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O desemprego é a face mais cruel do momento por que passa o Brasil. A cidade de São Paulo é onde a maior expressão dessa tragédia se descortina. Não me foi necessário consultar os sites do IPEA e da CAGED para pesquisar os indicadores econômicos. Caminhei durante sete dias pelas ruas da cidade. Iniciei o passeio na praça da Sé; ao sair do metrô me deparei com uma multidão de homens, mulheres, crianças e adolescentes pedindo qualquer coisa ‒  dinheiro, comida, agasalho ‒, deitados pelo chão da praça, sentados e tomando sol na escadaria da suntuosa Catedral.

Esses seres humanos estão vagando sem perspectiva de vida, estão abandonados e possivelmente não terão chances, pelo menos a maioria, de sair da condição de pedintes, desempregados e abandonados. É uma tragédia humanitária, com milhares de trabalhadores que não tiveram condições de pagar o aluguel e sobreviver minimamente com dignidade, trabalhando no emprego formal ou no subemprego. Vivem nas ruas.

Os laços de família vão sendo rompidos. As ruas, praças, viadutos e pontes são os seus endereços, as novas moradias. Não têm código de endereçamento postal (CEP) nem são encontrados pelos familiares que desejem resgatá-los. Estão vivendo da caridade de setores religiosos que têm se dedicado a minorar as agruras da população de rua e que os defendem. O Estado (prefeitura e governo estadual) oferece a repressão, o confisco dos seus cobertores que os protegem das noites geladas de São Paulo. Essa é a política pública.     

    

       Caminhei pelas ruas do Centro, Luz, Bom Retiro, Liberdade, Santa Cecilia, Barra Funda , Pompeia, Vila Buarque, Parque Dom Pedro e a avenida Paulista. Em todos esses lugares me deparei com pessoas vivendo nas ruas. Conheço São Paulo desde 1980 e não me recordo de tamanha tragédia.   

No Largo do Paissandu os sobreviventes do incêndio e do desmoronamento do prédio da antiga sede da Polícia Federal moram em barracas de lona sob o frio intenso. São homens, mulheres, crianças e adolescentes sem perspectiva de encontrar um teto para morar, pelo menos protegidos das intempéries da natureza. Resistirão até quando?

A paisagem atual de São Paulo é da miséria e do desassossego. Mais uma vez a poesia de Caetano Veloso, em Sampa, simboliza a vida cotidiana “do povo oprimido nas filas/ nas vilas, favelas / Da força da grana que ergue / e destrói coisas belas /
Da feia fumaça que sobe, / apagando as estrelas”.

A alternativa não pode ser o conformismo, o caminho que teremos de caminhar é o da luta contra a miséria, contra o capitalismo, pelo emprego e por dignidade, pela inclusão social. Antes que o buraco cresça ainda mais e drague todos nós.