Foto: Bruno Levy/CadaMinuto 96184601 b0a8 4b7a 9533 0a12db30052a Ministro Marx Beltrão

O ministro do Turismo, Marx Beltrão (PMDB), tem todo o direito de discordar do teor de uma reportagem ou análise em relação a ele ou aos seus atos. Tem o direito inclusive de ir à Justiça se achar que deve, apesar de eu entender que não há razão alguma para isso no caso mais recente que o envolveu.

E o que falarei aqui não é uma questão de mérito, mas sim de ação diante das críticas. 

Quanto aos fatos: Beltrão foi personagem de uma matéria do jornalista Davi Soares em que o jornalista diz que o chefe de sua assessoria parlamentar foi exonerado no dia 27 de outubro após a Operação Lavat. 

Ele - o jornalista - aponta que houve inércia de Beltrão ao manter um suspeito nomeado por tanto tempo, como seu auxiliar político direto junto ao Congresso Nacional. 

Não entendo como Soares, mas ele foi extremamente prudente no questionamento que fez, garantindo, inclusive, espaço para o contraditório. Sendo assim, não entro no mérito das conclusões de Davi Soares, que julgo como um jornalista sério e competente, apesar de divergirmos em algumas opiniões. Acho a divergência salutar e construtiva. No período em que trabalhamos juntos, falo por mim!, isso muito mais me enriqueceu. 

Todavia, ressalto que o jornalista teve a preocupação de colocar em sua matéria o seguinte: “tal contexto está longe de levantar qualquer suspeita de envolvimento de Beltrão nos esquemas investigados pela Polícia Federal”. Ao meu ver, um ponto de honestidade intelectual que deve ser levado em conta. Ele mostra claramente que não acusa o ministro de absolutamente nada a não ser de uma inércia para a exoneração que, a meu ver, a nota do Ministério explica. 

Afinal, uma coisa é questionar o cargo ocupado pelo chefe da assessoria e a outra é envolver o ministro na trama. Soares - de forma competente - soube separar as coisas. 

Daí, evidentemente, surgem questionamentos próprios de uma análise mais detalhada e em busca de respostas. O leitor que julgue. 

Beltrão tem todo o direito de expor sua versão e, segundo Soares, ele não atendeu às ligações, nem respondeu aos questionamentos enviados por WhatsApp pelo Diário do Poder. O Ministério do Turismo destaca que no momento da nomeação de Norton Domingues Maseru não havia nenhuma denúncia ou fato que desabonasse a conduta do mesmo. Ora, como não há bola de cristal no ministério, se isto é um fato, é algo que deve ser levado também em conta. O argumento está posto na matéria de Soares. Portanto, o jornalista considerou a informação relevante.

O Ministério ainda coloca em nota que assim que o acusado passou à condição de investigado, foi exonerado. Sabemos disso também pela matéria de Davi Soares. 

A meu ver, o procedimento do jornalista, ao tratar do fato, não traz absolutamente nada que venha a ferir o que se espera do jornalismo. Levanta, é verdade, um questionamento incômodo ao ministro Marx Beltrão, que tem todo o direito de pontuar e explicar as questões. Porém, em momento algum Beltrão foi xingado, atacado ou teve a imagem exposta de maneira indevida. Logo, perde a razão em uma reação desproporcional. 

Como vemos em matéria jornalística da Tribuna Independente, Soares foi alvo de uma série de xingamentos em um grupo de WhatsApp. Beltrão acusa o jornalista de não ter escrúpulos ao fazer matéria tendenciosa, sendo um “mal caráter de carteirinha”. Beltrão diz que processará o jornalista. 

Quanto ao processo, é direito de qualquer um, citado em uma matéria, ir à Justiça ao se sentir ofendido. Aí é com a Justiça avaliar se a reclamação tem ou não razão de ser. Todavia, o ministro deveria ter mais calma e prudência nas colocações, justamente em função do cargo que ocupa, sobretudo batendo-boca em grupos de WhatsApp. 

Ao promover determinados “bate-bocas” por conta de questionamentos que são feitos pela imprensa, Beltrão não ajuda em esclarecer absolutamente nada. Ainda mais quando, não houve ofensa pessoal ao ministro na matéria. Repito: há um parágrafo em que deixa claro que Beltrão não pode ser responsabilizado pelos atos do comissionado, restando apenas a divulgação de dois pontos: 1) que o acusado era assessor (e isso é fato); 2) a acusação de uma inércia para demitir o assessor (que aí é uma avaliação) que pode muito bem ser rebatida, explicada ou até - em caso extremo - fazer com que o ministro exerça o seu direito de ir à Justiça (o que para mim é uma bobagem). 

A reação desproporcional não é cabível, pois em momento algum do texto se verifica desonestidade do repórter, muito pelo contrário, uma vez que afasta o ministro das investigações e expõe a explicação dada pelo Ministério do Turismo. Há apenas uma pequena análise - da qual pode se concordar ou não - sobre a “inércia” do Ministério. A não ser que existiam outros fatos que irritaram Marx Beltrão, ele exagera e parte para acusar o jornalista sem apresentar qualquer tipo de prova.  

O que mais preocupa é essa acusação que Beltrão faz. E assim como vale para a imprensa, vale também para o ministro: o ônus da prova cabe a quem acusa. Ao dizer que a matéria é um ato de “canalhice”, Beltrão afirma que Soares recebeu “para fazer matéria tendenciosa” e insinua que não é a primeira vez. 

Trabalhei com o jornalista Davi Soares. Temos pontos de opinião divergentes sobre muitos assuntos, o que é possível de se perceber comparando os temas e a forma como analisamos. Mas jamais soube de qualquer coisa que desabonasse a sua conduta profissional. Soares sempre tratou das pautas que levanta de forma séria. Nos textos opinativos - apesar de duro, incisivo e com pontos de divergência em relação ao que eu penso - exerce da honestidade intelectual e da clareza ao expor sua visão. 

Isto, evidentemente, pode incomodar e incitar visões opostas. Ora, que estas sejam expostas também. Nada como um bom confronto de ideias e o ministro tem todo o direito a exercê-lo, mas não de acusar, atribuindo a um texto que o incomodou uma “ação paga”. 

Se isto vira regra, todo jornalista que passar a criticar um homem público (e criticar um ato é diferente de atacar a honra de quem quer que seja) - seja por qual motivo for - passa a ser visto como alguém a soldo. 

Lembro das inúmeras vezes em que já fui acusado disso (por outras pessoas), simplesmente por achar que deveria escrever o que era necessário de ser escrito. Neste ponto, um ataque deste a um jornalista - sem a apresentação das provas - é um ataque a todos, ainda mais quando em um ambiente público, com pessoas que acompanharam tal declaração. 

Ressalto apenas que: discordar de um jornalista também é DIREITO de qualquer político ou homem-público, mas isso também não o habilita para sair atacando por aí a honra alheia de quem o criticou enquanto homem público que é. 

Já elogiei Marx Beltrão e não retiro os elogios que fiz. Ele tem sido ágil em muitas ações no Ministério do Turismo e buscado parcerias inteligentes que espero que tenham resultados. Concordo com o foco de Beltrão de tornar o turismo interno mais barato, de buscar melhor aproximação com o trade e de entender que é uma indústria limpa, que gera muitos empregos e tem peso relevante para Alagoas. Muitos pronunciamentos do ministro, nesse sentido, estão corretíssimos. Mas não é por tê-lo elogiado, que ache que está acima de críticas ou cobranças. Não, não está. Neste caso, errou feio! 

E no caso em tela, é natural que - diante dos fatos - um jornalista busque saber sobre o subordinado do político. Nesse texto em específico Davi Soares foi prudente e destaco novamente os pontos: 1) quando avisa que “tal contexto está longe de levantar qualquer suspeita de envolvimento de Marx Beltrão nos esquemas investigados pela PF” e 2) quando reproduz na íntegra a explicação do Ministério. 

Concordo com o Ministério do Turismo, quando diz (em outras palavras) que para o bem de algumas políticas públicas - se não há nada que desabone um quadro técnico - é melhor optar-se pela continuidade caso tal política seja importante e bem posta, ainda mais no contexto de mudança de governo que tivemos. Mas isso não retira a necessidade de questionar sobre a nomeação diante da investigação da Polícia Federal. 

Repito: não há na matéria em questão qualquer coisa que desabone a honra de Marx Beltrão, mas um questionamento a um homem público sobre os procedimentos para o preenchimento dos quadros do ministério. Logo, vejo uma ação de Beltrão na Justiça como infundada. O próprio ministro que atraiu para si uma polêmica desnecessária, quando bastava a explicação dos fatos - ainda que de forma dura e incisiva e mostrando discordância com Davi Soares - atestando o não envolvimento dele com o caso, o que foi dito pelo próprio texto publicado. 

Mais calma, ministro! E desde já adianto a Beltrão - que já recebeu elogios públicos de minha parte - sequer consultei Davi Soares pelo que aqui escrevo; e não defendo o jornalista por “corporativismo”, sendo eu também um jornalista. Odeio corporativismos. Defendo sim por achar que a matéria dele, nesse caso, foi cabível e não há agressão alguma. Se há erro na informação divulgada, ministro, aponte o erro. 

Estou no twitter: @lulavilar