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Aos 11 anos de idade, Dayane Albuquerque, de 22 anos, tinha o sonho de fazer faculdade nos Estados Unidos. Ao assistir aos filmes e séries com jovens universitários, a jovem se encantava, mas por motivos financeiros Dayane não conseguiu levar o sonho adiante. Com o Sistema de Seleção Unificada (SISU), a estudante, nascida no Ceará, conseguiu ingressar em uma universidade alagoana onde, atualmente, cursa engenharia química.


Com a faculdade distante da família, Dayane encontrou apoio em quem pouco conhecia. “Minha primeira amizade foi com a Sonia, uma das minhas melhores amigas até hoje. Lembro que ela quem veio até mim e me chamou pra ir à padaria. Foi algo tão simples, mas não esqueço como ela tentou me encaixar no novo mundo só com esse convite”, relata a estudante.


Assim como Dayane, muitos jovens passam pela mesma situação. Vez ou outra, a saudade de casa aperta, mas a vontade de buscar um futuro melhor – longe de casa - aperta mais. Pensando nisso, a reportagem do Cada Minutopreparou uma matéria especial relatando alguns casos.

Segundo o histórico do Sisu, 2.498.261 de candidatos de se inscreveram nos cursos ofertados em faculdades de todo o país, em 2017. O número é o quarto maior dos últimos oito anos.


Dificuldades, transição e costumes


Ir a outro estado é dar de cara com novas pessoas, novos costumes e uma cultura diferente. A adaptação muitas vezes não é fácil. Foi o caso do macaense Rhayller Peixoto, de 23 anos. O estudante de jornalismo da Universidade Federal de Alagoas (UFAL) relata que sua maior dificuldade foi com a alimentação. “Aqui se come muito coentro e eu sentia muita diferença do modo com que temperamos comida no Rio de Janeiro. Por muito tempo me recusei a comer algo que não fosse feito por mim até que fui me acostumando”, explica Rhayller.


Para quem pensa em estudar longe de casa, o estudante informa que o mais importante é pesquisar bastante sobre o lugar antes e buscar modos de se integrar à comunidade acadêmica. “Encontrar pessoas na mesma situação é importante até para dividir a saudade, que é um dos grandes problemas que enfrentamos no início. E é isso, ter coragem e seguir em frente mesmo quando parece que as coisas não vão dar certo”, finaliza Rhayller.


Thays Oliveira, de 25 anos, veio de Niterói, Rio de Janeiro e estuda Design na UFAL. Ela conta que também teve dificuldades com o tempero alagoano. “A cultura e estilo de vida das pessoas são bem diferentes do que os do meu estado natal. Creio que minha maior dificuldade (até hoje) seja com a comida”, informa Thays, que está há mais de três anos em Maceió.


A estudante de jornalismo na UFAL, Layla Oliveira, de 22 anos, informa que a adaptação foi bem rápida. A arapiraquense, que saiu de casa aos 19 anos, diz que morar sozinha era algo que ela queria desde adolescente para ganhar experiência. “Foi difícil por causa da saudade dos meus pais, me virar aqui com trabalho, quando ficava doente também era fogo”, desabafa Layla.


Aos que vem ao nordeste, um dos fatores mais difíceis para se adaptar é o calor. Esse é o caso do paulista Matheus Pimenta, de 22 anos, que levou 7 meses para se acostumar à alta temperatura de Maceió. “O calor é muito intenso! Minha cidade natal é montanhosa. Então, não foi nada fácil lidar com médias acima dos 30º e sensação térmica próxima dos 40º”, relata.


Porém, esta não foi a única dificuldade que o estudante de jornalismo encontrou. “Os ônibus foram minha principal dificuldade e foram neles que passei bastante tempo nos últimos anos. Em Maceió, não existe um sistema inteligente de transporte público. Congestionamento e superlotação são reflexos diretos da péssima administração e descaso da prefeitura. E como a UFAL é distante, os alunos se tornam reféns desse serviço”, desabafa Matheus.


Exterior


Há quem opte em buscar um horizonte mais distante, literalmente, e escolha outros países para estudar. A Argentina foi o destino escolhido pela estudante Iza Helena Bianchi, de 24 anos, natural do Espírito Santo. Hoje, ela faz um Curso Básico Comum (CBC), que é uma espécie de nivelamento para o curso de Medicina.


Já formada, Iza diz que não recebeu apoio de algumas pessoas. “Alguns falaram que eu era louca, pois tinha acabado de me formar em Odontologia e minha namorada em Engenharia Civil. Outros super apoiaram e disseram que queriam ter essa coragem que tivemos”, informa a estudante.


Natural de Curitiba, Julia Johnson, de 22 anos, mora em Frankfurt am Main, na Alemanha. Ela conta que desde pequena sempre teve vontade de estudar fora do Brasil, sempre via nos filmes que o pessoal saía da casa dos pais para fazer faculdade em outros estados e/ou países e sempre quis fazer o mesmo. ”Quando a minha faculdade me ofereceu essa oportunidade, não pensei muito em aceitar”, relata a estudante de Engenharia de Computação.


“Minha universidade tem convênio com várias universidades ao redor do mundo. Então, como sou da área de TI, procurei dentre essas universidades as melhores na área, e tive que escolher entre faculdades na França e na Alemanha. Acabei escolhendo a Alemanha, pois já tinha colegas de curso que estavam aqui. Então, o medo de ficar completamente sozinha em um país diferente já não existia”, explica.


“Conheci um alemão antes mesmo de vir. Ele se voluntariou para me ajudar nos primeiros momentos aqui. Ele foi um amor e me ajudou muito. O pessoal da faculdade foi super gente boa e me ajuda a todo momento. O problema é que alemão não gosta muito de estrangeiro (risos)”, finaliza Julia.


Custo x benefício


De acordo com Matheus Pimenta, com sua nota no Enem, ele passaria nas Universidades de Santa Maria (RS), Ouro Preto (MG) e em Maceió (AL). No entanto, a escolha da faculdade foi feita pelo baixo custo de vida de Alagoas.


 “No Sul, ainda era bem recente a tragédia da Boate Kiss, Ouro Preto é uma boa cidade para cursos de saúde, pra comunicação a cidade é limitada. O fato de Maceió ser uma capital com custo de vida baixo, comparado ao sudeste, me chamou bastante atenção”, explicou o estudante.


Saudades de casa e da família


A decisão de sair de casa e morar longe não é tão fácil de ser tomada, afetando não só quem sai, mas também a quem fica.


Matheus relata ainda que, a maior dificuldade foi quebrar um ciclo de 17 anos de convivência com a família. 
“Meus amigos que estudam mais próximos de casa, tem mais oportunidade de estar com seus familiares. Talvez essa seja minha maior dificuldade, viver longe de minha família. Todas as visitas tem que de ser programadas e com as greves da Universidade o calendário acadêmico foi alterado, e de dois anos pra cá as férias encurtaram. Sempre que meus pais e meu irmão podem, estão por aqui, Maceió é um ótimo destino pra quem quer fugir do frio e de quebra matar a saudade (risos)”, concluiu.


*Estagiárias