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A internalização da masculinidade branca pelos homens negros como tentativa de ser reconhecido como pessoa, como homem, como alguém digno de valor, se manifesta, por vezes, em comportamentos violentos para com aqueles do seu próprio povo que questionam e se deslocam desse padrão heteronormativo colonizador. Aqui, me refiro especificamente aos homossexuais negros como sendo esse alvo de violência, ainda que mulheres negras e pessoas trans negras também o sejam.

Diante da convocação da masculinidade para a heterossexualidade como única sexualidade aceitável e diante da recusa subjetiva dos garotos negros homossexuais a se submeterem inteiramente a ela – recusa essa que num primeiro momento se dá à sua própria revelia, posto que é comum homossexuais negarem ou camuflarem a sexualidade para se protegerem – os garotos negros homossexuais experimentam a diáspora uma segunda vez.

A descoberta da homossexualidade pelos garotos negros, que a partir deste momento do texto chamarei de bichas pretas, os faz experimentar uma segunda diáspora porque os retira novamente da possibilidade de serem integralmente e genuinamente acolhidos, mas de forma ainda mais nociva, posto que essa segunda barreira à aceitação se dá em seus próprios quilombos, ou seja, em suas famílias, em suas comunidades e até nos movimentos negros. Sendo assim, um impasse é colocado frente às bichas pretas: negar a própria sexualidade e aderir ao ideal de masculinidade estabelecido para se proteger e preservar o amor de seus pares ou afirmar a própria sexualidade e ficar desprotegido, correndo o risco de não ser aceito em seu próprio espaço familiar de pertencimento.

Qualquer uma dessas escolhas implica em sofrimento. Em ambas é o aconchego do lar, do lugar onde se sentem mais seguras, que está em jogo. Desde muito cedo as bichas pretas precisam enfrentar o próprio corpo e o próprio desejo como inimigos em potencial porque a descoberta do segundo pode vir a deixá-las ainda mais desamparadas, como se viver num país no qual a cada 23 minutos mata-se um jovem negro já não fosse terrível o suficiente.

 

Fonte:https://www.revistaforum.com.br/osentendidos/2017/08/28/as-diasporas-da-bicha-preta/