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Como já disse anteriormente em um artigo, não sou candidato, não sou partidário, não sou cabo eleitoral. Também não sou analista político e há treze anos guardo distância segura de eleições, mas isso não me impede de dar alguns pitacos e escrever sobre o que eu vejo na campanha eleitoral deste ano com base única e exclusivamente no que vivi durante o “Referendo das Armas”.

Participei de todas as fases do referendo de 2005. Anterior ao referendo propriamente dito, onde ainda se discutia se ele ocorreria ou não, quando e como, até os momentos finais. Os desarmamentista tinham certeza absoluta que venceriam, não era sem motivo, pois as pesquisas encomendadas sobre o assunto davam a eles margens de vitória acima dos 70%. Muitos daqueles que advogavam pela manutenção do direito à posse de armas davam a derrota como certa, era impossível vencer o establishment e, neste caso, era melhor que nem houvesse a votação. Tentativa infrutífera! Tente convencer deputados e senadores a abrirem mão de um palanque nacional…

Aprovada a data, a questão então passou a ser a pergunta: "O comércio de armas de fogo e munição deve ser proibido no Brasil?". Uma pergunta bastante confusa onde o sim era o não e o não, o sim… Desarmamentistas se aferraram a sua manutenção e impediram que a pergunta fosse feita de forma mais clara algo como “O comércio legal de armas deve ser mantido no Brasil” ou, ao menos,  algo nessa linha. Perdemos mais uma vez, a pergunta foi mantida e, para nossa surpresa, após acachapante derrota, eles puseram-se a dizer que a pergunta era confusa e a população votou errado! Não, não é brincadeira.

Tínhamos contra nós um rolo compressor guiado pelo establishment. Praticamente todos os grandes jornais impressos estavam contra nós, todas as emissoras de TV, com honrosa exceção da TV Band que além de se posicionar, em editorial, a favor do direito de defesa do cidadão, ainda patrocinou os três debates oficiais da eleição – eu participei de dois deles. Tínhamos ainda o Senado, comandado por Renan Calheiros, e a Câmara Federal sob os domínios petistas, pelas mãos de João Paulo Cunha. Todas as ONGS – contando com milhões em seus cofres – também estavam contra nós, além de celebridades globais, cantores, a CNBB, a CONIC, os sindicatos, o MST, a ONU, a UNICEF, dez agências de publicidade trabalhando “gratuitamente” para a campanha do “Sim” e outros infinitos atores sociais relevantes e de peso. Durante mais de uma década havíamos sido bombardeados pela mensagem que armas eram ruins, que só traziam dor, sofrimento e lágrimas. Nos sentíamos como o rei Leônidas comandando trezentos espartanos contra cem mil soldados persas ou, como alguns diziam pejorativamente, éramos o exército de Brancaleone. Branca! Branca! Branca!

Havia pela frente apenas vinte dias de combate, as prévias apontavam que não era impossível vencer o debate, mas tínhamos que estar em todo o país. Como isso seria possível? Como fazer pessoas que nunca pensaram nesse assunto votarem conscientemente? A campanha foi conduzida com maestria pelo Chico Santa Rita, tínhamos espaço igualitária na TV e no Rádio, mas não achávamos isso suficiente. Até que algo aconteceu! Começaram a pulular pelo país milhares de ações pessoais em prol da nossa campanha. Pessoas começaram a imprimir folhetos em suas casas, pagar outdoors, fazer camisetas, enviar e-mails para amigos e familiares, colar adesivos nos mais inusitados locais, professores debateram com seus alunos, padres e pastores falaram aos seus rebanhos, carreatas foram organizadas, teve gente que colocou mensagem nossa até nos boletos que enviava aos seus clientes.

Perdíamos o controle da campanha! Em um primeiro momento isso gerou preocupação, em especial por conta da legislação eleitoral, mas não havia o que fazer. Era um tsunami, uma nuvem de gafanhotos, uma tempestade de areia, incontrolável e imprevisível, mas, então, entendemos… Nós venceríamos! Era um movimento verdadeiramente popular e impossível de ser parado. E assim foi, vencemos por larga margem, o resto é mimimi de perdedor.

E tudo isso para dizer o quê? Bom, estamos assistindo algo muito similar nessa eleição presidencial. Da mesma forma que em 2005, finalmente a esquerda e a direita se enfrentarão diretamente e, cá entre nós, só há um candidato que está gerando na população o mesmo sentimento de “eu tenho que fazer algo e participar”. Não, isso não é torcida, é constatação de fato e mais nada. Veremos como a coisa toda se desenrola, sem descuidar para o fato que, se vencemos em 2005, o establishment garantiu que praticamente nada mudasse ao arrepio da vontade verdadeiramente popular. Há muita água para rolar, mas de uma coisa eu tenho certeza: essa será uma eleição muito interessante!