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     Aos 54 anos de idade, o compositor Humberto Gessinger afirma que chegou à idade em que precisa colocar “óculos para enxergar qualquer coisa”. Será coincidência a frase dialogar com a nova canção “Cadê?”, em que fala de “microscópios” e “telescópios” para enxergar o momento de um solo tão encharcado?

         Bem, quem acompanha a carreira de Gessinger sabe que qualquer entrevista pode vir recheada de reflexões, ironias bem-humoradas e uma honestidade intelectual incrível para com os fãs. Gessinger – que traz sua nova turnê à Maceió na próxima sexta-feira, dia 16 – concedeu entrevista a este blog.

         Falamos sobre futuro, presente e passado. Gessinger demonstra fôlego e uma disposição de ainda dialogar muito por meio da música. Como ele mesmo afirma, em Plano B, “o caminho se faz andando”. E nesta jornada, “é longo o caminho da água para o vinho”. HG, como conhecido entre os fãs, está correto ao afirmar em Das Tripas, Coração, que realmente é muita coisa, guerra e paz, inverno e verão...

         Confiram aí a entrevista na integra:

 

Você encerrou mais uma turnê de sucesso, com shows por todo o país. No palco, a releitura do Revolta dos Dândis e músicas da carreira. Porém, um som mais pesado que as inéditas que lançou recentemente. Estas possuem um ambiente mais minimalista e acústico. Na sua visão, como essas novas canções dialogam com o novo show? Teremos um Gessinger mais light ou uma mistura de universos?

 

Gravei as inéditas no formato acústico porque era o que o DVD pedia. Nas estrada, elas poderão ter outros arranjos, de acordo com o que o show pedir. Como compositor, acho que as várias possibilidades de uma canção enriquecem seu significado.

 

 O último álbum de inéditas de sua carreira foi o Insular. De lá para cá, dois DVDs ao vivo. Para quem acompanhava os Engenheiros do Hawaii, lembra de um Gessinger que tinha uma produção frenética – quase um disco por ano – e todos bastante conceituais, que podiam até ser ouvidos como uma única canção do início ao fim. Agora as inéditas ficaram mais espaçadas e farão parte de um ao vivo. O que ocasionou essas mudanças? Um HG sem tanta pressa de lançar novas composições? Como anda sua relação com as composições hoje em dia?

 

Quando um artista lança um novo trabalho, ele não joga fora tudo que já fez. Parece óbvio, mas muita gente não entende. Quando faço uma música, hoje, é para que ela se insira numa obra já extensa. É natural que o ritmo seja outro. Não faz sentido ficar se repetindo qualitativa ou quantitativamente. E uma análise mais ampla da minha produção recente - não só das composições, mas também dos trios que montei, dos livros que escrevi, do Pouca Vogal, das conexões que criei, do número de shows, novas tours e variações instrumentais, etc... - mostra que as pedras seguem rolando, sem criar limo. Talvez, pela fragmentação do mundo atual, isso passe despercebido para quem acompanha mais superficialmente. Mas quem tá ligado, sabe.

 

 As novas canções lançadas – quatro ao total – mostram preocupações com o tempo, com em Pra Caramba, e uma fé no futuro, como em Das Tripas, Coração. Essa visão da passagem do tempo já se fazia bem presente em Insular. Que sentimentos e reflexões tem levado você a escrever hoje? Você acredita que a mudança de Engenheiros para um trabalho solo influenciou na forma de compor?

 

Não sinto diferença nenhuma em ter meu nome ou o nome de uma banda à frente do meu trabalho. São só rótulos. O fato de meu nome ser menos conhecido do que o nome da banda até é bom, serve de filtro, uma peneira separando quem está interessado no conteúdo ou no rótulo.

A temática da passagem do tempo pinta, mas junto com outras. Talvez ela se sobressaia mais pela forma como as pessoas veem do que pelas letras em si. É natural que esperem que um artista longevo fale disso e por isso, essa faceta seja mais notada. Mas há outros papos rolando paralelamente nessas canções.

 

Uma coisa que marcante de sua carreira é que por mais que se revisite os hits, a cada show, eles ganham novas roupagens, sejam com sutis mudanças nas letras, sejam por meio de arranjos, ou diálogos entre canções de fases distintas. Há uma preocupação em não virar cover se de si mesmo? O que pesa na hora de pensar essas mudanças dentro de novos formatos? É planejado ou a música que acaba ganhando vida própria?

 

Não é algo planejado.  Quem compõem sabe que a escrita não é uma estrada reta. Ela tem muitas curvas, idas e vindas. Na hora de tocar é natural que toda a trajetória da composição, não só a versão gravada, renasça em fragmentos. Eu gosto de trazer isso à tona. Arte pra mim, é algo essencialmente humano, não pode ser repetição automática.

 

 Você lançou vários livros nos últimos anos. Textos que traziam crônicas sobre o cotidiano, com em Seis Segundos de Atenção, e outros que dialogavam com a carreira na música, como Pra Ser Sincero. Quando esperar algum novo trabalho de Gessinger nesse sentido? Creio que o fãs sintam falta do blogessinger. Ele foi “sepultado” ainda com tantos frutos a dar? Em resumo: ainda pensa em livros e qual a diferença entre escrevê-los e escrever canções?

 

Eu também sinto falta do BloGessinger. Sou imensamente grato pelo carinho e energia boa que muita gente gerou a partir daquele diálogo. Mas, com o tempo, fiquei com medo de que se transformasse em algo burocrático. Também fiquei com medo de um certo tom "professoral" que estava pintando em torno dos meus textos. Não tenho nada a ensinar pra ninguém. Também tô buscando caminhos, respostas... Por outro lado, a partir do inSULar, tem aumentado muito meu foco na música. Acho que o BloGessinger ajudou nisso me fazendo refletir sobre minha trajetória. Mas também acho que agora é hora de falar por música.

 

Saudade Zero é uma dica de que Engenheiros do Hawaii não mais retornarão? Ou ainda há chances de vermos novamente o GLM no palco? 

 

Não tenho planos a longo prazo, estou começando uma tour e só penso nela. A expressão Saudade Zero não se refere a EngHaw. Tenho muito orgulho da banda e um pouco de saudade é saudável. Talvez as frases  "todos sabem que hoje começa o verão, ninguém sabe em qual hemisfério" e "na mão a chave que abre o salão só falta encontrar a porta" possam ser usadas pra descrever aqueles que acham que têm respostas e receitas pra tudo, mas se esquecem do essencial.

 

 Você sempre foi um compositor que – como você mesmo cantou – anda só. Porém, os últimos anos foram várias parcerias que incluíram Nico, Thiago Iorc, Bebeto Alves e até regravações de parcerias do passado, como a que fez com Barão Vermelho e Capital Inicial. Como você encara a composição solitária e esses projetos em parcerias? Quais semelhanças? Quais diferenças?

 

Acho que, sozinho, eu escrevo de forma mais particular e pessoal. Nas parcerias, sou mais "correto". São dois prazeres diferentes, caos e disciplina. Ambos necessários.

 

Canções como Não Consigo Odiar Ninguém, Alexandria e a mais recente Cadê, assim como de cera forma Pra Ficar Legal, são músicas que acabam denunciando essa modernidade liquida que vivemos, onde todo mundo fala em voz alta. Na minha visão, acabam sendo irmãs de Canibal Vegetariano Devora Planta Carnívora. Como você tem lidado com esse mundo em voz alta, onde todos falam demais, mas ao mesmo tempo é o universo – como nas redes sociais – que são fundamenta para escoar novos e bons artistas, assim como os que já possuem carreira consolidada mas não estão na grande mídia?

 

É um mundo complexo, cheio de véus e jogos de espelhos, às vezes as cópias falam mais alto do que os originais... há uma velocidade ilusória nisso tudo. Quem sacar isso, filtrar o que está no ar, pode aproveitar o que há de bom. Fazer das tripas coração. Pois sempre há dois lados. Ou mais.

 

Como você observa hoje esse cenário de artistas engajados e sempre prontos para adotar uma ideologia? Sempre a figura do eterno revolucionário para o qual o tempo não passa? A juventude, em sua visão, no meio desses artistas, ainda é uma banda numa propaganda de refrigerante?

 

É bom que a gente não se acomode, é bom que a gente se expresse. Se for verdadeiro. Se não for só no discurso.

 

As novas tecnologias ajudam ou atrapalham? Quais vantagens e desvantagens você apontaria, já que hoje é tão fácil produzir, mas ao mesmo tempo temos uma overdose em que é dificílimo separar o joio do trigo?

 

Antes era mais difícil gravar do que fazer as pessoas ouvirem. Agora é contrário. Isso é verdade, mas é uma simplificação. No decorrer desse processo muita coisa mudou, mas há, também o que permaneça. Muita água passa sob a ponte, mas é o mesmo rio. 

 

Como você enxerga o cenário do rock hoje?

 

Aos 54 anos, já tenho que colocar óculos pra enxergar bem qualquer coisa. Mas, quando se trata de arte, às vezes a gente vê melhor de olhos fechados, né? A música vai bem!

 

Estou no twitter: @lulavilar