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Por Leonardo Bastos

 

O Sexto Sentido é um dos filmes mais importantes da década de 90. E não foi à toa que firmou o até então desconhecido M. Night Shyamalan como uma grande promessa (prefiro não lembrar dos tropeços seguintes do cineasta), já que este comanda uma atmosfera de tensão construída com grande delicadeza e inteligência, cada movimento de câmera é executado com a calma necessária para que a inquietação esteja presente continuamente e o que for mostrado em tela seja uma incorporação visual do psicológico dos personagens. Na medida em que projeção avança, o suspense vai se destrinchando em camadas de drama, já que o pânico vai dando lugar à dor absorvida dos indivíduos retratados. Não é uma trama especificamente de concretização de temores da vida pós morte, mas sobre o sentimento de estar incompleto e deslocado, que é compartilhado tanto pelos personagens vivos quanto por aqueles que não fazem parte mais da matéria física. Sobre a incomunicabilidade que pode nos distanciar um dos outros e fomentar pesadelos.

O enredo sobre o garotinho que tem sua vida tumultuada pela capacidade de ter contato com espíritos e que recebe ajuda de um psicólogo infantil que enfrenta os impactos emocionais de uma tragédia recente com um dos seus pacientes e vive uma crise conjugal, ganha contornos cada vez mais complexos a cada revisita. O famoso plot twist demonstra ser menos importante pela surpresa em si do que por ser a síntese de tudo que o filme busca instigar.

Curioso como Shyamalan emprega a cor vermelha – que é associada geralmente no cinema à violência e paixão - durante o filme para reforçar seus paralelos de morte e distanciamento, desenvolvendo uma simbologia recorrente que ajuda a esboçar o arco dos personagens. Reparem, por exemplo, no uso da cor na maçaneta da porta que o Dr. Malcolm tenta abrir em vão frequentemente e nos figurinos trajados por sua esposa. O desalento faz parte do estado de espírito daquela mulher que o marido tanto tenta decifrar e se conectar novamente, o vermelho funciona como a ponte quebrada entre os dois. Isto estabelece o elo fundamental com Cole, já que um abismo se efetiva também com o jovem e o mundo ao seu redor. Observem que a cabana de lençol criada pelo garoto para se isolar de seus tormentos é vermelha e esses medos começam a se dissipar quando Cole decide dar espaço para ouvir um dos fantasmas que está justamente dentro de seu campo de proteção, tanto é que o vermelho, que fazia parte também de suas roupas, é substituído pelo verde depois de um momento chave do filme. Sendo assim é formidável que a resolução encontrada para seus conflitos esteja na libertação de sua redoma interna, com o estabelecimento de um contato que foi reprimido por tanto tempo, que é visível na belíssima cena de desabafo entre mãe e filho, em que ela carrega um suéter vermelho. Assim, é estabelecida a ligação entre os dois protagonistas, que, inclusive, já é constatada em umas das sequências iniciais, em que caminham juntos pela rua cercada de tons vermelhos nas paredes.

Aliás, cabem aqui os devidos elogios às performances centrais de Haley Joel Osment e Bruce Willis. O primeiro confere uma carga emocional repleta de angústia e cansaço mental ao personagem, que ainda exibe uma preocupação tocante com a mãe. Em seu olhar imergimos em total empatia pelo garoto e sentimos cada momento de sua perturbação. Já Willis entende perfeitamente que está encarnando um sujeito de temperamento racional, mas repleto de incertezas, acertando em cheio em optar por uma postura mais contida, mas que habita uma imensa tristeza.   Toni Collette é outra atriz que oferece um desempenho delicado. Encarnando uma mulher esgotada que, mesmo a ponto de desabar a qualquer instante, encontra forças para buscar momentos de leveza com o filho. Como visto na linda cena em que os dois estão saindo do supermercado, reforçando que um roteiro bom de verdade não consiste apenas em sequências que fazem o conflito central andar, mas também naquelas que desenvolvem a relação dos personagens.

E assim como os personagens de O Sexto Sentido, estamos todos vulneráveis aos diversos silêncios internos que podem transformar nossas vidas num autêntico inferno. Ver um ente querido se destruindo aos poucos e se sentir inútil por não saber a raiz de suas razões para agir assim, ter uma relação de mágoa mal resolvida que se mantém em aberta durante o passar dos anos, se dar conta de que a pessoa com quem você se manteve em completa sintonia por uma vida inteira agora não passa de uma estranha. Quantos de nós não nos identificamos com dilemas como estes apresentados e muitos outros? Sabemos bem que a morte pode chegar, sim, a qualquer momento. A questão é que podemos ser todos mortos-vivos assombrados por fantasmas que desconhecemos e deixar esse medo acabar lentamente com nosso prazer de existir, nos rendermos e aceitarmos o sofrimento como uma condenação imutável. Mas o medo só tem efeito quando é desconhecido e não confrontado. Cole mesmo fala para Malcolm que muitos mortos só enxergam o que querem enxergar. Afinal de contas, quantas vezes já morremos e não nos demos conta disso?

Texto publicado orginalmente em 2 de fevereiro de 2017.