Ilustração E6ece223 b5d9 4e3c 873c 32a0b5df3a9e Tavares Bastos

Já publiquei - neste espaço - diversos textos em que busquei resgatar o pensamento do alagoano Aureliano Cândido Tavares Bastos. É, de certa forma, viajar novamente ao século XIX, mas não ficar por lá. 

Em A Província, que é uma de suas mais importantes obras, Bastos discutiu o federalismo e a centralização de forma bem superior a qualquer outro republicano de sua época. Viu o Brasil de maneira visionária, defendendo princípios como o da subsidiariedade que vai de encontro ao que temos hoje em nosso pacto federativo nefasto  e promotor do “Estado-babá”. 

Atualmente, vemos um crescimento o poder coercitivo do Estado para cima das liberdades individuais. Paralelamente, entramos em uma espiral de degradação moral e intelectual que despreza o debate em função de fincar pé na visão ideológica, onde cada um se acha dono da razão e perde a razão em atos extremos. 

Tavares Bastos enxergou um outro Brasil e apontou caminhos em detalhes que servem de visão para hoje e para o futuro. 

Infelizmente, suas obras são pouco lidas! 

Cada espaço que busca resgatar Tavares Bastos, como fez a Assembleia Legislativa do Estado de Alagoas ao reeditar suas obras em gestões passadas, merece ser louvado. Por isso, fiquei imensamente feliz quando vi que a Feira Literária de Marechal Deodoro faria isso no dia 24 de novembro. Elogiei a ação sem sequer ter qualquer contato com seus idealizadores. 

Para minha grata surpresa, recebi - dias depois - o convite para participar da mesa de discussões sobre esse alagoano. Falar sobre a visão federalista de Bastos e de como ele entendia que valores de uma sociedade precisam ser respeitados, colocando o Estado em seu devido lugar e entendo a política como parte dessa comunidade, mas jamais o seu todo é encontrar os conselhos deste alagoano, quando afirmava que um Estado centralizador - que quer todas a decisões da vida comunitária passem por ele - não apenas mata a livre iniciativa dos indivíduos, como tornam esses incapazes de questionar a realidade na qual se inserem, por esperarem sempre a solução do “panteão” dos “engenheiros-sociais”. 

Em pouco tempo, como coloca Bastos, estes mesmos “engenheiros-sociais” serão sugados pela burrice da própria ideologia, tornando-se infeccionados pelo “despotismo” ao se verem iluminados para decidir a melhor forma de vida para os outros. Bastos antecipa com isso as tragédias do século XX e condena o pensamento fascista, só surgido depois, de que tudo tem que ser pelo Estado e com o Estado. 

Tavares Bastos foi um verdadeiro defensor da liberdade, mas sem esquecer que esta é condição do homem; e que para florecer uma civilização é preciso que esta nutra valores e respeito o próprio passado, refletindo sempre sobre sua formação histórica, seus erros e suas conquistas. 

Como diz em A Província, a outra face do livre-arbítrio é a responsabilidade de arcar com as consequências das próprias escolhas. Não há progresso sem reflexão sobre o que se avança e o que se conserva. Essa é uma lição primordial do pensamento de Tavares Bastos. 

Assim, o alagoano analisou a realidade dos EUA sem deixar a dever a Tocqueville ou Thomas Paine. Assim, fez análises sobre as mudanças na França de forma crítica e denunciando o centralismo. Da mesma forma, falou do Brasil e, se vivo fosse, se espantaria com os rumos de nossa República por sua gênesis militarista e positivista. Tavares Bastos não poderia jamais estar escondido nas bibliotecas, mas sim sendo analisado por pensadores atuais e circulando, de forma extremamente acessível, nas livrarias. 

Pergunto-me com espanto por qual razão grandes editoras não redescobriram Tavares Bastos. Na boa leva de obras que estão sendo resgatadas e trazidas pela Record, por exemplo, poderia estar o alagoano. Não é bairrismo. Seria fã de Tavares Bastos se alagoano não fosse. Como alagoano é, aumenta ainda mais o meu orgulho por ter nascido no chão que Tavares Bastos nasceu. 

Desde 2012, quando comecei a estudá-lo, este alagoano se tornou para mim uma referência. Indagava-me como não o tinha descoberto antes. Por qual razão ele não se encontra nas faculdades por aí afora? São questionamentos cujas respostas me entristecem. 

Não sei se estou a altura para falar de Tavares Bastos em um evento. Espero que consiga, pois a emoção me toma. 

Destaco aqui alguns trechos de Bastos que me levaram a refletir e produzir alguns dos meus textos. Em A Província, ele sacramenta: “O que caracteriza o homem é o livre arbítrio e o sentimento da responsabilidade que lhe corresponde. Suprimi na moral a responsabilidade, e a História do mundo perde todo o interesse que aviventa a tragédia humana. Os heróis e os tiranos, a virtude e a perversidade, as nações que nos transmitiram o sagrado depósito da civilização e is civis que apodreceram no vício e nas trevas, não se poderiam mais distinguir, confundir-se-iam todos no sinistro domínio da fatalidade”.

É justamente o que penso sobre a questão da liberdade e os demais valores necessários para manter esta liberdade viva. Numa sentença que é atribuída a Thomas Jefferson é dito o seguinte: “o preço da liberdade é a eterna vigilância”. Mas o que vigiar? Essa reflexão é profunda em Bastos. Além de profunda, necessária ao nosso tempo. 

Afinal, como diz o intelectual alagoano, “a inversão das posições morais é fatalmente o resultado da centralização”. Ou seja: quanto mais o Estado cresce, mas ele precisa modificar costumes, culturas e tradições para impor uma forma de viver que desrespeita aquilo que as comunidades construíram ao longo da História. Sem essa vigilância, em nome do progresso se joga fora o bebê com a água suja do banho, como é posto no ditado popular. 

Bastos segue afirmando que essa inversão de posições morais é um “efeito necessário, fato experimentado, não aqui ou ali, mas no mundo moderno e no mundo antigo, por toda parte, onde quer que tenha subsistido (...) uma as consequências morais do sistema político que suprime a primeira condição da vida”. Esta primeira condição é a liberdade. É justamente a denúncia do que se encontra presente na mentalidade revolucionária ao tentar forjar o novo homem. É preciso - nessa visão de revolução - que se ocupe espaços, se tome o poder, e se eleve um partido ou grupo ao status de “consciência”. 

O “ser ontológico” passa a ser fundado pela necessidade de revolução, rouba-se do homem a possibilidade de qualquer transcendente e individualidade, coletivizando-o para ser instrumento de um projeto de poder tocado pelo Estado agigantado e presente em cada minúsculo detalhe da vida do ser humano, dizendo o que ele pode e o que não pode. Não se trata, portanto, apenas de uma questão econômica ou política. Mas sim da real luta contra a possibilidade de qualquer tirania, venha esta de onde vier. 

Neste sentido, em alguns de seus trechos, Tavares Bastos parece que está sentado ao nosso lado, como quem puxa uma cadeira e pede um café e diz ao interlocutor: senta aí também que eu preciso te falar o que anda acontecendo. A leitura de Bastos é, portanto, um diálogo a estar sempre presente. É um dos vigilantes da liberdade. 

Se acham que exagero, eis o retrato de nossos dias sendo traçado no século XIX:  “Nesses dias nefastos em que o poder, fortemente concentrado, move mecanicamente uma nação inteira, caracterizam o estado social a inércia, o desalento, o ceticismo, e, quem sabe, a baixa idolatria do despotismo, o amor às próprias cadeias. Daí a profunda corrupção das almas, abdicando diante da força ou do vil interesse. E não é as classes inferiores somente que lavra a peste: os mais infeccionados pelo vício infame da degradação, são os que se chama as classes elevadas”. 

Que Tavares Bastos encontre o seu devido lugar nas prateleiras das livrarias pelo mundo afora...

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