Foto: Reprodução/Internet Ecd1e17a e8b3 4b99 9ce4 ec3e6e6a6c85 Maceió conta com 55,4% de sua população com excesso de peso

Pesando 140kg, a servidora pública Elayne Souza, de 42 anos, enfrenta diariamente o preconceito e ouve comentários ofensivos das pessoas que, muitas vezes, justificam o que dizem afirmando que não passa "apenas de uma brincadeira". "Quem é mais gordinho passa por várias dificuldades, desde as dificuldades práticas, sociais, até as existenciais provocadas pelo preconceito", disse Elayne.

Elayne contou à reportagem do Cada Minuto que ser uma mulher gorda é difícil e que em muitos casos, ela se tornou ponto de referência. "Por exemplo, as pessoas dizem 'vai naquele lugar perto da gorda'. Ouço piadas quando entro no ônibus e passo na catraca, ouço as risadas das pessoas quando elas me veem 'engasgadas' até girar a catraca", desabafou.

A servidora pública ressaltou que não lida apenas com os comentários maldosos, mas com a falta de estrutura dos locais para receber as pessoas que estão acima do peso. "Preciso fazer uma desintometria óssea e não tenho plano de saúde, a máquina que tem no SUS não aguenta meu peso. Quando vou aos locais não há cadeira adequada para mim e ouço comentários de que as cadeiras vão quebrar. Tenho dificuldades até para comprar roupa", disse Elayne.

Ela também disse à reportagem que a ansiedade é um dos principais fatores que influenciam para que ela ganhe mais peso e reconhece que precisa de ajuda psicológica. "Estou com vários problemas por causa da obesidade, tentei nutricionistas, médicos, mas não consigo. Quando fico triste, como. Se me preocupo, como, se estou feliz, como e sei que preciso de uma ajuda psicológica, pois a minha compulsão é por comida", destacou a servidora.

O que é gordofobia?

O que muita gente não sabe é que frases ofensivas como "você tem um rosto tão bonito, por que não emagrece?", "você deveria fazer exercícios físicos, né?", são ouvidas por várias mulheres e homens de todo o Brasil. Elas são reflexo da gordofobia, preconceito ou intolerância contra pessoas gordas.

A gordofobia passa "batida" e o sufixo fobia se refere à aversão a pessoas gordas. Não há uma lei que se refira exatamente à injúria contra pessoas gordas, mas pode ser enquadrado como crime contra a honra, caso a vítimase sinta ofendida.

Conforme a pesquisa de Vigilância de Fatores de Risco e Proteção para Doenças Crônicas por Inquérito Telefônico (Vigitel) realizada pelo Ministério da Saúde anualmente em todas as capitais do país, Maceió conta com 55,4% de sua população com excesso de peso. Sendo esse excesso de peso mais prevalente em homens.

A obesidade em todo o país cresceu 60% em 10 anos, passando de 11,8% em 2006 para 18,9% em 2016. De acordo com a pesquisa, o público dos 45 aos 64 anos são os mais atingidos por obesidade e excesso de peso.

Rede Social como troca de experiências

A maceioense Camila Justino, 26 anos, disse que a sua rede social se tornou um canal para que ela, que atualmente pesa 170kg, converse com outras mulheres. "Recebo muitos directs no instagram tanto na minha faixa etária de idade como também pessoas mais velhas que conversam sobre os desafios. Acho legal quando recebo uma mensagem de uma mulher que afirmou usar maiô após ter visto uma foto minha de maiô", contou.

Justino enfatizou que passou por várias situações difíceis, mas disse que "acontecem situações que levam a pessoa para o fim ou para um novo começo". Camila optou para um novo começo e percebeu que as qualidades dela eram maiores do que os comentários ofensivos.

"Fiz um exercício e durante 30 dias, todos os dias, eu tinha que escrever no papel uma qualidade minha - seja ela física ou emocional - eu só me achava bonita do pescoço pra cima", contou Justino.

Justino também falou que o termo gordofobia também se aplica aos homens, mas as mulheres são as mais cobradas. "Quando você é gorda e não tá dentro do padrão do que é ser gostosa, as mulheres ficam em dúvidas, o marido já não tem o mesmo interesse sexual e as casadas se culpam muito. Mas, eu sempre digo que o problema não é com elas e sim com o marido", destacou.

Camila decidiu ignorar os comentários preconceituosos. Segundo ela, não é porque uma pessoa é gorda que deve ser colocada como vítima. "Nós, gordos, também podemos ser preconceituosos. Muitas vezes, preconceito é falta de informação. O que importa é a nossa opinião sobre nós mesmos e não dos outros".

"Tudo que já sofri e chorei foi um portfólio para ajudar outras pessoas e para aumentar a autoestima das delas.Independente da nossa aparência que é uma carcaça, o que importa são as nossas qualidades. Se todo mundo - independente de ser gordo ou magro - pensasse assim, tudo seria melhor", finalizou Camila.

Padrão de beleza? Pra quem?

Para a sociedade, os homens e as mulheres que estão acima do peso, são vistos como fora de um "padrão estabelecido". Em alguns casos, quem é gordo é visto como doente ou até mesmo 'acomodado', mas para a estudante de administração, Tatyane Sarmento, 25 anos, a obesidade é uma questão de saúde pública e se ela se tornar um problema para quem engordou, aí é preciso buscar ajuda.

Por outro lado, Tatyane defende que se for questão de estética, ela não enxerga problemas. "Peso 93kg e sigo o meu padrão de ser feliz. Gosto de sair para me divertir e usar as roupas que a sociedade diz que gordinha não pode usar. As pessoas precisam parar de usar os filtros que as outras pessoas usam pra si", comentou.

Para ela, não é fácil saber que não segue esse "padrão", mas enfatiza que o fundamental é "olhar-se no espelho e saber que o amor mais importante é o próprio".

Como se amar independente dos padrões?

A administradora Ingrid Alencar, de 23 anos, disse que o processo de aceitação não foi fácil e que testou durante muito tempo dietas que não funcionaram. Ingrid contou que acreditava que só seria feliz e amada se fosse magra, mas esse pensamento mudou a partir de 2016.

"Comecei a seguir blogueiras gordas que se amam e são muito felizes e percebi que eu também poderia ser como elas. Dai comecei a me olhar mais no espelho e vi que sou bonita. Ou melhor, além de beleza, sou uma pessoa do bem e é isso que importa", destacou Ingrid.

Sobre o preconceito com relação ao peso, Ingrid comentou que o preconceito sempre partiu dela própria que acreditava que ninguém gostaria dela por ela ser gorda. "A minha maior dificuldade era com minha família que apesar eu nunca ter problemas de saúde sempre insistiu em me levar para médicos e fazer dietas. Depois da minha aceitação eu percebi que as pessoas podem sim gostar de mim".