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Não são poucas as vezes que encontro dificuldades em expressar certas ideias, de colocá-las no papel. Por sorte cada vez mais pessoas começam a entender e pensar sobre a complexa questão da criminalidade no Brasil de forma muito mais racional e deixando de lado os velhos clichês e mantras ideológicos. Hoje topei com o texto abaixo, uma sintese exata e precisa da questão da criminalidade x pobreza, um desses dogmas tão lugares-comuns quanto falsos! Nos últimos anos a criminalidade não se expandiu apenas nas classes menos abastadas e nos bairros periféricos das grandes cidades e prova disso é o envolvimento cada vez maior de jovens de classe média e alta na criminalidade. Exemplo extremo disso é verificar os condenados e presos na Operação Lava-Jato. Será que algum deles escolheu delinquir por falta de opção? Por pobreza? Por falta de oportunidade? Me parece óbvio que não. Bom, termino por aqui e os deixo com o texto do amigo Carlos Kramer a quem parabenizo mais uma vez! 

 

A pobreza pode influenciar índices de criminalidade apenas na medida em que os pobres forem convencidos de que o crime é uma saída justificável e legítima para a sua situação econômica.

A desigualdade econômica (que é um conceito bem diferente de "pobreza") só influencia índices de criminalidade na medida em que os com menos são convencidos de que têm menos *porque* alguém tem mais. E também na medida em que as pessoas se convencem de que ter um tênis caro ou um celular de última geração é mais importante do que respeitar o próximo.

A pobreza e a desigualdade, por si mesmas, não são causa da criminalidade. A pobreza e a desigualdade podem até acrescentar combustível, mas o que acende a fogueira é o conjunto de crenças e de valores de uma população. É por isso que o discurso que atribui altos índices de criminalidade à pobreza e à desigualdade é, ele próprio, mais responsável pelo aumento desses índices do que as causas que ele normalmente aponta. Esse discurso injeta na sociedade a crença de que o crime é justificado por fatores econômicos.

Dito isso, é preciso acrescentar o seguinte: a imensa maioria dos crimes bárbaros no Rio de Janeiro não é cometida por pessoas famintas e em situação de extrema pobreza. A imensa maioria dos jovens cariocas têm acesso à educação escolar, onde recebem livros, passagens, uniformes e alimentação gratuita. A escola pública tem problemas, é fato, mas converse com qualquer professor e ele te dirá que um dos maiores problemas que enfrenta é o absoluto desinteresse dos alunos.

É claro que combater a pobreza é uma prioridade. É claro que um país em que a riqueza extrema não contribui para tirar pessoas da pobreza extrema é um país com um grave problema (econômico e moral). Nada disso está sendo contestado. O problema é que tratar a pobreza e a desigualdade como principais causas da criminalidade é não apenas um erro de análise dos fatos concretos, como também serve para inflamar ainda mais a violência.

Nós sabemos que tem muita gente por aí realmente interessada em inflamar o já complicado quadro em que vivemos. Há quem faça isso por acreditar que o crime é uma espécie de instrumento revolucionário. Há quem faça isso por acreditar que um alto índice de criminalidade é uma espécie de troco justo para os mais ricos que exploram os mais pobres. Mas há os que simplesmente engoliram esse discurso depois de muitos anos de martelação em suas cabeças, sem nunca terem questionado a sua validade. Eu não acredito nesse discurso. Eu fui criado no meio de gente pobre (até porque eu mesmo nunca fui rico). Minha mãe dava aulas para crianças descalças em turmas multisseriadas na roça. Eu convivi a infância e a adolescência inteira com pessoas com uma situação econômica bem abaixo da do típico jovem de baixa renda do Rio de Janeiro, gente que só podia comer o pouco que colhia de pequenas plantações (normalmente aipim e feijão). Nada no mundo vai me convencer de que ser pobre te torna automaticamente um criminoso, porque meus próprios olhos já viram que isso não é verdade. No máximo, a pobreza nas grandes cidades pode te tornar mais suscetível ao canto da sereia do traficante e do sociólogo de botequim. Mas, em ambos os casos, é o canto da sereia e não a pouca comida no navio que leva o marinheiro para o fundo do mar.