Polícia Civil do Rio de Janeiro 708e6220 a4aa 4673 b12d 7ebaefc5b381 Caso de polícia.

No curso de uma das suas piores crises econômicas, morais e políticas, o Brasil conhece mais um novo personagem. Figura que é a cara, e a bunda, do momento histórico nacional: o Dr. Bumbum, médico responsável pela morte da paciente e que abandonou o mundo dos milhares de likes e curtidas nas redes sociais para virar foragido da polícia carioca.

O que até então era um procedimento “simples”, injetar uma substância plástica conhecida como metacril na região dos glúteos, tornou-se roteiro de um filme de horror, expondo, além das bizarrices criminais do Dr. Bumbum, a fragilidade das instituições brasileiras.

E como são frágeis “as regras do jogo de nossa sociedade”... E como são frágeis as “restrições concebidas para moldar nossa interação humana”... Tão frágeis que permitem um médico injetar plástico no corpo de alguém, sem nenhum suporte técnico e na sua própria residência. Além de abandonar a cliente moribunda no plantão de um hospital e fugir da polícia quando tudo deu errado.

Dr. Bumbum entendeu a lógica do mercado desregulado, bem como das instituições brasileiras frágeis e desacreditadas. Vale tudo quando mandamos todas as regras às favas e nos importamos apenas com o menor preço final do serviço ou do produto. Pra que pagar o centro cirúrgico de um hospital, quando posso mutilar pessoas aqui em casa mesmo? Pra que contratar auxiliares técnicos qualificados quando minha própria namorada pode me ajudar?

Além de mostrar que esses custos eram “desnecessários”, a ficha corrida do Dr. Bumbum que, antes mesmo da morte de sua paciente, já respondia por porte ilegal de arma, crime contra a administração pública, resistência à prisão, violação de domicilio e exercício arbitrário das próprias razões, expõe uma realidade terrível: instituições frágeis; regras que podem ser simplesmente ignoradas; conselhos, associações de classe, polícia e a própria justiça que não conseguiram impor limites ao médico que prometia resultados “top, top”.

Há quem explique que a diferença entre países ricos e países pobres está na qualidade das suas instituições e, consequentemente, na estabilidade e confiança das regras. Nessa linha de pensamento “institucionalista”, países pobres possuem grande dificuldades em estabelecer regras e instituições confiáveis e, consequentemente, estabelecer trajetórias de crescimento econômico.

Se eles estiverem certos, estamos longe do desenvolvimento de nosso País em recessão. Basta olharmos para a reforma “sic” trabalhista que abençoa a flexibilização do “teletrabalho” e a plena e irrestrita flexibilização da jornada e remuneração do trabalhador “hipersuficiente”. É como se a reforma “sic” batizasse de Dr. Bumbum todo e qualquer profissional que recebe duas vezes o teto do regime de previdência geral.

Além de flexibilizar irrestritamente descanso e remuneração, um mero contratinho fajuto passou a ser capaz de transferir para o empregado toda a responsabilidade da aquisição da infraestrutura necessária para a realização do trabalho.

A crueldade da reforma que flexibiliza remuneração, aumenta jornadas de trabalho, reduz descansos obrigatórios, trata itens básicos de segurança e saúde do trabalho como custos a serem reduzidos, transfere para o trabalhador a responsabilidade sobre as ferramentas e a limpeza do próprio uniforme repercutirá, por óbvio, na qualidade do produto e do serviço prestado ao consumidor final.

Quer seja sendo maltratado pelos garçons contratados na modalidade de intermitentes, quer seja morrendo por omissões e erros grosseiros de profissionais da saúde, o consumidor final sentirá na pele, ou no bumbum, a vinculação entre a precarização do trabalho e a falta de qualidade do serviço prestado.

Sim, ele estava certo: quando os profissionais bumbum põem seus jalecos, o bicho pega.