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O Brasil é reconhecido por apresentar uma das melhores coberturas vacinais  do mundo, no entanto, um relatório do Ministério da Saúde divulgado no ano passado acendeu a luz de alerta ao apontar a queda na procura de vacinas gratuitas no País, inclusive a gotinha que previne contra a poliomielite, cuja cobertura caiu de 100% em 2013 para 84% em 2016, e a Tríplice Viral, que caiu de 100% para 95% no mesmo período.

A queda tem sido creditada, entre outros fatores, a um movimento conhecido como antivacinismo ou ‘anti-vaxx’, que já ganhou força na Europa e nos Estados Unidos e vem desembarcando, por enquanto ainda de forma discreta, no Brasil. O assunto preocupa autoridades da saúde principalmente devido ao risco da volta de doenças graves que estavam erradicadas há décadas.

Conforme informações da Secretaria da Saúde de Alagoas (Sesau), a queda das coberturas vacinais é uma tendência nacional, observada inclusive no estado, onde a cobertura da Tríplice Viral, por exemplo, caiu de 92,50% em 2015 para 91,22% no ano passado. Já a cobertura da vacina Poliomielite Inativada (VIP) registrou uma queda mais acentuada, passando de 89% em 2015 para 71,08% em 2017.

A Sesau explicou que as baixas coberturas não estão relacionadas apenas a vacinas isoladas e sim a grande maioria do calendário básico de vacinação.  Para a secretaria, a redução na procura se deve a pouca conscientização da população, aliada à redução ou ausência de casos de doenças imunopreveníveis.

É justamente a soma entre a falta de conscientização, a falsa sensação de que doenças graves deixaram de existir e o perigo de um novo modismo que preocupa os especialistas. Tal soma pode resultar, em alguns anos, em milhares de vítimas de enfermidades que podiam ser evitadas.

“Ignorância”

Para a médica Clarissa Tavares, pediatra, alergista e imunologista, a cultura brasileira da não prevenção, a falta de esclarecimento e de uma política mais forte de governo são os principais responsáveis pela queda na cobertura de vacinação básica.

“A política de vacinação é boa, mas precisa ser mais incisiva. As campanhas são importantes e precisam continuar, mas são insuficientes sozinhas, o ideal é que a vacina vá até a população. Se o Programa Saúde da Família (PSF) funcionasse, por exemplo, não haveria diminuição de cobertura, porque as vacinas seriam levadas às pessoas que não foram alcançadas pelas campanhas”, analisou a médica.  

Em relação ao movimento antivacinismo, Clarissa Tavares foi incisiva ao classificá-lo de “super ignorância”, mas destacou que, ao menos em Alagoas, o “modismo” ainda é irrelevante e não apresenta reflexos no quadro da cobertura vacinal.

“Essa moda é mais da população dita esclarecida, embora na verdade se trate de uma super ignorância. Hoje o mais importante na medicina é a prevenção. A prevenção é a maior evolução da medicina e tem um grupo que se apega em uma minoria que teve algum efeito colateral com uma determinada vacina para propagar esse desserviço”, criticou, acrescentando que o tema já chegou ao seu consultório, ainda de forma pontual.

“Alguns pacientes já me questionaram sobre o assunto da não vacinação e eu explico os riscos e o quanto essa ideia é ignorante... Mas, infelizmente, talvez os adeptos da nova moda só entendam o perigo disso quando perderem um filho para uma doença totalmente prevenível”, alertou.

Confiança

Mãe de duas crianças, um menino de sete anos e uma menina de um, a servidora pública Renata Gerbase segue à risca o calendário de vacinação na rede pública e procura as clínicas privadas para imunizar os filhos com as vacinas que ainda não estão disponíveis pelo Sistema Único de Saúde (SUS). “Existem estudos e precisamos confiar nos profissionais”, destacou, ao ser questionada sobre o antivacinismo.

“Creio que com a facilidade de informação advinda da internet não há um filtro no que se publica e uma pessoa leiga acredita em algumas publicações. Eu me preocupo com esse modismo porque as crianças vivem hoje em dia em ambientes coletivos e fechados, o que favorece o contágio”, concluiu.

Exceção

Uma professora que preferiu não ter a identidade divulgada, contou à reportagem que nunca teve problemas em relação ao calendário básico de vacinação, mas decidiu não imunizar as filhas, de sete e dez anos de idade, especificamente contra o HPV.

“Ao tomar conhecimento de alguns casos veiculados pela mídia de reação e efeitos colaterais da vacina contra o HPV, já fiquei preocupada e pensativa se a daria ou não às minhas filhas e a preocupação aumentou quando soube de um caso real e próximo de uma criança que ficou paralisada após tomar a dose”, relatou.

A professora contou que a menina passou por médicos em várias cidades do país e que os danos à sua saúde foram imensuráveis, como o uso de cadeira de rodas, entre outras situações “de total desespero para a criança e para os pais”.

“Falei com a pediatra das minhas filhas e ela alertou sobre a finalidade da vacina, mas também sobre o que se dizia a respeito desses casos que estavam sendo relatados. Optei por não dar, uma vez que a vacina está relacionada à proteção da criança quanto à vida sexual, mas não garante a segurança de que meu bem maior ficará bem”, pontuou, deixando claro que a restrição ocorreu especificamente em relação a esta vacina.

Crime

Em entrevista a revista feminina “Claudia”, a advogada Carolina Duran, de São Paulo, alertou que não vacinar os filhos é ilegal e que o Estatuto da Criança e do Adolescente (ECA) dispõe sobre a obrigatoriedade de fornecer as vacinas recomendadas pelas autoridades competentes, sendo a recusa dos responsáveis interpretada como negligência.

Segundo ela, se a criança adoecer e tiver sequelas, os responsáveis podem responder por lesão corporal e, em caso de morte, até por homicídio doloso.

A advogada orienta que, ao constatarem que a criança está tendo seu direito de ser vacinada cerceado, médicos e educadores denunciem os pais ao conselho tutelar para que o Estado garanta aos pequenos o bem-estar negado por quem devia protegê-los.