Agência Senado/Arquivo E1deaed7 031a 4f74 a661 a54191cb5eb4 Senador Fernando Collor

Em discurso na tribuna do Senado Federal, o senador e ex-presidente da República, Fernando Collor de Mello (PTC), não apenas lançou sua candidatura como buscou reapresentar seu próprio “legado” na condução do país no início da década de 1990, antes de ter sido alvo do processo de impeachment e ter que deixar o comando da nação. 

Nesse legado - se olharmos friamente - há erros e acertos. Cada um que tenha a sua avaliação. A minha é de que os erros superam os acertos. 

Existem sim acertos na presidência de Fernando Collor de Mello, como a inserção do país no mercado internacional, como na questão da informática, que deu bases futuras para o desenvolvimento de tecnologia, inclusive na telefonia móvel. Mas há erros cruciais nos planos econômicos, como o poder coercitivo do Estado que foi usado para cima da poupança dos brasileiros, e os casos de corrupção que sempre trazem à memória figuras como Paulo César Farias. 

Collor não desinchou a máquina ou combateu o estamento na dimensão em que fala. Para citar apenas um exemplo: em 1990 o presidente Collor assumiu o governo com uma carga tributária de 23,71% do PIB, entregando o governo em 1992 com uma carga tributária de 24,96% do PIB. Aumento de 5,27% em relação ao ano de 1989. De lá pra cá, só aumento que se confunde com o gigantismo estatal. 

É certo que Collor confrontou interesses e pagou o preço por isso, mas negar que muito da culpa se deve ao próprio Fernando Collor de Mello é tapar o sol com a peneira. Collor faz um esboço auto-elogioso de si mesmo, o que é natural de um pré-candidato, mas também é obrigado a confrontar a História de seus erros e equívocos, inclusive, nos 40 anos de vida pública que cita, e não apenas na passagem da presidência. 

Afinal, nos últimos anos, Collor foi um homem do “estamento burocrático” dentro do Senado Federal, tornando-se crítico apenas no momento confortável. Tentou surfar da onda do petismo em 2010, quando se candidatou ao governo do Estado de Alagoas, e foi derrotado. Vendia-se como homem de confiança do ex-presidente condenado Luis Inácio Lula da Silva, o Lula (PT), e de Dilma Rousseff (PT). 

Era só elogios a dupla do partido que tem bases em uma ideologia secular: o marxismo, o gramscismo, o materialismo etc.

No segundo turno, ficou ao lado do candidato ao governo e atual deputado federal Ronaldo Lessa (PDT), abrigando em torno de si a esquerda alagoana e se alinhando à nacional. Foi assim também em 2014 quando se reelegeu ao Senado Federal ao lado do PT e do senador Renan Calheiros (PMDB). 

Collor se dizer agora longe de extremismos e dos projetos de agigantamento do Estado para adotar um discurso liberal é contradizer seu passado mais recente, apesar de no passado mais distante ter realmente defendido tais ideias. Pode até ser que, do ponto de vista pessoal, Collor não concorde com nada disso e tenha outra visão. Mas se suas convicções fossem maior que sua “fome” enquanto “animal político”, teria sido oposição a tudo que vimos nos últimos anos. Não foi! 

O senador e ex-presidente Fernando Collor de Mello, no uso da tribuna do Senado Federal, lançou mais uma vez sua pré-candidatura à presidência da República. Ao resgatar aspectos de sua presidência do passado, ele tenta apontar para o futuro se mostrando como um “liberal”, inclusive se apoiando em análises feitas do economista e pensador Roberto Campos, reconhecido entre liberais e conservadores, do plano de governo apresentado pelo ex-presidente no início da década de 1990. 

Collor buscou defender o que considera o seu “legado” e colocou sua passagem na presidência da República como as bases para a implantação do Plano Real, que trouxe a estabilidade econômica para o país. 

Collor estava tão amalgamado com o passado de tragédias econômicas e inchaços estatais do país que se encontra como investigado na Lava Jato em função do seu nível de influência ao indicar cargos. Se será considerado culpado ou inocente, aí é com a Justiça. 

O senador do pequeno PTC se lança à presidência como se preenchesse um “vácuo político”, utilizando-se de sua própria expressão. Isto é altamente questionável. Em seu discurso, acerta no diagnóstico, ao falar da preocupação com os projetos demasiadamente ideológicos que constroem pós-verdades ao desrespeitar os fatos, mas não seria ele o remédio. Pois o que Collor diz enxergar hoje, já estava posto em muitos momentos nos quais ele tinha acesso à tribuna do Senado para expor o mesmo panorama e se afastar dos radicais. Não fez. 

Acreditou no projeto político e econômico, de matriz heterodoxa, que trouxe o Brasil para a situação de agora? Se não acreditou do ponto de vista pessoal, se comprometeu ao ser aliado dele. 

Não se pode dissociar Collor do lugar onde ele estava, ainda que tenha votado favorável ao impeachment da presidente Dilma Rousseff. Quando Collor fala de extremismos de direita e esquerda e usa o plural, também busca ser uma alternativa à candidatura do deputado federal Jair Bolsonaro (PSL). 

Por isso aposta no cansaço das discussões para se vender como alguém que não é nem direita, nem esquerda, mas pautado por uma visão econômica liberal clássica. Todavia, é preciso cobrar mais de Collor, caso ele queira mesmo disputar a presidência. E cobrar mais é cobrar posição sobre pautas urgentes do país, incluindo o campo da moralidade e da segurança pública. 

Não se pode achar que a economia é uma infraestrutura a gerar a superestrutura da sociedade. 

Qual a posição de Collor, por exemplo, em relação ao Estatuto do Desarmamento, em relação à proposta de federalizar a segurança? Qual a posição de Collor em relação ao globalismo? Qual a posição de Collor quanto ao aborto? Ideologia de gênero? E por aí vai. A sociedade brasileira - que Collor cita em seu discurso - como apta a alargar os horizontes de questionamentos demonstra cansaço em função de uma crise de representatividade, em função do estamento burocrático criar um modelo de pseudo-democracia onde o poder emana do povo, mas contra ele é exercido. 

Collor tenta demonizar uma direita e colocá-la no mesmo bolo dos radicalismos, mas uma grande parcela dessa direita cobra justamente a redução do poder coercitivo do Estado, liberdade de mercado, respeito à propriedade privada, às tradições, culturas e religiões diante das ideologias seculares que se apoderam da máquina pública. Isto também é uma questão urgente. O discurso de Collor, apesar de preenchido com citação de filósofo, pensadores e historiadores, é vazio nesse sentido, apoiando-se apenas no passado enquanto fala de futuro. 

Uma passagem do discurso de Collor me chamou a atenção. O ex-presidente diz que “não precisamos de novas condenações para saudar um novo tempo”. Também acho que eleitores não devem terceirizar responsabilidades e esperar apenas da Justiça que retire de campo os maus políticos. É preciso extingui-los pelo voto. Mas precisamos sim que os que fizeram seus atos de corrupção sejam punidos, independente de partido. Independente de azul e vermelho. O que Collor pensa disso? Qual o sentido real de sua frase?

Que o “Brasil continua sendo uma obra gigantesca” é verdade. Mas isso está até mesmo para além da política, pois depende do resgate da cultura para sairmos da miséria moral e intelectual que demoniza posturas dentro de concepções binárias. Fernando Collor de Mello ao lançar sua pré-candidatura no Senado Federal (o que para mim é incabível e não é o espaço para isso) acertou ao dizer que seu nome será posto ao “julgamento isento” das urnas. 

Talvez por isso a primeira pesquisa ainda aponte um alto índice de rejeição. Não ache Collor que tal índice é apenas em função do passado longínquo, mas também do presente. Não ache Collor que é fruto de injustiças sofridas, pois muito de suas ações são fatos que serão cobrados por eleitores de forma justa. Afinal que “alternativa isenta” é essa que até pouco tempo atrás andava de afagos e carícias com figuras nefastas que viraram símbolo de corrupção no país?

Não são as palavras que definirão o que é a candidatura de Fernando Collor de Mello, mas um conjunto de uma obra de ações, com acertos e erros. Na balança, a sociedade definirá o que pesa mais ao encarar as urnas. 

Se é legítima a candidatura de Collor? Claro que é! Nada o impede de concorrer. Todavia, como o próprio senador diz, ele tem 40 anos de vida pública. Logo, uma biografia. Biografia esta que o colocou ao lado de Luis Inácio Lula da Silva, de Dilma Rousseff, de Renan Calheiros, do PCdoB alagoano, dentre outros. Qual o peso disso? Collor também sentirá. 

Collor diz “Ao Estado o que é do Estado. Ao mercado o que é do mercado”. É, acertou na frase. Mas, como disse acima, são mais muito mais que palavras...

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