CM/Arquivo 1300459839ricardo barbosa Ricardo Barbosa

A Tribuna Independente publicou uma matéria - no dia 18 desse mês - com o seguinte título: “Desaprovação política para de crescer”. A reportagem traz a visão de cientista político, marqueteiro e de políticos sobre o cenário para 2018 diante do desgaste vivido pelos partidos brasileiros. Há uma descrença generalizada não só no Congresso, demais casas legislativas e Executivo. Isto pode gerar uma apatia e ausência de esperança.

Vivemos também uma época de duras críticas ao Judiciário, por exemplo, como visto nos embates com o Supremo Tribunal Federal (STF). Na matéria, uma das falas que me chamou atenção foi a do presidente estadual do Partido dos Trabalhadores, Ricardo Barbosa. Com todo o respeito que tenho a Barbosa, discordo da leitura que ele faz ao destacar que os “movimentos de rua” foram uma farsa na tentativa de derrubar o Partido dos Trabalhadores. 

Não é, portanto, um ataque a Barbosa, mas uma discussão no campo das ideias. 

É fato que os movimentos esfriaram em relação às idas às ruas e há casos que mereciam mais atenção por parte de alguns. Todavia, o que acordou os movimentos - em 2014, 2015 e 2016 - não foi uma farsa, mas sim uma sucessão de acontecimentos nefastos envolvendo o partido cujos membros comandavam a República, seus aliados e até nomes da oposição. Fora isto, um governo - o da ex-presidente Dilma Rousseff - que era um desastre. 

Houve a completa desorganização das contas públicas e a revelação - por meio da Lava Jato - de uma completa corrupção institucionalizada. Havia corrupção antes, mas o método foi aprimorado para a compra de parlamentares com o mensalão e ainda mais aperfeiçoado com o Petrolão. Além disso, os empréstimos do BNDES para republiquetas ideologicamente alinhadas com o PT que, entre outros fatos, trouxe luz para o nefasto Foro de São Paulo, até então pouco tocado pela grande mídia. 

O PT colheu o que plantou, portanto! Razão pela qual sofreu o que sofreu em 2016, nas eleições municipais em todo o país. É o PT o único mal? Evidente que não. Antes do PT chegar ao poder, o intelectual de esquerda Raimundo Faoro já havia escrito Os Donos do Poder em que mostra o estamento brasileiro formado por uma casta de políticos que defende um estado gigantesco para se beneficiar dele. Uma obra fantástica. O estamento usa dessa estrutura para cada vez mais apartar população das decisões centrais da República. 

Ao chegar ao poder, o PT fez parte desse estamento com uma visão gramsciana e apoiado por uma “intelectualidade orgânica” que comunga de muitas das pautas do partido. Nessa discussão, boa parte dos brasileiros assistiu algo medonho na política: o ataque aos valores de um país por meio de uma censura ideológica em que qualquer coisa que desafiasse o progressismo era tachada de extremista, fascista ou o que o valha, ainda que nada tivesse a ver com fascismo, como é o caso das visões liberais que começam a surgir no país e pedem justamente a redução do Estado. 

Era boa parte da população que estava sendo xingada e segregada.

Nessa lacuna, surgiram nomes como o de Jair Bolsonaro (Patriotas) - que tem considerável intenção de voto para a presidência da República -  e outros que se opuseram ao estamento. O ex-prefeito de São Paulo, João Dória (PSDB), não é opositor ao estamento, mas também acabou lucrando com esse vácuo. As discussões, portanto, ainda que de forma inicial começaram a ganhar aspectos ideológicos abrindo um campo para o que não se tinha voz no Brasil: conservadores e liberais. 

Claro que estes nomes também possuem seus defeitos. 

Vistos antes pela “inteligência dominante” como extremistas, hoje ganham espaço - nos meios culturais - para mostrar suas visões. Para além da política, autores começaram a mostrar isso, como Bruno Garschagen, Flávio Morgenstern, Flávio Gordon, e até colunistas como João Pereira Coutinho, que aumentaram seus públicos. A influência do professor Olavo de Carvalho na abertura desse espaço - que concordem ou não com ele - é inegável. 

O cansaço com a classe política, portanto, ainda existe. A meu ver, a visão de Ricardo Barbosa de achar que o PT se recupera de um desgaste, mesmo tendo Luis Inácio Lula da Silva, o Lula (PT), uma considerável parcela de eleitores, não coaduna com a realidade. A questão é que agora não é apenas o PT, mas o fisiologismo do PMDB e as crenças de matriz ideológica semelhante dos sociais-democratas do PSDB. Devagar, grande parcela da população - ainda que por instinto - vai percebendo o estamento e os males do estado gigantesco em suas costas. 

Barbosa diz que ao acompanhar as redes sociais percebeu que o atual momento foi “fruto das tentativas de se desmoralizar a política ou os políticos”. Não há grandes esforços para se desmoralizar muitos políticos no Brasil. Afinal, de Lula a Aécio Neves (PSDB), passando por Geddel Vieira e Eduardo Cunha, a realidade tem os desmoralizado por si só, em que pese o esforço de grande parcela da grande mídia em sentido contrário. 

O desafio é separar o joio do trigo e não generalizar. Em um clima de descrença, por vezes, a generalização entra em cena e é sempre má conselheira. O presidente estadual do PT ainda destaca que se colocou “essa responsabilidade nas costas principalmente do PT e dos governos do PT”.

É natural a responsabilidade que caiu nas costas do governo do PT. Era o partido “mandatário” da nação com os acordos do presidencialismo de coalizão que se aliou ao PMDB e deve repetir a dose dessa aliança em muitos estados, incluindo Alagoas. Ainda pagamos - de certa forma - por essa herança, mesmo o governo de Michel Temer (PMDB) sendo uma desgraça. 

O PT paga um preço pelo que fez. Foi responsabilizado por suas ações e pela forma como defendeu os seus ao gritar “guerreiro do povo brasileiro” para lá e para cá, ao se deparar com seus Zé Dirceus da vida. O discurso de perseguido não cola mais. Afinal, Eduardo Cunha está preso e tantos outros que eram vistos como “mentores” de um “golpe” que nunca houve também foram alvo das consequências. 

Além disso, esse mesmo PT sempre buscou as alianças de conveniência atacando ou absolvendo alguns conforme o posicionamento destes em relação ao partido. É o que acontece agora com as aproximações com o senador Renan Calheiros (PMDB) em Alagoas. Dizer que o que ocorreu com o PT é uma “farsa” que “caiu” não faz sentido. Então, discordo de Barbosa. O próprio PT é a farsa que caiu. 

Na gênesis dos movimentos de rua, muitos buscaram apoios e não encontraram. A manifestação nasceu de forma espontânea. Depois disso, muitos movimentos cometeram erros? Sim. Erros graves como se aproximar, em muitos momentos, de quem não devia. Algumas pessoas desses movimentos se renderam ao estamento que combatiam. Mas, isto não quer dizer que não houve uma indignação sincera lá atrás, muito menos que em um grande movimento de massa não existam aproveitadores. Claro que existe! Mais uma vez o desafio: separar o joio do trigo. 

Eis outra fala de Barbosa na reportagem: “As pessoas que estavam indo para ruas, indignadas e sendo chamadas para lutar contra a corrupção, acharam derrubando a Dilma do poder, não acabou com a corrupção. Os brasileiros caíram na realidade de que houve, de fato, um movimento para retirar da presidência uma pessoa com credibilidade e que fora eleita democraticamente”.

Num ponto ele está corretíssimo: não acabou com a corrupção. De fato, era preciso que ainda estivessem mobilizados o que antes estavam. Porém, se Dilma foi eleita democraticamente, caiu também pelas vias da democracia, com um impeachment que é dispositivo constitucional. A narrativa do golpe não mais se aplica. 

E é neste sentido que a matéria da Tribuna apresenta, a meu ver, a voz sóbria do cientista político Ranulfo Paranhos, quando fala que a população não passou a aceitar a impunidade. 

“Tem dois elementos importantes: primeiro é o leque de opções, quando você expõe como leque de opções apenas os indivíduos que estão envolvidos em escândalos em maior ou menor grau, os eleitores vão ter que escolher entre esses indivíduos. Você pode aumentar a taxa de abstenção, de voto nulo e branco, mas no limite, na escolha final, um dos indivíduos será aquele que tem algum tipo de envolvimento com escândalo ou pendência na justiça, mas porque só tinha aquele. Acho que é uma questão que explica do ponto de vista muito prático: tenho que votar, preciso votar, pois o voto ainda é obrigatório”, diz ele na matéria. 

Paranhos ainda mostra que há uma busca por perfis fora de um estamento, ainda que não utilize essa palavra. Ele fala da busca por um candidato sem envolvimento com as sujeiras: “Isso seria ótimo, ter candidato com esse perfil, mas por outro lado sem experiência política. Se a gente trouxer para o cenário daqui do estado, nenhum dos candidatos que se apresenta ele tem menos de 10 anos de vida pública. Ou seja, o candidato mais jovem tem aí no mínimo uma década de vida pública. Essa década vai trazer para ele, quer queira quer não, um passado mais manchado ou menos manchado. Por exemplo, o cara foi deputado e não fez nada e ainda fez aliança com fulano e sicrano, a porque quando foi gestor falhou aqui e ali. O cenário por si só não tem aquele salvador da Pátria, alguém limpo, com melhores propostas. O cenário não muda muito”. 

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