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Cada vez que ocorre um ataque armado nos EUA a gritaria contra as armas ecoa pelo mundo. Ninguém, ou quase ninguém, toca em um ponto doloroso: as doenças mentais e a política antimanicomial. Nos últimos anos, com exceção dos ataques perpetrados por terroristas islâmicos, todos os outros envolviam jovens com claros problemas mentais e que se encontravam em tratamento, mas quase ninguém cita esse fato e o motivo é assustador: não se quer criar preconceito contra quem sobre d’algum transtorno. 


O ataque terrorista de 2015 perpetrado em Bernardino, Califórnia, por um casal muçulmano e que deixou 14 mortos é um exemplo desse medo do preconceito. Dias depois do massacre vários vizinhos foram entrevistados e muitos disseram que suspeitavam do casal, achavam a movimentação na casa e atitude deles estranha, mas não tiveram coragem de denunciar nada com o temor de serem tachados de islamofóbicos. 
O desarmamentista e ex-presidente Obama viu sua tentativa de ampliar o rigor na checagem de antecedentes exatamente por esse motivo quando em fevereiro de 2017 o seu Projeto de Lei foi derrubado após a poderosa American Psychiatric Association afirmar que isso traria preconceito contra os portadores de qualquer transtorno, levando a ideia que todos esses estão propenso à violência. Honestamente falando, eu também não acho razoável impedir alguém que tem, por exemplo, aracnofobia – pânico de aranhas - de possuir uma arma.


Não sou especialista em psiquiatria ou em qualquer coisa correlata, mas me parece bastante óbvio que isso deveria estar sendo discutido com amplitude e profundidade e não está. Dias depois do ataque perpetrado por Adam Lanza, Liza Long que é escritora, música e especialista em Antiguidade Clássica escreveu um depoimento arrasador intitulado “eu sou a mãe de Adam Lanza e que foi originalmente publicado no site The Blue Review. O cerne da questão levantado pela autora se resume nessa frase: “Na esteira de outra terrível tragédia nacional, é fácil falar de armas. Mas é hora de falar sobre doença mental.” Segue abaixo a íntegra do emocionante artigo:

EU SOU A MÃE DE ADAM LANZA

Três dias antes de Adam Lanza, 20 anos, matar sua mãe e, em seguida, abrir fogo em uma sala de aula de uma escola infantil em Connecticut, meu filho de 13 anos de idade, Michael (o nome foi alterado), perdeu o ônibus porque estava usando as calças de cor errada.

“Eu posso usar essas calças”, disse ele, num tom cada vez mais beligerante, as pupilas negras de seus olhos engolindo as íris azuis.

“Elas são azul marinho,” eu respondi. “Sua escola permite apenas calças pretas ou cáqui.”

“Eles me disseram que eu poderia usar estas”, ele insistiu. “Você é uma vadia estúpida. Posso usar o que eu quiser. Esta é a América. Tenho direitos!”

“Você não pode usar as calças que quiser”, eu disse num tom afável, razoável. “E você definitivamente não pode me chamar de vadia. Você está de castigo pelo resto do dia. Agora entre no carro e eu vou levá-lo para a escola.”

Eu vivo com um filho doente mental. Eu amo meu filho. Mas ele me aterroriza.

Algumas semanas atrás, Michael puxou uma faca e ameaçou me matar e depois se suicidar depois que eu lhe pedi para devolver os livros da biblioteca. Seus irmãos de 7 e 9 anos, que conheciam o plano de segurança, correram para o carro e trancaram as portas antes mesmo de eu pedir. Eu consegui pegar a faca de Michael, e então metodicamente recolhi todos os objetos pontiagudos da casa em um Tupperware que agora viaja comigo.

Esse conflito terminou com três policiais corpulentos e um paramédico, que puseram meu filho em uma maca e o levaram de ambulância para a sala de emergência. O hospital psiquiátrico não tinha camas naquele dia. Michael se acalmou na sala de emergência e eles nos mandaram de volta para casa com uma receita do remédio Zyprexa e uma visita marcada com o psiquiatra.

Nós ainda não sabemos o que há de errado com Michael. Ele está em um pântano de antipsicóticos e fármacos que alteram o humor, num romance russo de planos comportamentais. Nada parece funcionar.

No início da sétima série, Michael foi aceito num programa para estudantes altamente talentosos de matemática e ciências. Seu QI é fora do padrão. Quando ele está de bom humor, discorre com prazer sobre assuntos que vão da mitologia grega às diferenças entre a física einsteiniana e a newtoniana. Ele está de bom humor a maior parte do tempo. Mas quando não está, cuidado. E é impossível prever o que vai tirá-lo do sério.

Depois de várias semanas em seu novo colégio, Michael começou a apresentar comportamentos cada vez mais estranhos e ameaçadores. Na manhã do incidente das calças, Michael continuou a discutir comigo. Ele ocasionalmente pedia desculpas e parecia arrependido. No estacionamento da escola, disse: “Mãe, olha, eu sinto muito. Posso jogar videogame hoje?”

“De jeito nenhum”, eu disse a ele. “Você não pode agir da forma que agiu esta manhã e achar que pode obter de volta os seus privilégios rapidamente.”

Seu rosto ficou frio e seus olhos estavam cheios de fúria calculada. “Então eu vou me matar”, disse ele. “Eu vou pular deste carro agora e me matar.”

E foi isso. Após o incidente da faca, eu falei a ele que, se ele dissesse essas palavras novamente, eu o levaria diretamente para um hospital psiquiátrico. Eu não respondi nada e virei a direção do carro na direção oposta.

“Onde você está me levando?” disse ele, de repente preocupado. “Para onde vamos?”

“Você sabe para onde estamos indo”, eu respondi.

“Não, você não pode fazer isso comigo! Você está me mandando para o inferno! Você está me mandando direto para o inferno!”

Parei em frente ao hospital. “Chamem a polícia”, disse eu. “Depressa”.

Michael estava em surto, gritando e batendo. Eu o abracei apertado para que ele não pudesse escapar do carro. Ele me mordeu várias vezes e repetidamente acertou os cotovelos em minhas costelas. Eu ainda sou mais forte do que ele, mas não por muito mais tempo.

A polícia chegou rapidamente e levou meu filho ao hospital. Eu comecei a tremer, e as lágrimas encheram os meus olhos enquanto eu preenchia a papelada: “Houve alguma dificuldade com… com que idade a criança… não existiam problemas com… seu filho já experimentou… se seu filho tem…”

Pelo menos temos um convênio agora. Recentemente, eu aceitei um emprego numa faculdade local, encerrando a minha carreira de freelancer porque, quando você tem um garoto como este, você precisa de benefícios. Você vai fazer qualquer coisa pelos benefícios.

Primeiro, meu filho insistiu que eu estava mentindo, que eu fiz a coisa toda para que pudesse me livrar dele. No primeiro dia, quando liguei para ver como estavam as coisas, ele disse: “Eu odeio você. E eu vou me vingar assim que eu sair daqui”.

Em três dias, ele era meu menino, doce e calmo, cheio de desculpas e promessas de melhorar. Eu já ouvi essas promessas durante anos. Eu não acredito mais nelas.

No formulário de admissão, sob a pergunta: “Quais são as suas expectativas para o tratamento?” Eu escrevi: “Eu preciso de ajuda”.

E eu preciso. Esse problema é grande demais para eu lidar sozinha. Às vezes não há saída. E então você só consegue orar para ter confiança de que, um dia, tudo fará sentido.

Eu estou compartilhando esta história porque sou a mãe de Adam Lanza. Eu sou a mãe de Dylan Klebold e Eric Harris. Eu sou a mãe de Jason Holmes. Eu sou a mãe de Jared Loughner. Eu sou a mãe de Seung-Hui Cho. E esses meninos e suas mães precisam de ajuda. Na esteira de outra terrível tragédia nacional, é fácil falar de armas. Mas é hora de falar sobre doença mental.

De acordo com a revista Mother Jones, desde 1982, 61 assassinatos em massa envolvendo armas de fogo ocorreram no país. Destes, 43 dos assassinos eram homens brancos, e apenas uma era mulher. Mas este sinal inequívoco de doença mental deve nos levar a considerar quantas pessoas nos EUA vivem com medo, como eu.

Quando perguntei ao assistente social do meu filho sobre minhas opções, ele disse que a única coisa que eu podia fazer era conseguir com que Michael fosse acusado de algum crime. “Ninguém vai prestar atenção em você, a menos que alguém preste queixa”.

Eu não acredito que meu filho deva ir para a cadeia. Mas parece que os Estados Unidos estão usando a prisão como a solução. De acordo com a Human Rights Watch, entidade de direitos humanos, o número de doentes mentais nas prisões americanas quadruplicou de 2000 a 2006, e continua a aumentar.

Ninguém quer enviar um gênio de 13 anos, que adora Harry Potter, para a cadeia. Mas a nossa sociedade, com seu estigma sobre a doença mental e seu sistema de saúde falido, não nos fornece outras alternativas. E então, outra alma torturada abre fogo num fast food. Um shopping. Uma sala de aula do jardim de infância. E nós crispamos as mãos, dizendo: “Alguma coisa precisa ser feita”.

Concordo que algo deva ser feito. É hora de uma conversa de âmbito nacional sobre a saúde mental. Essa é a única forma de nossa nação realmente se curar.

Deus me ajude. Deus ajude Michael. Deus nos ajude.