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No Brasil, a obra O Leitor de Gramsci, organizada pelo professor universitário Carlos Nelson Coutinho, é um livro de é fundamental importância para os dias atuais, para quem quiser saber como pensa e se move a esquerda clássica brasileira.

Não falo aqui do revolucionário de plantão que apenas responde a estímulos de ambiente e segue crente que sabe de alguma coisa, mas apenas distribui chavões para, logo depois, mandar alguém estudar ou xingar de fascistas e outros “istas” completamente dissociados de seus significados.

Por sinal, ressignificação semântica das coisas e das palavras faz parte da práxis gramsciana, ainda que quem a pratique ou já se veja envolvido nela, ao ponto de acreditar que as mentiras que professa são verdades, não tenha nem conhecimento do que seja.

Bem, Carlos Nelson Coutinho está longe de ser alguém de direita. Muito pelo contrário. Pela introdução feita na obra, percebe-se que é próximo ao marxismo. No entanto, a obra é tão didática em relação ao pensamento revolucionário de Antonio Gramsci que, fatalmente, aquele que ainda preserva alguns neurônios, diante das guerras de narrativas, cultural e psicológica que vivemos, vai compreender o que é criar uma “bolha ideológica” a partir dos valores da sociedade que se deseja transformar, criando assim uma revolução cultural em nome do mundo melhor, sem a necessidade imediata de uma revolução armada, como presente nos cânones marxistas.

A “bolha ideológica” sequestra os valores de uma sociedade para que estes sejam subvertidos por uma “intelectualidade orgânica”. São indivíduos a serviço do pensamento revolucionário, mas que aparecem como “isentos” no processo cultural e político para insuflarem demandas por meio de coletivos.

Todas essas demandas são úteis para quebrar a ordem de uma sociedade na exigência de políticas corretivas de Estado. Cria-se um “inconsciente coletivo” para que, lá na frente, surja o partido – o “moderno Príncipe” – a responder a tais demandas e assim alcançar o poder como agente representante de uma hegemonia previamente implantada.

Os sindicados deixam de ser representantes de trabalhadores, por exemplo, para tratarem de temas universais de forma ideológica, o mesmo ocorre com ONGs, conselhos populares, escolas e até a Igreja, que também é citada por Antonio Gramsci. É vendida a falsa ideia do progresso com base nas “leis dinâmicas da História” e quem não concordar é um retrógrado. É empurrado para fora da “bolha ideológica” como um “extremista” a ser combatido, pois é alguém que não fala em nome do povo.

Só que o “povo” – esse conceito abstrato – foi falsificado, pois já não é o povo que fala, mas os coletivos tomados por visões ideológicas. Frauda-se a democracia.

O espectro político só passa a ter representantes de uma mesma ideologia que encontra suporte em grupos previamente infiltrados por aqueles que são vistos como especialistas, intelectuais, inteligentes, donos da verdade. Estão eles em cargos de professores, presidentes de sindicatos, chefes do ONGs, padres, líderes de movimentos, jornalistas e por aí vai...

Quem duvida que leia a obra organizada por Carlos Nelson Coutinho que, repito, de forma didática separa os textos de Gramsci por temas. E assim, vai dos escritos pré-cárcere até o famoso Cadernos do Cárcere. Por isso que Antonio Gramsci afirma de forma tão clara que cabe ao próprio revolucionário criar – de forma antecipada – o ambiente propício, no Ocidente, para se fazer a revolução futura: “os revolucionários criarão as condições necessárias para a realização completa e plena de seu ideal”.

Gramsci percebe que o chamado capitalismo não possui por si só uma base moral, mas – ao contrário – depende de uma base moral que está na cultura do Ocidente, que é formada pela filosofia grega, a evolução do Direito e a visão transcendente, sendo a mais influente o cristianismo. Logo, são essas bases – que eram compreendidas como a superestrutura – que precisam ser atacadas. Assim, é possível usar o chamado capitalismo para implantar o socialismo e o comunismo.

Daí, Gramsci criticar os bolcheviques ao dizer que “a revolução bolchevique se baseia mais em ideologia que em fatos”. Portanto, é preciso antes que os fatos sejam favoráveis e possa se construir um ambiente que aceite o discurso ao invés de se erguer naturalmente contra ele em função da herança ocidental. Para Gramsci, é preciso criar um ambiente onde não existam os “indiferentes”. “Odeio os indiferentes (...) Não podem existir os que são apenas homens, os estranhos à cidade”, diz o filósofo marxista italiano.

Em outras palavras, o ambiente precisa produzir agentes de uma revolução, o novo homem, deve tornar todos num vetor da luta revolucionária. “O que significa que toda revolução foi precedida por um intenso e continuado trabalho de crítica, de penetração cultural, de impregnação de ideias em agregados de homens que eram inicialmente refratários e que só pensavam em resolver por si mesmos, dia a dia, hora a hora, seus próprios problemas econômicos e políticos, sem vínculos com os que se encontravam na mesma situação. O último exemplo, o mais próximo de nós e por isso o menos diferente do nosso, é o da Revolução Francesa”, escreve Gramsci.

Vejam aí: o autor destaca a necessidade de coletivizar o homem transformando necessidades pontuais em problemas maiores, que passam a ser compreendidos como parte de um sistema que precisa ser mudado em seu todo por meio de uma revolução cultural que leve ao socialismo e ao comunismo, ainda que essas pessoas não saibam para onde estão indo no final das contas, pois o objetivo político nunca é plenamente mostrado. Mas sim o discurso superficial ideológico que se apropria até de dores reais do humano, que realmente sofre com injustiças, pois elas fazem parte do mundo.

A função de um partido será a de se apresentar como resposta as demandas criadas por meio desse processo, pois a criação de uma hegemonia - que transforme um partido político em resposta ao que o “povo” - precisa ser feita anteriormente por “grandes intelectuais, jornalistas, revistas etc”, como reconhece Nelson Coutinho.  

Eis que – de uma hora para outra – todo mundo passa a adotar o mesmo discurso. Intelectuais – para Gramsci – não só educam, mas organizam a sociedade para “criar ou consolidar relações de hegemonia, por isso, para ele (Gramsci), são intelectuais todos os membros de um partido político, de um sindicato, de uma organização social”, destaca Coutinho, ao explicar o conceito do “intelectual orgânico”.

Em outras palavras, o intelectual orgânico trabalha para tornar os interesses de um partido em interesses gerais de uma sociedade por meio da infiltração. Assim, com o tempo, eles surgem como uma demanda natural para que o partido, posteriormente, sequestre tal ambiente para si e se venda como o salvador da pátria, mostrando que o caos sentido não foi implantado, mas é fruto do sistema que precisa ser revolucionado. Como cordeirinhos, todos passam a concordar e elegem esse partido acima do governo e acima do Estado.

Para Gramsci, a sociedade civil deve designar o conjunto das organizações responsáveis pela elaboração e/ou difusão das ideologias, compreendendo esse conjunto os sistemas escolar, parlamentos, Igrejas, sindicatos, meios de comunicação etc. É o cerco ideológico que resulta na bolha.

O politicamente correto se enquadra aí, pois até a linguagem na qual você tem que pensar deve ser estabelecida previamente como mecanismo de controle. Como o objetivo político é escondido, isso é feito em nome de um bem que é o de supostamente corrigir injustiças, quando – na realidade – o que se faz é castrar possibilidades de comunicação entre os homens.

Aqui, trago apenas uma parcela do que é o pensamento de Gramsci. Obviamente, é mais profundo que isso. De fato, é um autor inteligentíssimo. De fato precisa ser lido e estudado com bastante atenção. Afinal, como diz Coutinho: “O marxista italiano Antonio Gramsci é um dos intelectuais estrangeiros mais influentes no atual pensamento social brasileiro. Desde o final dos anos 60, quando sua obra começou a ser publicada no Brasil, Gramsci vem atraindo não só atenção dos acadêmicos situados no amplo espectro das Ciências Sociais, mas também de militantes políticos e de um público culto, interessados nas questões da política e da cultura”. Pois é.

Nelson Coutinho está coberto de razão. É também por isso que vivenciamos o que vivenciamos hoje.

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