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O poeta alagoano Lêdo Ivo faleceu, no dia 23 de dezembro de 2012, é com saudade e carinho que republico: Livro, Carapeba e Cachaça, último texto escrito pelo poeta, prefácio do meu Panorama Cultural de Maceió.

Lêdo Ivo

Os sebos e alfarrábios de minha infância e adolescência sobem agora à minha lembrança, diante deste livro de evocações do historiador e investigador cultural alagoano Geraldo de Majella.

Os que ele registra neste Panorama Cultural de Maceió, não são os mesmos do meu tempo. Situam-se em locais diferentes. Guardam uma multidão de volumes que surgiram após a minha partida, refletem a realidade de uma época vertiginosa marcada pela emergência de tecnologias atrevidas e até agressivas. Mas, apesar de todas as mudanças ocorridas no ar do mundo e do tempo, hão de conservar a mesma atmosfera plácida da cidade antiga e cuja placidez só era interrompida pelo fragor dos tiros sazonais que ceifavam vidas e saciavam rancores, disputas e vinganças.

Lembro-me de alguns deles. Na Rua do Livramento, junto à igreja, era o sebo do Barbosa, que ocupava a sala de visitas de sua casa familiar. Na Rua do Comércio, entre o Beco São José e a Praça dos Martírios, situava-se outro sebo, no qual terei adquirido os meus primeiros livros em francês. Um deles era Notre Coeur desse Maupassant que ainda hoje suscita a minha admiração, e do qual possuo, compradas num alfarrábio insigne de Paris, as obras completas ilustrada e editadas pela Librarie Paul Ollendorf. E havia ainda outro sebo, na esquina da Rua Boa Vista com o Beco São José.

Onde terei encontrado Song-Kay o Pirata, de Emilio Salgari, uma das estrelas bem-amadas da constelação e Coleção Terramarear? Ainda hoje ele está na minha biblioteca, guardado como uma relíquia ou sobra de naufrágio. E, graças a ele e a tantas outras histórias de tesouros e piratas, e ilhas e ventos dos mares do Sul, pude sulcar a vida inteira, confiante na verdade de minha imaginação, o caminho que me indicaram na infância.

Os sebos e alfarrábios ora registrados pelo historiador Geraldo de Majella  — um historiador tão atento à vida cotidiana e provinciana e ao episódio aparentemente irrelevante — são outros, mas conservam o mesmo rito comercial  de antigamente e sustentam iguais intenções. São lugares em que nem sempre se encontra o que se procura ou deseja; mas se encontra sempre o que não se esperava e surpreende. E, entre os vendedores de livros velhos aqui consignados, avulta a figura do ex-carroceiro Biu, que estacionava o seu “burro sem rabo” na Praça Dom Pedro II.

Contém esta obra de Geraldo de Majella muitas informações e reflexões sobre as bibliotecas de Maceió e as livrarias alagoanas. Será que elas existem atualmente ou são ficções graciosas? Ou não será no Recife que se abastecem os alagoanos contagiados pelo que o poeta Logan Pearsall Smith chamou de “a leitura, esse vício impune”?

Recordo-me de que, no meu tempo de colegial desejoso de ser escritor, havia na Rua do Comércio a Casa Ramalho, que chegou até a ser uma editora, publicando autores alagoanos. Durante semanas, ela exibiu na vitrina um exemplar de Angústia de Graciliano Ramos. Ninguém o comprava, embora seu autor (então enclausurado na Ilha Grande, como comunista) retratasse naquele romance uma Maceió noturna, soturna e dostoiewskiana.

Todos os dias eu me detinha diante da vitrina da livraria e namorava o volume solitário. Finalmente juntei sobras das mesadas semanais e o comprei. A sua leitura foi um dos grandes acontecimentos de minha vida de leitor em flor.

Também são diferentes os dispersos bares e restaurantes captados pela pena astuciosa de Geraldo de Majella. No meu tempo, imperavam a Helvética, defronte à Igreja do Livramento, o Ponto Certo na Praça Deodoro, o bar da Casa Colombo, e o Bar Elegante na Rua do Comércio. Destes, o que ainda é mencionado, como local de reuniões literárias, é o Bar do Cupertino. Nele, no início da década de 30, costumavam reunir-se Graciliano Ramos, Jorge de Lima, José Lins do Rego e Rachel de Queiroz, Maceió era então a capital literária do Nordeste e ignorava sua suprema condição.

No livro de Geraldo de Majella são outros os bares, botecos e restaurantes, outros os boêmios gulosos e mulherengos e os literatos ambiciosos e sedentos de notoriedade e glórias. Mas haverão de ser os mesmos os naufrágios e as impiedades do tempo. E também não terão mudado as comezainas e bebezainas; são as mesmas, os peixes, crustáceos e mariscos da Alagoa Australis, “rica em pescado”, como está no nosso brasão ilustre. A novidade é a macarronada.

E sabe a essas iguarias incomparáveis este valioso livro de Geraldo de Majella. Tem um gosto de carapeba, de camorim e de sururu; de caranguejo; de tira-gosto de caju regado a cachaça; de feijão de corda e manteiga de garrafa. É um livro visceralmente alagoano. Lateja nele o mistério de nosso berço, de nossas águas e terras, de nosso passado e presente, das chuvas e das tanajuras, de nosso povo e de nossos sonhos e pesadelos. E o longo mistério de nossa alagoanidade. E nele sopra o vento do mar.