Em homenagem a Sergio Moro, o herói de tantos brasileiros, volto a escrever sobre auxílio-moradia. Sim, porque ele também, o morcego negro da moralidade alheia, numa prova de que a safadeza é generalizada, abocanha todo mês mais de 4 mil reais para ajudá-lo em suas despesas com habitação. Agora, vejam o detalhe: Moro, o cavaleiro das trevas justiceiras de Curitiba, tem imóvel próprio; portanto, não deveria meter a mão no benefício, que na verdade é uma mamata.

 

Atenção para a explicação do juiz que prega a decência e aponta os pecados de todos os políticos do mundo: o auxílio-moradia é uma “compensação pela falta de reajuste no salário dos juízes federais”. Foi o que ele disse ao responder a uma reportagem da Folha de S. Paulo. Se Moro julgasse suas palavras com o mesmo rigor que julga a conduta de terceiros, daria voz de prisão a ele próprio. A reação do magistrado é cínica, mentirosa e imoral. Nada que deva nos surpreender.

 

Como você sabe, o salário de Moro e coleguinhas da Justiça Federal passa dos 30 mil reais por mês. A categoria está no topo remuneratório do serviço público. O teto é pouco mais de 33 mil reais. Com diversos penduricalhos, além do esquema da moradia, quase todos os juízes ultrapassam o limite legal do contracheque. Nesse ambiente degradado, Moro nada tem de especial, nada tem de heroico; ele é apenas mais um, rigorosamente igual a todos que formam seu bando.

 

No ano passado, o juizinho do Paraná se achou ainda mais importante depois que sua saga virou filme. “A lei é para todos”, informa o título da peça que exalta a república de togas e os menudos do Ministério Público Federal. Como haverá uma sequência do filme, os roteiristas certamente vão acrescentar a novidade sobre Moro. Aí ele poderá aparecer justificando por que, em seu caso, a lei do teto salarial pode ser desprezada. Entre ficções e trambiques, brilha nosso herói.