Nada menos que na contramão da realidade, o Jornal do Brasil voltou a circular. Está nas bancas do Rio de Janeiro, sua casa desde o nascimento, há 127 anos. Circula também em Brasília e São Paulo. A versão impressa saiu de cena em 2010, quando já não era nem a sombra do mitológico JB.

 

É difícil imaginar o que pretendem os novos donos do jornal, num cenário completamente hostil àquilo que a maioria considera um hábito ultrapassado, coisa de velho, de gente careta: a leitura no papel.  Se os profetas preveem até a morte do livro, o que dirá de notícia impressa!

 

Revistas e jornais resistiram ao rádio e à TV, mas entraram em colapso com o advento da internet. As grandes marcas, no Brasil e no mundo, enfrentam uma guerra de sobrevivência há vinte anos – coisa que se tornou dramática nas primeiras décadas do século 21. E o drama só aumenta.

 

Jornais impressos morrem todo dia. Sem anunciantes, e com a debandada de leitores, a decisão mais comum é a migração para o ambiente virtual. Aliás, é o caminho natural, dos pequenos grupos aos gigantes da imprensa. Todos investem para garantir vida nova na rede mundial.

 

Monstros sagrados da imprensa e da cultura brasileira fizeram a história do velho JB. Alberto Dines, Jânio de Freitas, Elio Gaspari, Carlos Castelo Branco, Bárbara Heliodora, Millôr Fernandes, Clarice Lispector e Ferreira Gullar estão entre os textos que honram a trajetória do jornal.

 

No campo cultural, há um consenso quanto ao pioneirismo e à excelência do Suplemento Dominical do Jornal do Brasil. Foi o caderno que se tornou referência obrigatória para quem buscava informação de qualidade sobre o que havia de mais relevante no mundo das artes.

 

Foi a partir do SDJB que se firmou a ideia de um espaço exclusivo para reportagem, resenha e crítica sobre literatura, cinema, música e teatro. Vem daí a proliferação dos chamados Caderno B, Segundo Caderno ou Caderno 2. Estão aí até hoje nas publicações que resistem ao tsunami.    

  

Pode ter certeza: boa parte do que há de mais moderno em nosso jornalismo surgiu primeiro nas páginas do JB. Em 1959, o veículo mudou tudo na apresentação de notícias, com uma verdadeira revolução editorial e gráfica. Suas sacadas foram adotadas por toda a concorrência.

 

As guerras políticas envenenam interpretações sobre o significado da imprensa e do jornal em particular. Em defesa de cartilhas ideológicas, joga-se tudo no mesmo balaio, numa visão simplista, e muitas vezes burra, sobre jornalismo. É o que fazem professores nas universidades.

  

A retomada da circulação do JB, claro, não representa a volta daquele jornalismo praticado em suas páginas no passado. Impossível. Pela internet, vê-se que a edição é magrinha, longe do catatau de cadernos de antes. Além disso – tremenda ironia –, o projeto gráfico é ultrapassado.

 

Nada de saudosismo, essa praga que arrasta até mocinhas e rapazes com menos de 30 anos de vida. Falo aqui de leitura, texto, cultura e história. Por isso, digamos que exalto essa irrelevância – como a maioria deve pensar –, que é a volta do JB no papel. É como se fosse uma resistência à barbárie. Ou seja, uma causa irremediavelmente perdida.