau-brasil, ouro, cana-de-açúcar, café, borracha, algodão, proteína animal revezam-se nos conhecidos ciclos de exploração.

Mas algo aconteceu em São Paulo que o diferenciou dos demais Estados. Há consenso: pelas bandas de lá o excedente produzido pela monocultura do café foi reinserido na economia local em investimento na indústria nascente e na formação da estrutura social e urbana que viabilizasse a industrialização.

Isso foi tão decisivo que o parque industrial do país se concentrou em São Paulo. Em alguns setores específicos, como material elétrico, comunicação e transportes, o percentual de concentração da indústria supera 70%. Concentração de indústrias e, consequentemente, rendas e salários explicam o desenvolvimento, mas há mais fatores que nem sempre são considerados, ou cabem, em modelos acadêmicos.

É determinante pensar que, por lá, as primeiras ondas de modernização estimularam o trabalho assalariado e políticas de estímulo à imigração europeia. A sindicalização foi uma modernidade importada por aqueles imigrantes que já conheciam o processo de negociação coletiva entre patrões e empregados europeus.

Causa ou consequência, há uma relação entre desenvolvimento regional e valorização do trabalho que fica marcada não só nos livros de história, mas na economia, na cultura, nos costumes e nas instituições locais. Não é por acaso o fato de que no mesmo dia, na mesma causa de pedir, a mesma categoria de trabalhadores de cidades distintas, uma em São Paulo e outra em Alagoas, obtiveram resultados tão distintos na Justiça do Trabalho.

Em São Paulo, ganho de causa para o empregado que teve o seu direito de greve garantido pela Justiça do Trabalho, e ainda, a imposição de multa de R$ 1 milhão contra o empregador que tomasse qualquer iniciativa antissindical.  

Em Alagoas, ganho de causa para o empregador que conseguiu reduzir o direito de greve, mantendo 70% das atividades e, ainda, impôs ao sindicato dos trabalhadores multa de R$ 100 mil, solidariamente aos membros de sua Diretoria.

Sem entrar em méritos políticos, ou mesmo legais, mas as negociações coletivas laborais não são boas para o trabalhador alagoano, seu direito à greve é frustrado desde a época de Zumbi dos Palmares, que reivindicava coletivamente os direitos de milhares de trabalhadores que se recusavam a se submeter às condições oferecidas pelos empregadores. Naquela época a “greve” também foi declarada ilegal pelas autoridades, os “trabalhadores” condenados a trabalhar, os “dirigentes sindicais” penalizados solidariamente. A história conta-nos sobre o massacre que sucedeu a negociação com os representantes patronais, capitaneados pelo bandeirante Domingos Jorge Velho.

As diferenças entre Alagoas e São Paulo vão muito além dos costumes, pratos típicos e sotaques. Vão além da economia. Vão além das instituições. Estão presentes em cada ação econômica ou decisão que nos fazem caminhar a passos largos para o atraso.

 

Para ler sentença em São Paulo: 0006941-60.2019.5.15.0000.

Para ler sentença em Alagoas: 0000142-87.2019.5.19.0000

“Açúcar, Iphones e Atraso Econômico” O cancelamento da NBR 11228-1 e o fardo pesado do subdesenvolvimento.

Novo Milênio e Museu do Porto de Santos Rs=w:350,h:263,i:true,cg:true,ft:cover?cache=true O peso do subdesenvolvimento no Brasil persiste.

É a divisão internacional do trabalho que define o grau de desenvolvimento e riqueza dos países. São justamente os setores econômicos de destaque, a composição da balança comercial e a produtividade da população que dizem se um país é desenvolvido ou atrasado.

Para simplificar essa equação, podemos dizer que o tamanho do atraso do Brasil pode ser medido em quilos e toneladas; pode ser medido pelo peso que os trabalhadores carregam em sua labuta diária.

Ainda que dignidade não tenha preço e que o ser humano seja um fim em si mesmo, o labor de um trabalhador rural, de um cortador de cana, de um catador que puxa sucatas para vender no ferro velho, de um estivador do cais do porto, de um “chapista” que descarrega caminhão, sempre será mais pesado e mais exaustivo que o labor de um médico, de um engenheiro, de um administrador, de um corretor de valores ou de um burocrata.

Somos, desde sempre, um país onde o trabalho é pesado, extenuante e que exige o sacrifício físico de seu povo. De certo que trocamos nossa cesta de exportação: se antigamente exportávamos pau-brasil, açúcar, borracha, algodão e café, hoje somos mais conhecidos pelo comércio mundial de proteína animal, soja e comodities minerais. Contudo, sempre fomos extrativistas e por isso nossos trabalhadores sempre pegaram pesado no trabalho.

Nos países desenvolvidos eles conseguiram fazer a transição: ao invés de primários exportadores, passaram a inventar equipamentos de ressonância magnética, construir foguetes, desenvolver GPS, fabricar tecnologia e levar pessoas à lua. Por aqui fazemos tudo muito parecido com a maneira que fazíamos há séculos, o que é uma excelente definição de estagnação e atraso. No caso específico do açúcar, tão importante para Alagoas, ainda mandamos nossos trabalhadores braçais atear fogo no canavial para facilitar o posterior corte manual e carregamento da cana.

Tudo isso pesa para nossos trabalhadores simplesmente porque no mercado internacional, em termos de troca, um Iphone de última geração custa mais do que sete toneladas de açúcar. Haja força para sustentar termos de troca tão desfavoráveis.

Naqueles países desenvolvidos o labor é bem menos pesado, não é exaustivo, as exigências de saúde e segurança no trabalho são bem mais rígidas e o salário é incomparavelmente maior. Os países desenvolvidos se especializaram em ideias; exportam conhecimento e tecnologia. Nada disso pesa.

Enquanto isso, por aqui comemoramos o atraso. Comemoramos a redução do investimento em ciência e tecnologia. Comemoramos o corte dos orçamentos das universidades federais. Comemoramos nossa baixíssima produtividade no trabalho, bem como o superávit de exportação em produtos de pouco valor agregado, cujo preço é definido pelo mercado internacional e que precisaremos vender em toneladas para trocar por um mero celular.

Não é por acaso que cancelarmos recentemente a NBR ISO 11228-1:2017 que especificava os limites recomendados para o levantamento manual e transporte de cargas. Fizemos isso porque sabemos muito bem que nosso subdesenvolvimento tem “tudo a ver” com transformar os trabalhadores brasileiros em verdadeiros “burros de carga”, desconsiderando sua dignidade e destroçando sua saúde e segurança.

Dizem que “quem tem patrão pobre, pede esmola para dois”. No Brasil subdesenvolvido esse fardo é ainda mais pesado.

“Todas as Elzas de Maceió” A riqueza da mulher e a pobreza cultural do subdesenvolvimento.

Direção Duda Maia Rs=w:350,h:263,i:true,cg:true,ft:cover?cache=true Musical "Elza" em Maceió.

Em tempos tão sofridos onde crateras, tremores de terra, rachaduras e a omissão dos agentes públicos e empresas privadas anunciam a catástrofe de bairros inteiros que deslizam para o fundo da lagoa do Mundaú, peço licença para anunciar que um furação passa por Maceió: Elza.

Que Elza? Pergunta a patroinha, classe média, que todo fim do ano compra o ingresso para a apresentação de ballet de sua sobrinha no maior teatro de Maceió.

- Ah, sim. Eu adoro a Elsa. Aquela da Disney, não é? Sempre que vamos à Orlando compro presentes da Frozen para todas as princesinhas aqui de casa. Às vezes recebo até encomendas das amigas. Sabemos de cor aquela música tão bonita: Let it go, let it go...

Nada contra as princesas nórdicas, loiras e ricas, mas a Elza da qual falamos é brasileira, não nasceu em berço de ouro, não morou em castelos e representa a vida de muitas mulheres que ainda carregam as mais pesadas latas na cabeça. A Elsa do Frozen nunca trabalhou, nem precisava. A nossa Elza, desde pequenina, tinha que levar as marmitas para o pai que trabalhava nas pedreiras do bairro de Água Santa no Rio de Janeiro.

Além de testemunhar os aplausos de uma plateia encantada pelo furacão trazido à Maceió por um grupo de musicistas/cantoras/atrizes que brilhantemente contam a história de Elza Soares em forma de musical, pude aprender tanto sobre a história de uma mulher fascinante, guerreira e tão representativa.

A Elza que também sofreu tanto ódio e violência precisa ser ouvida em Alagoas, justamente o Estado com a maior taxa mulheres assassinadas por crime de ódio em todo o Nordeste durante o ano de 2017. A Elza que foi obrigada a trabalhar muito para sustentar sua família, inclusive como encaixotadora de fábrica, precisa ser ouvida por uma legião de mulheres desamparadas de seus direitos trabalhistas, num país onde é lícito que gestantes possam trabalhar em lugares insalubres e onde o valor da indenização nos casos de assédio moral e sexual no trabalho se mede pelo valor do salário recebido.

Todo o elenco, exclusivamente feminino que vi brilhar no palco do Teatro Gustavo Leite, contou a trajetória de Elza Soares, mas também a realidade de um mercado de trabalho desigual, preconceituoso, que paga salários menores por causa da condição “mulher”, baseado na desculpa da baixa produtividade da mulher que engravida. Elas contaram a história de um país patriarcal, atrasado que, ainda, teima em subjulgar as suas Elzas.

As luzes, cores, sons e latas harmoniosamente manipulados durante as duas horas de espetáculo contaram não somente a história de uma personalidade brasileira tão importante, mas também explicaram a dimensão cultural de nosso subdesenvolvimento, da nossa pobreza: idolatramos as Elsas ricas, loiras, princesas da Disney e esquecemos das nossas Elzas, negras, trabalhadoras e violentadas pela sociedade.

Quando, em 1953, Ary Barroso perguntou à caloura Elza de que planeta ela vinha, a resposta da menina foi amarga: “do planeta fome, seu Ary”. A mesma amargura que hoje, em 2019, todas as plantações de cana de açúcar de Alagoas, um dos Estados mais pobres do País, não conseguem amenizar.

Bravo Elzas: 

 

“O desastre da Vale S.A. e a Guerra de Troia.” O corpo do filho do rei e os trabalhadores soterrados na lama.

Rs=w:350,h:263,i:true,cg:true,ft:cover?cache=true Do brilhante Montanaro.

Para falar de tragédia, precisamos falar dos gregos. Do que conhecemos como gênero dramático, foram eles que “inventaram” a reprodução, quer seja em mitologia, quer seja em arte cênica, das paixões que envolviam personagens nobres, heróis e deuses.

A Guerra de Troia é repleta desses ardores intensos. Ela mistura os interesses daqueles protagonistas em algo maior do que um conflito bélico, supostamente ocorrido há mais de 3 mil anos. Trata-se de um dos marcos da construção histórica, social e cultural do ocidente. Nada em Homero é acaso.

Quem não se fascina com o cavalo dado como presente aos troianos? Em verdade, o presente de grego era uma elaborada “invenção”, uma engenharia ardilosa, onde se escondiam guerreiros que abriram os portões de Troia para seu extermínio total.

Prefiro lembrar da passagem em que o rei troiano Príamo, furtivamente, no calor dos intensos combates daquela guerra, vai até Aquiles, o assassino de seu filho Heitor, suplicar que o herói grego lhe entregasse o corpo de seu amado herdeiro. Era o apelo de um pai que desejava enterrar seu próprio filho de forma digna, como convinha à tradição e às crenças troianas. Ao se comover com as súplicas daquele pai, ainda que um rei inimigo, Aquiles se torna ainda mais herói, ainda mais nobre e atende ao pedido.

A importância de enterrar o corpo de um filho morto foi tão importante que fez o rei abandonar as trincheiras da guerra e expor sua súplica ao assassino. Foi tão importante que tornou o herói ainda mais nobre e digno de personificação dos valores da coragem e da honra de uma civilização.

Fico pensando nas centenas de pais, mães, filhos, esposas e maridos dos mais de 330 mortos no acidente da mineradora Vale S.A., que ocorreu há pouco tempo e que se faz tão presente. Fico pensando nas mais de 200 famílias que provavelmente não terão, como Príamo, os corpos de seus entes queridos para se despedir, pois estão soterrados por mais de 12 milhões de metros cúbicos de rejeito de mineração, no que pode ser o maior acidente de trabalho ocorrido no país.

Se a honra dos heróis, em especial Aquiles, foi fundamental para diminuir a dor na tragédia do pai de Heitor, não será a medíocre reforma trabalhista que terá esse papel no caso da tragédia brasileira. Justamente essa reforma que veio para “modernizar as relações de trabalho”, limita a indenização de danos extrapatrimoniais gravíssimos a até 50 vezes o salário do morto, ainda que o corpo se encontre desaparecido, soterrado sobre toneladas de rejeito do acidente de trabalho que o matou.

Sim. Mesmo depois de três mil anos, é preciso aprender com os contemporâneos de Príamo, Aquiles, Heitor, Menelau, Agamenon, Ajax, Ulisses, Helena, dentre tantos outros nobres gregos e troianos.

Ainda que toda a “Guerra de Troia” seja invenção, ainda que tudo aquilo seja mera mitologia, há 3 mil anos eles sonhavam com “tecnologia”, sonhavam em construir “cavalos” mirabolantes para ganhar guerras. Enquanto nós, em 2019, permitimos a estupidez de construir refeitórios, enfermarias e outras áreas de vivência logo abaixo de barragens inseguras e ultrapassadas, cujo rastro de toneladas de lama soterraram centenas de trabalhadores.

Se heróis tinham coragem e honra para reconhecer, mesmo no inimigo, a nobreza da condição humana nos momentos mais tristes, a tragédia brasileira é escrita por autoridades que mudam a legislação, reduzindo a reparação dos danos causados pela morte de trabalhadores, como se simples rejeitos fossem, como se lá estivessem para morrer mesmo.

E justamente na ocorrência de um acidente de trabalho ampliado, acabamos com o Ministério do Trabalho, órgão encarregado da fiscalização, com a felicidade de quem recebe um presente de grego.

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