Gilmar. A907da72 7f71 4da3 bbd4 b2f4f8aa66a9 (Não) há vagas

Dizem que nos tempos da Galileia havia um tal de Jesus. Ele era conhecido por caminhar sobre as águas e transformar a água em vinho, mas também por andar com todo o tipo de excluídos sociais, tais como marginalizados, leprosos, prostitutas, órfãos, pobres e, também, pessoas com deficiência. Andava justamente com pessoas que grande parte da população fingia nem existir.

Dois mil anos antes da criação de uma lei de cotas para pessoas com deficiência, o evangelho reveste-se de fundamental inclusão social, trazendo para dentro de um “reino” toda a sorte de excluídos. Naquelas escrituras, justamente pessoas consideradas inexistentes, os invisíveis sociais, ocupam lugar de destaque.

Dentre elas, há uma atenção especial com as pessoas com deficiência. Inúmeras são as passagens em que Jesus curou mancos, aleijados, cegos, mudos e muitos outros. Eles não só ocupam papel central nas narrativas como são protagonistas do anúncio da chegada de um tal “reino dos céus”.

- Ide e anunciai as coisas que ouvis e vedes: os cegos veem, os coxos andam, os surdos ouvem... e aos pobres é anunciado o evangelho.

Mesmo tendo percorrido dois milênios após a crucificação, estamos muito longe de sermos uma sociedade inclusiva. Ainda que exista um arcabouço legal e de controle, falhamos demais na necessária e urgente inclusão das pessoas com deficiência em nossa sociedade.

A lei de cotas possui mais de 26 anos e continuamos a frustrar um direito fundamental de reservar às pessoas com deficiência quantidades mínimas de vagas no mercado de trabalho. Em Alagoas, nem 46% do total das 4.500 vagas reservadas às pessoas com deficiência nas empresas são ocupadas pelos seus destinatários legais.

Muitos alegam que não há pessoas com deficiência em número suficiente para ocupar essas vagas. Dessa forma, preferem se tornar cegos para aos mais de 800.000 alagoanos que, segundo o último censo do IBGE, possuem algum tipo e grau de deficiência.

Aceitar e repetir o argumento de que não há candidatos suficientes para ocupar essas vagas é tão preconceituoso como a atitude de quem vira a cara todos os dias para o cego que pede esmola em frente à Igreja do Livramento ou da mãe-monstro que exige da coordenadora da escola transferir seu filho para uma turma sem autistas ou crianças com déficit intelectual, alegando que o contato diário com esse tipo de aluno vem piorando o desempenho de seu herdeiro.

Esse desprezo pelas pessoas com deficientes não se limita às condições genéticas. Somos igualmente excludentes com o exército de doentes e mutilados oriundos do próprio mercado de trabalho alagoano que, apenas no período de 2009 a 2015, superou a marca de 53.000 acidentes de trabalho. Toda e qualquer iniciativa de controlar essa barbárie é inócua se não soubermos onde reinserir nossos acidentados. Coincidentemente, os setores econômicos que mais acidentam, mutilam e matam são aqueles que menos incluem pessoas com deficiência em seus quadros.

Poucas são as empresas de nosso Estado que se preocupam em desenvolver um ambiente de trabalho verdadeiramente acessível ou implementam políticas de contratação de pessoas com deficiências graves e moderadas, ressalvadas nobres exceções que realmente se esforçam em adaptar as suas rotinas e instalações. Ainda, é comum a preferência por pessoas com deficiências leves ou imperceptíveis, que não impactem nas rotinas ordinárias da empresa e não causem “transtornos” para sua inserção.

Acessibilidade e inclusão da pessoa com deficiência ao mercado de trabalho continuam sendo a porta do reino dos céus. Enquanto isso, aqui no reino dos homens de Alagoas, continua sendo mais fácil um camelo passar pelo buraco de uma agulha do que um cego, um cadeirante ou um surdo mudo conseguir sair do bairro do Prado e chegar ao Centro de Maceió.