O Grito, de Edvard Munch, de 1883 Rs=w:350,h:263,i:true,cg:true,ft:cover?cache=true

Mesmo ameaçadas, a democracia, e a Constituição, que completa trinta e um anos desde a sua promulgação, estão conseguindo resistir bravamente a todos os tipos de ataques e destemperos. Os tempos atuais não estão sendo fáceis em grande parte do planeta.

Os discursos “ultristas” vão ganhando espaços em várias nações, porque a crise global, de feição multilateral, se alastra velozmente e as insatisfações sociais adquirem enormes dimensões em um período em que o dissenso é a marca na vida política.

Se a História fosse um círculo contínuo e eterno poderíamos afirmar que estamos de volta aos contornos econômicos, sociais, geopolíticos que antecederam às grandes tormentas que desembocaram na tremenda carnificina da Segunda Guerra mundial.

O declínio da hegemonia mundial absoluta dos Estados Unidos, após a debacle da extinta União Soviética, vem provocando grandes tensões internacionais assemelhadas à agonia do grande império britânico, onde se dizia, e era verdade, que o sol nunca se punha.

Naquela época a disputa por domínios internacionais no comércio e nas finanças, especialmente através da Alemanha nazista, Japão, Itália, Estados Unidos, União Soviética, sem alternativas diplomáticas, desembocaram no mais terrível conflito bélico da História da humanidade com dezenas de milhões de mortos, sem falar nos mutilados, órfãos de guerra etc.

Atualmente vivemos uma acelerada transição para outra ordem global com o protagonismo mais destacado da China, Rússia (o Brasil e a Índia em menor escala), e a ação reativa dos EUA em defesa de uma realidade já em plena transformação. Aqui está o centro dos principais conflitos comerciais, militares e geopolíticos que estão abalando o mundo.

Assim é que hoje Ideologias fundamentalistas, à esquerda e à direita, como nas décadas de vinte e trinta do século passado, proliferam e demarcam terreno, com ativistas em cruzadas muitas vezes dogmáticas que mais se parecem com a Inquisição na Idade Média, onde pessoas como Galileu e Giordano Bruno pagaram caro tributo, tanto como a ciência, a filosofia e a liberdade de pensamento crítico.

Nesse jogo atual onde o vencedor tem sido o grande capital especulativo, a mídia globalizada associada a esse rentismo predador tem feito a sua parte ajudando a semear o confronto, fomentando a dissenção, a fragmentação do tecido social, e fundamentalmente escondendo as verdadeiras causas das angústias dos povos, que advêm de uma brutal crise, decorrente de uma concentração de renda estratosférica.

Marion Jansen associa o atual estágio da globalização financeira ao famoso quadro O Grito do pintor norueguês Edvard Munch, de 1883, a imagem de uma pessoa disforme, transmitindo desespero em um cenário tortuoso e angustiante. Nesse quadro “nós vemos o grito mas não o ouvimos”.

As polarizações entre ideologias sectárias tomam conta do discurso político e se retroalimentam, muitas vezes conscientemente, em uma espécie de jogo macabro. Uma espiral que parece nunca ter fim. A máxima prevalecente hoje é: se você não concorda comigo, então você é um inimigo.

As novas tecnologias de comunicação, as mídias sociais, representam um avanço irreversível, mas elas não substituem a concertação e o entendimento só possível pela vida política democrática. O que pressupõe a necessidade de um projeto de nação amplamente inclusivo, jamais excludente das grandes maiorias sociais.

A atual realidade política nacional, óbvio, também padece desse veneno letal já há algum tempo.

No Brasil, muitos falam em democracia e respeito à Constituição. Mas quem viveu os tempos da ditadura, da lei de segurança nacional, do AI5, dos tribunais de exceção para julgar e prender adversários políticos, cassar parlamentares, demitir sumariamente trabalhadores ou servidores públicos suspeitos de fazer oposição ao regime, da total censura à imprensa, do decreto 477 para expulsar das escolas lideranças estudantis, quem viveu tudo isso sabe muito bem que o arbítrio só foi superado através da “união de todos os democratas e patriotas em defesa da democracia e do Brasil”, para ser redundante com documentos valiosos da época.

Não será em uma nação fraturada, sectária, intolerante, dividida, odienta, que vamos conseguir superar o atual estágio de desorientação generalizada que ora vivemos. Isso só serve às “bolhas” em perpétuo confronto que presenciamos.

E mesmo assim é útil até um certo ponto, porque ninguém é capaz de adivinhar até onde a democracia, a Constituição e o Brasil, podem suportar essa espiral de furor e da “não política” onde estamos metidos.

O País, apesar de novo, tem larga tradição Histórica de encontrar soluções para os seus conflitos, para os seus demônios interiores, até para as guerras civis sangrentas mesmo, e seguir em frente como nação unificada na diversidade de opiniões. Aquilo que chamamos convivência política democrática sem adjetivações.

Tudo indica que será necessário, cedo ou tarde, um novo pacto democrático, mais uma vez através da via política e da participação de toda a sociedade, que seja representativo de todos segmentos nacionais. Sem esse amplo entendimento político e social não vamos conseguir sair dessa encruzilhada Histórica que vivemos.