Maciel Rufino/ CadaMinuto 26ebcaf4 063e 4f20 a6b4 78345f9023b3 Lidiane e a mãe em uma sala para queimados no HGE

Com o alto preço do botijão de gás, que chega a custar, em média, R$ 80 em Alagoas, algumas pessoas de baixa renda recorrem a outros meios para cozinhar. O botijão é substuído pelo álcool e utilizado por famílias carentes que muitas vezes não sabem, mas que estão expostos aos riscos, principalmente a queimaduras.

Segundo dados do Hospital Geral do Estado (HGE), de 2015 até junho de 2018, 64 pacientes foram internados com queimaduras causadas pelo álcool. Ainda segundo o HGE, 28 pacientes [de 2016 a 2018] passaram pelo ambulatório e não necessitaram de internamento.

Ainda conforme o HGE, foram registrados em 2015, 23 casos de pessoas queimadas pelo uso do álcool; 2016, 28 e 16 no ambulatório; 2017, 18 internados e 7 no ambulatório e em 2018, até o mês de junho, foram cinco pacientes internados e cinco no ambulatório.

Dados de pacientes queimados entre 2015 e 2018

 

Entre as causas mais recebidas no Centro de Tratamento de Queimados do HGE, os líquidos superaquecidos lideram e dominaram 48% dos internamentos e 58% dos atendimentos ambulatoriais em 2017. O contato com a chama direta ficou na segunda posição entre os socorros realizados, representando 28% dos atendimentos e 13% dos ambulatoriais.

Retrocesso

O gás de cozinha teve seu último aumento em dezembro de 2017. O novo reajuste foi de 8,9% para um item que é considerado de primeira necessidade pelas famílias brasileiras. A alta, no estado, foi de 62,9% durante o ano de 2017. Porém, parece que esse item é considerado "inexistente" para alguns moradores de Alagoas.

Lidiane Lopes da Silva, de 32 anos, teve 70% do seu corpo queimado ao tentar cozinhar em uma lata, utilizando o álcool. O caso aconteceu em um povoado de Campo Alegre, no dia 19  de junho deste ano. Segundo a mãe da vítima, que estava impossibilitada de falar devido aos ferimentos no rosto e na região da boca, a prática já havia sido utilizada pela família em outra ocasião pela falta de botijão.

 

Lidiane Lopes da Silva, internada no HGE

 

"Não foi a primeira vez, quando o gás faltava ou estava caro ela cozinhava com o álcool. Quando vi o estado dela, pensei que tivesse sido a panela de pressão, mas vi a latinha do lado. Ela ja se queimou uma vez, mas foi mais leve" explicou a mãe, Maria Conceição.

 

Ainda de acordo com Maria, a casa de Lidiane estava sem gás devido a recente greve dos caminhoneiros. "O gás tinha acabado por conta dessa folia da greve dos caminhoneiros. Os lugares que tinham era muito caro, e não temos condições. Nossa renda é um salário mínimo para quatro pessoas. Também não estávamos com carvão, então ela teve que usar álcool, se não, não comeríamos".

 

Lidiane queimou a região da barriga, braços, pernas e rosto e ainda não há previsão para liberação. Seu estado saúde é considerado estável, apesar do constante uso de morfina, que a deixa inconsciente.

 

Segundo a mãe, elas vão tentar nunca mais vão voltar a usar o álcool para cozinhar. "Vamos tentar não usar mais, depois disso. Mas é difícil, as vezes não dá. Temos duas crianças em casa" finalizou.

 

Maria Conceição, mãe da Lidiane Lopes

 

Adultos são mais afetados, diz cirurgião

O cirurgião plástico Tyago Carvalho disse ao Cada Minuto que os adultos são os mais afetados pelas queimaduras causadas pelo álcool e que na maioria dos casos são pessoas que não possuem botijão de gás em casa e cozinharam com o líquido.

O cirurgião também ressaltou que a queimadura causada pelo líquido, normalmente, é considerada de segundo ou até de terceiro grau. "O paciente chega ao hospital e fazemos a limpeza. Em alguns casos é necessário que este paciente seja anestesiado para aguentar a dor durante o banho".

Caso o paciente esteja com queimaduras avançadas, de terceiro grau, após a limpeza, é feito o enxerto. "Aí tiramos pele de onde não foi queimado para fazer a cirurgia. As sequelas são as cicatrizes que ficam, às vezes mais escuras ou mais claras", explicou Tyago.

O cirurgião também explicou que a maioria dos pacientes chegam ao hospital com queimaduras no rosto, peito, barriga e braços. "Se forem pacientes que estavam cozinhando, eles chegam com queimaduras no rosto, peito, barriga, braços. Ou seja, em áreas expostas".

 

*Estagiária