Há cerca de três décadas em uma conferência científica sobre envelhecimento, quase todos os palestrantes estavam tomando vitamina E, um nutriente com propriedades antioxidantes que, segundo se pensava, desaceleraria a destruição celular da idade.

» Chat: tecle sobre o assunto

Nos anos seguintes, muitos relatos de estudos de caso empíricos sugeriram que a vitamina E em doses diárias maiores que as recomendadas poderia ajudar a evitar derrames e doenças do coração, vários cânceres comuns, demência e Alzheimer, cataratas e degeneração macular, infecções do trato respiratório e uma série de outros problemas de saúde sérios e às vezes fatais.

A lógica era de que uma vitamina antioxidante como a E protegeria as células dos efeitos nocivos de radicais livres, que são subprodutos do metabolismo e da exposição a agentes danificadores de células, como luz solar, radiação e quimioterapia.

Sempre à busca de uma solução mágica, milhões de americanos preocupados com a saúde passaram a se administrar doses da vitamina dezenas de vezes maiores que as recomendadas.

Seria ótimo se esses prognósticos se provassem verdadeiros. Assim como ensaios clínicos bem planejados refutaram a noção de que hormônios pós-menopausa poderiam manter mulheres saudáveis do coração, testes clínicos controlados de vitamina E também consideraram esse suplemento insatisfatório. O mesmo é verdade para outro antioxidante, a vitamina C.

Excesso de algo bom
Estudos recentes chegam a sugerir que, nas altas doses consumidas por muitas pessoas, a vitamina E pode ser prejudicial. Em novembro de 2005, a Associação Americana do Coração alertou que, embora as pequenas quantidades de vitamina E encontradas em multivitamínicos e alimentos não fossem nocivas, tomá-lo em excesso poderia aumentar o risco de morrer.

Ninguém sabe se outros antioxidantes, consumidos como suplementos ou concentrados em bebidas gourmet, vão ter destino semelhante, já que ainda não foram rigorosamente estudados. E, devido à duração, custo e dificuldade de conduzir os estudos necessários, é possível que esses outros antioxidantes nunca sejam investigados apropriadamente. Portanto, talvez você nunca saiba se vale a pena gastar uma fortuna em suco de romã ou semelhante.

Alguns defensores da vitamina E afirmam que os estudos clínicos usaram o que consideram o tipo errado da vitamina, explicando que cada uma das oito formas tem sua própria atividade biológica. No entanto, o tipo de vitamina E usado na maioria dos estudos (alfa-tocoferol) é a forma mais ativa em humanos, de acordo com o Serviço de Suplementos Alimentares dos Institutos Nacionais de Saúde dos EUA.

Aqui está, então, o que sabemos sobre a vitamina E a partir de recentes ensaios clínicos controlados e aleatórios, os padrões máximos para uma pesquisa, caso sejam investigadas as perguntas corretas.

Doenças cardiovasculares
Uma primeira pista da ausência de benefício ao coração veio de um estudo de 2001 da Universidade da Pensilvânia com 30 homens saudáveis, que descobriu que, em determinada dose, a vitamina E não prevenia a oxidação de gorduras no sangue que podem danificar artérias. Quatro anos depois, os ensaios do estudo HOPE (avaliação do efeito preventivo no coração), que observou cerca de 10 mil pacientes de 55 anos ou mais com doenças vasculares ou diabetes, descobriram que não havia benefício cardíaco no consumo em excesso de vitamina E diariamente durante uma média de sete anos. Na verdade, aqueles tomando a vitamina tinham mais chances de desenvolver insuficiência cardíaca, o que levou ao alerta da associação do coração.

Alguns meses mais tarde apareceu um relatório sobre a saúde da mulher. O Estudo da Saúde das Mulheres, com cerca de 40 mil candidatas de 45 anos ou mais acompanhadas durante uma média de 10 anos, não encontrou benefícios globais em tomar 600 UI de vitamina E em dias alternados para grandes eventos cardiovasculares (ataques do coração e derrames) ou mortalidade total. Houve, porém, uma redução de 24% nas mortes cardiovasculares.

Um novo relatório sobre homens foi divulgado em novembro - o Estudo da Saúde dos Médicos. Nele, 14.641 homens de 50 anos ou mais foram acompanhados por até oito anos. Descobriu-se que 400 UI de vitamina E em dias alternados não produziam efeitos na incidência de grandes eventos cardiovasculares, inclusive mortes cardiovasculares.

A conclusão de todos esses estudos é de que não se pode confiar nos suplementos de vitamina E para evitar doenças cardíacas e derrames.

Câncer
O estudo HOPE também investigou o câncer e não descobriu diferenças na incidência de câncer ou mortes durante o acompanhamento de sete anos que pudessem ser atribuídas à vitamina E.

Da mesma forma, o estudo da saúde da mulher não encontrou efeito significativo da vitamina sobre a incidência total de câncer ou nos cânceres de mama, pulmão e cólon, nem qualquer efeito sobre as mortes por câncer.

No entanto, ainda havia esperança de que a vitamina E sozinha ou combinada com selênio ou vitamina C protegeria homens do câncer de próstata. Sem sorte. Na edição de 7 de janeiro da publicação The Journal of the American Medical Association, dois grandes estudos aparentemente deram a palavra final sobre a questão.

O estudo Select (teste de selênio e vitamina E para a prevenção do câncer) acompanhou 35.533 homens de 427 lugares dos Estados Unidos, Canadá e Porto Rico durante mais de cinco anos. Ele não encontrou benefício, mas sim um ¿aumento estatisticamente insignificante do risco de câncer de próstata¿ no grupo consumindo 400 UI por dia de vitamina E. O selênio sozinho não ofereceu benefício, nem sua combinação com a vitamina E.

O segundo estudo, continuação do Estudo da Saúde dos Médicos, descobriu que, entre médicos do sexo masculino que tomavam 400 UI de vitamina E em dias alternados e 500 mg de vitamina E diariamente, não havia redução no risco de desenvolver câncer de próstata ou câncer em geral.

Para o câncer de pulmão, um estudo de 2007, financiado pelo Instituto Nacional do Câncer dos EUA, descobriu que fumantes que tomavam suplementos de vitamina E tinham um pouco mais de risco de desenvolver a doença.

Outras doenças
Uma revisão independente de estudos pela Cochrane Collaboration publicada no ano passado não descobriu evidência confiável da capacidade da vitamina E de prevenir ou tratar o mal de Alzheimer ou déficit cognitivo leve, nem a doses de 2 mil UI diárias.

E, embora a vitamina E faça parte de fórmulas complexas que desaceleram a progressão da degeneração macular, ninguém pode dizer ao certo se a vitamina tem qualquer papel nos benefícios apresentados por esses produtos.

Há também possíveis riscos, já que a vitamina E diminui a tendência coagulante do sangue e pode resultar em escoriações feias feitas por pequenas pancadas.

Resumindo, não há uma solução fácil. A melhor forma de levar uma vida longa e saudável não vem de pílulas ou poções, mas de todo um estilo de vida. Isso significa seguir uma dieta repleta de nutrientes mas caloricamente moderada de vegetais, frutas e grãos integrais (muitos dos quais são ótimas fontes de vitamina E); não fumar; se exercitar regularmente; manter um peso corporal normal; e dirigir e pedalar com segurança.