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Temos a satisfação de reproduzir o texto do Economista e Professsor da UFAL, Cícero Péricles, que abre nosso livro como prefácio. Ele será lançado nessa próxima quinta-feira, no Restaurante Bodega do Sertão, as 19 horas.

 

Outro Modo de Interpretar o Brasil: ensaios de administração política. São Paulo/Maceió: Editora HUCITEC/Editora Graciliano Ramos, 2017.

 

Por Cícero Péricles de Oliveira Carvalho*

"A responsabilidade de escrever um prefácio geralmente é concedida a alguém da confiança do autor ou dos autores, ou então, quando o prefaciador tem o respeito de quem produziu o livro pela sua competência e conhecimento do assunto. Prefiro ser enquadrado na primeira possibilidade.

Durante boa parte de minha vida acadêmica e intelectual estive debruçado sobre os estudos a respeito da formação histórica e econômica de Alagoas, sua dinâmica e características estruturais, bem como os desafios e obstáculos que atravancam nosso desenvolvimento social e nos mantêm no subdesenvolvimento econômico, nos termos ensinados pelo mestre Celso Furtado.

Entretanto, Alagoas é parte de um todo. Legou para a Nação muitos e importantes protagonistas na política que, de uma forma direta ou indireta, influenciaram decisivamente os rumos do País. O mesmo não podemos afirmar quando comparamos o tamanho econômico de Alagoas e sua determinação nacional. Ao contrário, neste aspecto e no social o estado refletiu o que aconteceu nos grandes movimentos da economia nacional, notadamente depois do século XX.

Nesse instante da vida brasileira essa característica se faz sentir muito mais presente e preocupante. Um aspecto chama mais atenção no momento: a reversão do quadro de diminuição da miséria e da pobreza que vínhamos experimentando entre 2005 e 2013. Sem mudanças estruturais que realmente permitissem a maioria do povo brasileiro uma condição de bem-estar em patamar superior, a realidade demonstrava pelo menos do ponto de vista do acesso ao mercado de consumo aliado a alguns programas sociais como Bolsa Família, Minha Casa Minha Vida etc., que um contingente de pessoas pobres tinha conseguido melhorar o padrão de vida.

Mas a crise do capitalismo brasileiro, dada pela saturação do modelo de crescimento puxado pela expansão do consumo doméstico e pela demanda por nossas importações, fez emergir uma crise também política de amplas dimensões. Essa crise política retroalimentou a crise econômica e entramos em um túnel escuro e de saída ainda imprevisível.

No momento em que este livro foi produzido e chega ao grande público, o Brasil enfrenta um estágio de aporia, quando não temos certeza de nada, os impasses dominam a nossa sociedade e a perplexidade do que acontece diante de nossos olhos é, ao que parece, interminável. Pior ainda nessa situação é a verdade que emerge com clareza cristalina, apontando que o País em vez de regredir talvez não tenha sequer progredido em temas tão cruciais para a formação de uma sociedade mais civilizada; uma sociedade que garanta as condições de acesso aos bens públicos de maneira universal e com qualidade, tenha um nível de educação compatível com os desafios contemporâneos, uma distribuição de renda e riqueza que estimule as engrenagens do capitalismo de uma maneira a contrabalançar a necessidade do sistema de maior intensidade na exploração etc.

Este livro escrito pelos professores Reginaldo Souza Santos e Fábio Guedes Gomes, um baiano e outro paraibano, um da UFBA e outro da UFAL, experientes pesquisadores da realidade socioeconômica brasileira, apresenta-se em sete capítulos, cada um produzido especialmente para tratar dessa tragédia em que o Brasil se encontra, depois do golpe institucional-jurídico. Ambos não se satisfazem com os problemas conjunturais. A perspectiva de análise é mais longa e remonta ao início do processo de inserção do país no movimento de acumulação de riquezas, por intermédio da economia política da financeirização. Daqui as demais variáveis de análise se definem: quando o Estado brasileiro assume o protagonismo de liderar o processo de acumulação de riquezas por meio da expansão da dívida pública para ancorar a abertura comercial e financeira dos anos 1990. Esse movimento assume autonomia no momento que essa dívida pública é controlada por agentes privados que influenciam, decisivamente, na definição do orçamento público e sua execução.

Outros elementos se sobressaem nesse conjunto de ensaios e, após um diagnóstico crítico desse processo histórico e das condições atuais do país, os autores retomam a discussão em torno da possibilidade da construção de um Projeto Nacional, levando em conta a necessidade de transformações estruturais no país e sintonizado com as características da dinâmica internacional sem, contudo, lançar mão da autonomia das escolhas para o futuro e nossa soberania nacional.

No mínimo, o que poderíamos dizer deste livro, ora prefaciado? É provocador, muito provocador, como deve ser o perfil de intelectuais da academia. Mas, vai muito além. O livro nos permite lançar os olhos em outra perspectiva sobre o país, concorde-se ou não com seus termos. Os autores nos brindam com uma contribuição merecedora da atenção dos leitores."

 

(*) Economista e Doutor em Sociologia Econômica pela Universiddade de Córdoba, Espanha. Professor de Economia da UFAL