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O jornal A Folha de São Paulo, conhecido por sua histórica e histérica trincheira antiarmas, publicou uma matéria(1) muito interessante sobre o surgimento de clubes de tiro exclusivo para mulheres nos Estados Unidos, mais especificamente na “desarmamentista” Califórnia. Há um tom claramente positivo em quase toda a matéria, porém é possível sentir o choque da realidade, da defesa do tal “empoderamento” feminino com a visão desarmamentista do jornal nos dois últimos parágrafos.

Cabe deixar claro que a jornalista, ao afirmar que a Califórnia é o estado mais “liberal” dos EUA, está se referindo ao fato daquele estado ser o mais esquerdista de todo o país. A palavra “liberal” tem um significado completamente diferente, por exemplo, no Brasil. O latente esquerdismo californiano sem dúvidas significa uma maior propensão de apoio às restrições, em especial ao porte de armas, mas isso está longe de significar um desarmamentismo radical e irrestrito como imaginam alguns. Isso fica claro na própria matéria que afirma que existem mais vendedores de armas do que lojas do McDonald’s por aquelas bandas.

A “invasão feminina” no mundo das armas de fogo não é nenhuma novidade e começou a se intensificar na década de 1990 com forte apoio da NRA e fabricantes, que lançaram produtos e campanhas específicas para esse público. Estima-se que em 2000 as mulheres já representavam mais de 25% dos novos proprietários de armas de fogo, e esse número não parou de crescer. Da mesma forma, o apoio dos democratas, dos liberais, ou seja, da esquerda americana às restrições diminuiu consideravelmente como já demonstrei nos artigos “Como os democratas derrotaram o desarmamentismo de Obama”(2) e “Pesquisa Gallup confirma: americanos NÃO querem mais controle de armas”(3). Exatamente por isso, mesmo na Califórnia, cada vez mais mulheres procuram o tiro e as armas como esporte, diversão e defesa.

Mas nem tudo são flores! Como não poderia deixar de ser, há um claro choque entre a defesa do “empoderamento” feminino defendido na matéria e a sanha desarmamentista exposta nos dois últimos parágrafos da matéria: lá, quase no final da página, o pensamento dicotômico, uma súplica aos leitores, como se dissessem: “Olhem, vejam bem, não estamos defendendo as armas! De forma alguma! Defendemos apenas as mulheres armadas como símbolo de empoderamento”.  É, não é fácil ser politicamente correto e fincar o pé na defesa do duplipensar orwelliano…

Pois bem, onde peca a jornalista? Primeiramente não é honesto juntar os suicídios com o uso de armas de fogo e os homicídios, coisa que só é feita com o único e claro objetivo de inflacionar as mortes nos EUA, que diminuíram nos últimos vinte anos, enquanto milhões de armas novas e bilhões de munições foram comercializadas no mesmo período. Já falei disso no artigo “O Fantástico mundo das mentiras sobre o desarmamento”(4) e não vou ficar me repetindo. O importante neste caso é que afirmar que a Califórnia possui a mais baixa taxa de mortes por armas de fogo nos EUA por conta das restrições é simplesmente mentira! 

De acordo com os dados consolidados do FBI de 2016, a Califórnia possui uma taxa de 4.9 homicídios por 100 mil habitantes, enquanto Vermont(5), que tem uma das legislações menos restritivas dos EUA tem uma taxa de 2.2 homicídios por 100 mil habitantes. Mesmo que adotássemos a exótica taxa de “violência armada”, onde são incluídos os homicídios, suicídios, acidentes, legítima defesa e mortes ocorridas em confrontos policiais, ainda assim teríamos diversos estados à frente da Califórnia, muitos deles com legislações muito menos restritivas. De acordo com dados do FBI de 2016 temos os seguintes estados com taxas menores que a californiana: Connecticut, Hawaii, Maine, Massachusetts, Minnesota, New Jersey, New York e Rhode Island.

No último parágrafo, a brasileira entrevistada, que possui armas e frequenta o clube de tiro lá nos EUA, afirma que “no Brasil isso não funcionaria”. Vocês conseguem entender o tamanho da confusão mental dessa menina? Isso, levando em conta que, de fato, foi isso o que ela disse. Pois bem, será que a moça alguma vez esteve em um clube de tiro no Brasil? Com certeza não! Deve achar que é um amontoado de bárbaros dando tiros uns nos outros. No fundo, trata-se do puro e simples complexo de vira-lata(6), permeado por um elitismo cucaracha. Afinal, será que um vira-lata deixa de ser um vira-lata quando sai do Brasil?


1)    https://www1.folha.uol.com.br/mundo/2018/06/clubes-de-tiro-para-mulheres-ganham-projecao-nos-eua.shtml

2)    https://www.gazetadopovo.com.br/opiniao/artigos/como-os-democratas-derrotaram-o-desarmamentismo-de-obama-3dpsmcs6fvzn6uap460c7a1wn

3)    http://www.cadaminuto.com.br/noticia/294547/2016/10/27/pesquisa-gallup-confirma-americanos-nao-querem-mais-controle-de-armas

4)    http://www.ilisp.org/artigos/o-fantastico-mundo-das-mentiras-sobre-o-desarmamento/

5)    http://www.cadaminuto.com.br/noticia/300388/2017/03/07/vermont-e-o-estado-mais-seguro-dos-eua-e-la-ate-jovens-de-16-anos-podem-portar-armas

6)    http://www.ilisp.org/noticias/pare-de-ser-vira-lata-o-brasileiro-tem-sim-cultura-para-ter-armas/