Juízes federais estão à beira de uma greve, na defesa de mamatas como o auxílio-moradia e outros penduricalhos que elevam os rendimentos da patota às raias da pornografia. A postura simplesmente ignora o que está na Constituição, que estabelece o teto salarial no serviço público. É escandaloso, mas a rapaziada não está nem aí para o mínimo de decência que se espera de magistrados. O absurdo é o retrato de uma cultura da boçalidade no coração de uma elite desprezível.

 

Se os interesses imorais de uma categoria prevalecerem sobre a letra da lei, estaremos diante de uma prova cabal, exposta à lua do sol, de que o “Brasil passado a limpo”, como apregoam os arautos da Lava Jato, não passa mesmo de uma piada. É inacreditável que, após a revelação de incontáveis casos de abuso na concessão dos tais auxílios, associações de juízes venham a público defender o indefensável. E os togados ainda querem posar de vítimas do jornalismo.

       

Desde que os pagamentos imorais começaram a ser publicados pela imprensa, proliferam textos de dirigentes dessas associações – não para dar explicações aos brasileiros, como deveria ser feito, mas para exigir a manutenção dos privilégios e atacar a divulgação dos fatos. É o de sempre: para esse tipo de gente, imprensa que serve é aquela que silencia diante das causas ilegítimas de suas excelências. Acostumados a agir sem dar satisfações a ninguém, juízes decidiram ganhar no grito.

 

A infame iniciativa da greve pretende emparedar nada menos que o Supremo Tribunal Federal. O corporativismo atávico quer impedir que o STF elimine a farra da liberação sem controle desses benefícios. Será um ótimo teste para a presidente do tribunal, Carmen Lúcia, e demais membros da Corte. Um teste difícil, afinal entre os beneficiados que driblam a lei estão Sergio Moro, Marcelo Bretas, Deltan Dallagnol e meio mundo de heróis da Lava Jato. É muita presepada.

 

Recorro àquela mistura de lugar-comum e folclore nacional que dizia o seguinte: ou o Brasil acaba com a saúva ou a saúva acaba com o Brasil. Que o Supremo faça o que tem de ser feito para nos livrar da saúva que veste capa preta e se acha acima de todos. Caso contrário, sugiro até que suspendam as eleições e se proclame logo a República das Togas. Que os abnegados membros do Judiciário continuem fazendo fortuna num país de miseráveis. Afinal, temos uma Justiça impecável.