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O ano de 2017 passou e não terei saudades, já foi tarde. No balanço que fiz, o saldo é negativo, as perdas foram maiores e os ganhos, mesmo tendo sido bons, não cobriram as perdas. Em geral não sou pessimista nem cultuo o negativo como filosofia de vida.

Em poucos meses perdi duas pessoas, a minha irmã, Rosa, consumida por um câncer bravo, e um amigo querido, Nô Pedrosa, assassinado no dia 23 de dezembro. Essas duas perdas desequilibraram o balanço de 2017. 

        Hoje, dia 2 de janeiro, completo 57 anos de vida. Confesso que as minhas reclamações são poucas e quase que triviais.

        Quando a barra pesa eu me socorro dos amigos(as) e do samba; e no samba é Paulinho da Viola quem me levanta, ou melhor, é quem não me deixa cair, ir à lona, como boxeador nocauteado. É por isso que “eu canto samba, porque só assim eu me sinto contente”.  

        Andar pela cidade, por avenidas, ruas e becos é outro modo de que lanço mão há muito tempo para me reencontrar e seguir em frente. A boemia não é mais a minha companheira; a bebida não é capaz de despertar alegria em mim.

        Maceió é de uma beleza estonteante. O mar no verão reflete várias tonalidades de azuis que contrastam quando olhamos em volta, pois enxergamos a pobreza da gente anfíbia excluída que ganha a vida nos manguezais, nos trabalhos miúdos, nos ofícios e ou fazendo bicos ‒ trabalhos intermitentes, a palavra da moda.

        A paisagem de opulência e miséria corta a carne e perfura a alma, mesmo dos que são desalmados. Viver e sobreviver em Maceió são uma obra de arte ou vida de malabares.

        Diante de realidade tão cruel e perversa, o que salva, ou me salva, é a arte. Procuro ir onde estão os bambas: “eu vou ao samba, porque longe dele eu não posso viver, com ele eu tenho de fato uma velha intimidade”.

        É possível imaginar a vida em Maceió, muitas vezes, como se fosse uma prisão sem grades ou o exílio sob o sol escaldante do verão, diante das águas mornas do mar, da lagoa Mundaú e dos rios.

        E qual a explicação para brotarem tantos músicos, artistas, poetas e escritores numa terra calcinada? Arrisco dizer que é a força da natureza que não foi domada, nem será.

        Há uma geração de violonistas e cantores(as) que estão se apresentando nos bares, restaurantes e teatros. É um dado a ser observado de como a qualidade sai da quantidade com uma simplicidade inimaginável, pelo menos para mim. Os grupos de samba da periferia passaram a ter visibilidade e fizeram a ligação com os outros grupos da cidade.

A arte, diferentemente da política, multiplica-se para fazer o bem e alegrar os corações de uma cidade partida e repartida, como diz o samba: “o samba é alegria, falando coisas da gente, se você anda tristonho, no samba fica contente”.

 

Alagoas não é um estado para amador. Por isso em 2018, depois das festas, devemos retomar a realidade e procurar alternar a vida com sambas e focar nas lutas que nos esperam para superarmos as noites de trevas que têm durado mais que o imaginado e têm causado tristeza e desilusão nos que são do batente e que perderam seus postos de trabalho e agora estão na iminência de perder o direito de se aposentar.

É por isso que eu luto e canto samba.

 

Eu canto Samba

 

Paulinho da Viola

Eu canto samba
Por que só assim eu me sinto contente
Eu vou ao samba
Porque longe dele eu não posso viver
Com ele eu tenho de fato uma velha intimidade
Se fico sozinho ele vem me socorrer
Há muito tempo eu escuto esse papo furado
Dizendo que o samba acabou
Só se foi quando o dia clareou

 

O samba é alegria
Falando coisas da gente
Se você anda tristonho
No samba fica contente
Segure o choro criança
Vou te fazer um carinho
Levando um samba de leve
Nas cordas do meu cavaquinho.

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