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Por Leonardo Bastos

Cresci vendo minha mãe como aquela capaz de resolver qualquer problema que eu ou qualquer outra pessoa da família poderia enfrentar. Fui percebendo com o tempo que ter ela como base de apoio não é exclusividade minha, mas também de muitos que a cercam. Sempre busquei compartilhar da mesma força dela e de tantas mulheres que conciliam maternidade, afazeres domésticos e múltiplas funções, e sempre me perguntei: como ela consegue se sacrificar desta forma? Dito isto, nada me remeteu mais à figura da minha mãe do que ouvir “Estou cansada de fingir que dou conta de tudo”, que diz a personagem de Maria Ribeiro em determinado momento de Como Nossos Pais, novo trabalho de Laís Bodanzky. A cineasta desenvolveu um estudo de personagem justamente centrado no papel da mulher multitarefas na sociedade contemporânea.

Rosa (Ribeiro) beira aos 40 anos e mantém um casamento desgastado com um marido (Paulo Vilhena) que sobrecarrega a esposa com a criação das duas filhas e a manutenção financeira do lar. Ela ainda possui uma relação tumultuada com a mãe (Clarisse Abujamra) e lida com um pai (Jorge Mautner) que tem a mesma maturidade de um adolescente. Ao descobrir da forma mais inusitada possível a verdadeira natureza de sua paternidade, Rosa começa uma série de questionamentos sobre seus relacionamentos enquanto mãe, filha e esposa, e a forma que está conduzindo a sua vida.

Lembrando recursos narrativos de obras como A Outra (1987, de Woody Allen), onde certo acontecimento desencadeia no personagem título auto-reflexões, a revelação da paternidade desconhecida de Rosa serve como estopim para incitar a descoberta de várias mudanças necessárias na vida da personagem. E o mais bacana do arco da protagonista de Como Nossos Pais é que ao longo do filme, ela vai se dando conta de que a identidade de seu pai biológico é a dúvida sobre si mesmo menos relevante que vai elucidar. É como se Laís quisesse expressar o quanto o conceito de verdade é instável e frágil através de uma mulher que acreditou durante sua vida inteira que o casamento e sua condição feminina lhe restringem o direito de liberdade. E mais que isso, o filme também é sobre nossa dificuldade de entender o outro mesmo quando convivemos anos e anos com ele.

Com uma performance irretocável – e, diga-se de passagem, uma das maiores do ano -, Maria Ribeiro compõe Rosa como alguém que nos faz compreendermos suas constantes explosões como um pedido de ajuda de uma mulher que se vê cada vez mais incapaz de atender os papéis de filha, mãe, esposa e chefe de família. E mesmo assim Rosa ainda encontra tempo para expor carinho nestas relações, reparem, por exemplo, em como é tocante a generosidade dela com o pai. Já Paulinho Vilhena poderia facilmente transformar Dado numa figura que gerasse nossa antipatia, mas evita isso ao encarná-lo como um sujeito que demonstra afeto pelas filhas e a esposa, embora na maioria das vezes mal perceba o quanto é egoísta com esta. Destacando-se entre os coadjuvantes, Clarisse Abujamra transmite em sua personagem uma mulher que encontrou no embate a forma mais próxima de manifestar seu sentimento materno, e é admirável como todas as agressões da personagem à Rosa representem o esforço de interação de uma mãe que há muito tempo perdeu qualquer sinal de comunicação com a filha.

Concebendo um plano que coloca em foco apenas uma panela de pressão dando sinais para ser desligada, Laís abre o filme já anunciando as relações esgotadas que vamos acompanhar. Aliás, temos aqui o trabalho visual mais maduro da carreira da diretora, já que utilização de simbolismos e composições de quadros para expor ideias é recorrente no filme. Uma bicicleta se torna um objeto importante para ilustrar como a protagonista sente o mundo a sua volta e como esta vai amadurecer ao longo da projeção. Um sapato traduz a abertura de um contato há muito tempo negado. E em um único plano, Laís nos mostra a desigualdade na divisão de tarefas entre o casal ao contrastar dois quadros: Dado dormindo à esquerda enquanto à direita Rosa acorda as filhas para prepará-las para a escola. Sem tirar os méritos ainda da montagem de Rodrigo Menecucci, que realiza cortes brilhantes que conseguem fazer comentários sobre as discussões postas em tela apenas com a técnica, como aquele que corta de um beijo para uma certa cena de sexo que brinca com a expectativa do público. Este corte que me refiro desperta uma ótima análise sobre monogamia.

Fragilizado apenas por uma cena artificial envolvendo a participação de Herson Capri, Como Nossos Pais, assim como Bicho de Sete Cabeças, Chega de Saudades e As Melhores Coisas do Mundo, é um filme humano e repleto de diálogos ricos, interpretações intensas, temas pertinentes ao nosso contexto atual e é mais uma prova de como Laís é uma artista que tem a habilidade e sensibilidade de dialogar com todas as gerações. Há tanta verdade e naturalidade em cena que fica impossível não nos enxergamos diante de personagens tão complexos. É um filme que dá voz às várias Rosas que encontramos por aí, tão cheias de desejo, sonhos e responsabilidades quanto qualquer homem, mas que ainda têm sua representatividade reduzida pela sociedade.