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Nos últimos dias a história do pequeno Alfie Evans, o menino inglês de 2 anos condenado a morte pela justiça inglesa tem me assombrado, não consigo olhar para meu filho mais novo, da mesma idade, sem imaginar, com profundos calafrios, que poderia ser ele. Os detalhes dessa história de terror parecem não comover o mundo. Muito diferente da comoção que explodiu quando o pequeno menino sírio foi encontrado morto na praia de Bodrum, na Turquia. Ambas as tragédias são monstruosas, mas o fato é que no caso de Alfie, ele foi literalmente condenado à morte pela justiça e a sentença foi executada, sem qualquer pesar, pelos médicos do hospital. Um processo que espantaria e encheria de terror o próprio Franz Kafka. Não bastasse isso, a justiça inglesa proibiu que o menino fosse tranferido para a Itália, que lhe concedeu cidadania, onde um hospital lhe forneceria tratamento e novos exames. Para quem quiser entender todo esse horror, leia o editorial da Gazeta do Povo aqui.

O motivo de tal diferenciação? Narrativa! Enquanto um fortalece o discurso ideológico globalista, politicamente correto e amplifica as acusações de xenofobia contra alguns líderes mundiais conservadores, o outro revela a defesa da vida, pura e simplesmente, acima de qualquer ideologia ou credo, o poder dos pais e os limites do Estado. É a luta do indivíduo contra o coletivismo inconsequente.

Só quem é pai e mãe (bons pais, frise-se, pois, o simples fato de fazer filhos não transformam, per si, em seres dominados pelo amor imensurável aos filhos) podem verdadeiramente imaginar o sofrimento desse casal. Não gosto de falar de coisas pessoais, fruto da lição que aprendi muito anos atrás de que a melhor coisa a se fazer é falar muito sobre as coisas, pouco sobre os outros e nada sobre você, mas abro aqui uma dolorosa exceção. Quatro anos atrás nossa filha mais velha foi internada por conta de sua diabetes. Seus rins pararam de funcionar, seus pulmões entraram em colapso e, inevitável, veio o coma. Imagine-se ouvindo do médico: “Se vocês acreditam em Deus, orem, pois não há mais nada que possamos fazer”. Nenhum médico, enfermeiro ou funcionário do hospital acreditava que ela sobreviveria. Mas sobreviveu e sem absolutamente nenhuma sequela. Agora imaginem o que ocorreria se a justiça, saída diretamente dos mais assombrosos contos de terror sentenciasse: matem!

De todos os autores das distopias que li, de George Orwell até Cormac McCarthy, passando por Aldous Huxley, H.G. Wells e Ray Bradbury, não consigo recordar de nada tão assustador assim. Nada, simplesmente porque estamos falando de algo que está acontecendo neste exato momento. Um juiz determina o assassinato de uma criança e os médicos – cumprindo apenas ordens, dirão alguns em sua defesa e, neste caso, lembro como acabaram os médicos nazistas no tribunal de Nuremberg “que apenas cumpriam ordens”: na ponta de uma corda.  –  executam-na sem maiores dilemas, com o hospital cercado por policias que também estão apenas seguindo ordens.

Que não se engane o leitor que estamos longe dessa realidade. De parte do nosso judiciário não é nenhuma novidade o que podemos esperar, basta ver a atuação do STF, porém, afirmo, dentre os médicos que estão sendo formados neste exato momento, há pessoas plenamente capazes de matar em nome da vida. Que não pensariam duas vezes em “acabar com o sofrimento” de crianças e idosos, mas que chorariam copiosamente se lhes fosse incumbido o trabalho de sacrificar um cachorro moribundo.

 

Não vou me aprofundar nesta questão, mas deixo aqui o trecho do excelente livro – tão excelente quanto assustador –“A Morte da Medicina”, do Dr. Hélio Angotti Neto, de quem tomei emprestado o título deste artigo e cito o trecho abaixo: “ser médico subentende não apenas uma forma de agir, mas também uma forma de agir como reflexo de uma forma de pensar, uma forma de ser, na busca de um ideal. No entanto, sob qualquer aspecto, essa causa formal do médico está intrinsecamente ligada ao respeito pela vida humana”. Não, matar uma criança não é respeito à vida humana, é assassinato.

Tenho plena consciência que este meu texto, desprovido da capacidade literárias de tantos outros amigos que tenho, não tem qualquer chance de mudar nada, muito menos de ajudar a salvar o pequeno e indefeso Alfie, não tem poder de consolar seus pais, como se isso fosse de alguma forma possível, não passa no fundo de um desabafo de um pai de três filhos, um grito de horror e medo de viver em um mundo onde o governo pode decretar a morte em nome da humanidade. Esse é o texto mais triste que escrevi. É o texto que não gostaria de ter escrito e que tudo isso não passasse de um pesadelo.

P.S: Hoje, dia 28 de abril, o pequeno Alfie partiu. Um dia triste. Fim de uma história macabra que reflete a decadência do Ocidente.