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Mesmo sendo o método contraceptivo mais seguro, o anticoncepcional hoje em dia anda causando certos receios na hora de ser escolhido pelas mulheres. O assunto veio à tona depois que pesquisas realizadas por médicos britânicos relacionaram algumas doenças graves, como trombose e câncer, ao uso do medicamento.

O Cada Minuto falou com algumas mulheres que tiveram algum problema devido ao uso do anticoncepcional e também com a ginecologista Cristina Cabús para entender por qual motivo a modificação dos hormônios deve ser tratada com relevância e acompanhamento médico.

Risco de morte

A jornalista Mônica Cavalcante, de 38 anos, já utilizava o anticoncepcional como método contraceptivo há anos quando em outubro de 2016 começou com dores de cabeça forte e fraqueza, a profissional não sabia que o diagnostico de trombose poderia ser originado de um anticoncepcional e quase a levaria à óbito.

Durante uma manhã em seu trabalho, Mônica começou a sentir fortes dores de cabeça até que acabou desmaiando. Entre idas e vindas em hospitais durante cinco dias, ela foi diagnostica com estresse e após a ida em um neurologista, com uma encefalite viral – infecção que provoca uma inflamação no cérebro – diagnósticos que até então, estavam errados.

“Eu passei quatro dias com dores de cabeça insuportáveis e só ouvindo que era stress, até que no quinto dia, eu comecei a ter convulsões, meu lado direito já estava dormente e eu não conseguia falar”, contou a jornalista.

Mônica foi direcionada para Unidade de Terapia Intensiva (UTI) de um hospital particular de Maceió, com emergência, mas só sob a curiosidade e desconfiada do diagnóstico dado veio a análise certa. O médico plantonista, que era também um neurologista, enviou as imagens da tomografia da paciente para um doutor especialista em imagens, e de imediato veio o pedido de novos exames que comprovaram a segunda hipótese, trombose.

“Eu ainda lembro que durante a tarde, um médico geral me disse que havia a suspeita de trombose, mas acredito que os meus sintomas agravaram devido à quantidade de dias que levaram parar descobrir o real diagnóstico. Eu já estava sem me comunicar, não conseguia me mover, tive oito convulsões em um dia, eu estava desfalecendo”, disse.  

Mônica começou o tratamento no momento que descobriu a doença e ficou 10 dias internada no hospital. Agora, após um ano do acontecimento, ela ainda continua tomando os remédios para afinar o sangue e agradece por não ter tido sequelas graves da doença.

“Eu tive uma recuperação muito rápida, comecei a falar e a fazer fisioterapia já no dia seguinte da identificação. Hoje em dia eu não tenho uma veia, porque ela secou de tanto que eu era furada para exames e soros, minha sensibilidade da mão é comprometida e o braço às vezes adormece, mas poderiam ser sequelas muito piores”, disse. Segundo ela, por conta de seu tratamento, todo alimento consumido deve ser analisado, pois pode cortar o efeito do remédio, além da cautela com qualquer doença, que causa preocupação e medo.

“Mesmo depois de um ano, o único diagnóstico para a geração da minha trombose foi o anticoncepcional, e eu não sabia que ele poderia causar tantos riscos e sintomas. Hoje em dia não indico para ninguém, e mesmo se pudesse voltar a tomá-lo, não usaria”, disse.

Mudanças hormonais

Fernanda Gomes, 20 anos, é estudante de psicologia e começou a tomar o remédio anticoncepcional aos 17 anos. Depois de seis meses de uso, a jovem começou a sentir sintomas que não sabia de onde vinham e só em conjunto com sua psicóloga que descobriu que estava tendo depressão hormonal.

“Quem me passou o remédio era a minha ginecologista da época, e eu não sabia dos efeitos colaterais que poderiam vir. Então depois de alguns meses de uso comecei a sentir que minhas pernas foram ficando muito pesadas, e uma baixa na libido e lubrificação que eu nunca tive. Começou a aparecer celulites também e isso começou a me fazer mal”, disse Fernanda.

A suspensão veio imediatamente depois que soube do diagnóstico, tendo o anticoncepcional como fator inicial da doença. De acordo com informações da Organização Mundial da Saúde (OMS), a depressão vinda da mudança na regulamentação dos hormônios é um efeito comum devido aos controles de sensações que é afetado na mulher.

“Logo depois que eu parei, já senti uma melhora no meu humor e no peso que eu sentia nas pernas, porém a diminuição na lubrificação eu sinto até hoje. Em acompanhamento com a minha ginecologista atual, também descobri que tive uma ferida no colo do útero causada pelo anticoncepcional”, comentou a estudante.  

Fernanda agora faz acompanhamento com outra médica, e ainda não voltou a tomar o remédio anticoncepcional. “Se eu realmente tivesse que voltar a utilizar esse método, eu teria um acompanhamento mais profundo com a minha ginecologista e seria com outra composição. Me fez muito mal psicologicamente”, disse.

Avaliação médica

De acordo com a ginecologista e obstetra Cristina Cabus, o anticoncepcional ainda é o método mais seguro e prático, com 99,7% a 99,9% de prevenção, mas como qualquer tipo de medicamento, tem que ser indicado por um profissional para riscos serem evitados.

“Muitas reclamações acontecem pela falta de procura das mulheres por um ginecologista e saber qual é a sua melhor indicação de método e remédio. Em nosso país, a venda do anticoncepcional pode ser feita sem receita médica e o assunto ainda é um tabu, então também por vergonha e medo, a mulher faz o uso da indicação por um amigo, que às vezes não é o que seria indicado para o seu tipo”, disse a médica.

Segundo Cristina, tudo parte do histórico de saúde de cada pessoa. “Aquelas que fumam, tem enxaqueca, históricos de trombose e mutação genética na família, hipertensão, diabetes, câncer de mama e de fígado são algumas das mulheres que tem uma certa contra indicação e devem passar por um acompanhamento para serem medicadas”, completou.

“É necessário toda uma análise do paciente. Cada pessoa tem um tipo ideal, alguns podendo ser das pílulas mais antigas e outros, das mais novas, com hormônios mais recentes e elaborados. Por isso existem casos e casos. Cada mulher vai ter um anticoncepcional mais bem indicado pra ela”, disse a doutora.

De acordo com a médica, algumas das complicações são geradas devido aos hormônios básicos que são inseridos durante o uso do método, como o estrógeno e progestagênio. “Os sintomas podem ser minimizados se o seu medicamento for de acordo com a composição indicada para o seu tipo de saúde. Isso sendo feito através de um histórico, exames complementares, e acompanhamento médico reduz as complicações”.

Finalizando, Cristina completou que antes mesmo da decisão de procurar um anticoncepcional, é a indicação de um ginecologista para saber se esse é o método contraceptivo ideal para sua saúde e de prevenir não só a gravidez, mas também qualquer problema que possa vir a ocorrer.

*Estagiário