Alguém já disse, há muito tempo, que o problema do Brasil não é a falta de leis, mas o excesso. Por isso, quando vejo um político se vangloriar de ser autor de tantos e quantos projetos, que servem apenas para engrossar em algumas páginas nossos códigos, tenho certeza de que é ação puramente eleitoreira. Um exemplo escancarado dessa complicada realidade é a Lei Maria da Penha.

Saudada pela imprensa como grande avanço no combate à violência contra a mulher, a iniciativa jamais chegou nem perto de alcançar tal promessa. Doze anos depois de entrar em vigor, a lei não produziu qualquer redução nos índices da criminalidade que atinge a população feminina. Números dramáticos revelam que a estatística explodiu no intervalo superior a uma década.

Governos não admitem a existência de áreas dominadas pelo crime, nas quais nem as polícias conseguem entrar. Ainda que seja algo corriqueiro no cotidiano de cidades por todo o país, autoridades rejeitam as evidências com naturalidade escandalosa. Aí, a cada estação, surge um caso de repercussão nacional para provar, mais uma vez, a quase falência da segurança pública.

É o que estamos vendo agora em São Paulo, com o assassinato de uma PM na favela de Paraisópolis. É apenas mais um exemplo. Após ser reconhecida como policial, segundo leio em reportagens, ela foi levada por quatro bandidos que trabalham para o PCC, submetida a “julgamento” – no tribunal da facção – e condenada à morte. Os donos da região ditam suas próprias leis, acima do Estado.

Enquanto isso, o general da reserva Hamilton Mourão, candidato a vice na chapa do presidenciável Jair Bolsonaro, acaba de revelar ao mundo a chave teórica para explicar os grandes males que afligem os brasileiros. Para ele, é tudo muito simples: herdamos a “indolência” dos indígenas e a “malandragem” dos africanos. A nova direita embala pensamentos cheios de erudição.

O general não explicou como poderíamos nos livrar dessa herança maldita. A julgar pela inteligência programática de bolsonaristas, aqui mesmo por Alagoas, suponho que talvez defendam o extermínio de selvagens remanescentes e a volta da escravidão. Ora, chega de democracia e mimimi.

Os cidadãos de bem, que não aguentam mais um país tão esculhambado, perderam a paciência. Chegou a hora de um cara de pulso forte, com fuzil na mão para caçar índios, negros e, é claro, subversivos comunistas que ameaçam a integridade da família. Parece ficção, mas chegamos a isso.

O lado positivo de toda essa antologia de sandices é que, quanto mais Bolsonaro e assemelhados falam, mais expõem suas patologias mentais. Ao menos assim, fica mais fácil enviá-los de volta ao planeta particular de onde vieram. Para tanto, não precisamos de novas leis. Uma eleição resolve.