Eugène Delacroix, 1830. Ed001deb 7247 4cdf bdc3 5a59a8cb3465 La liberté guidant le peuple.

O País se liquefaz em uma implosão de princípios basilares. Não falo de conceitos econômicos, como desenvolvimento, emprego ou renda, mas de fundamentos inerentes a condição humana, pilares que uma vez retirados fazem desabar nossa espécie sapiens, reduzindo-nos aos escombros e ruínas do animalesco.

Também não falo de direitos sociais. Passo ao largo dos “luxos” como saúde e educação públicas, desprezados tanto pelos gestores (sic) públicos, como também pela classe média que os elege e que acha normal ter que pagar para fugir dos serviços de péssima qualidade oferecido pela União, Estados e Municípios.

Eu falo da liberdade. Literalmente, da liberdade.

Com tristeza e descrença no ser humano que mostra seu lado mais perverso, agarro-me a símbolos para, ainda, acreditar no homem, da mesma forma como o torcedor devoto que, mesmo sem gritar gol há vários jogos, sem ter seu time campeão em inúmeros torneios, apega-se à bandeira do clube pendurada na parede da sala, à insígnia de seu time no decalque da velha caneca de alumínio e às memórias dos artilheiros que há décadas deixaram de balançaram as redes dos adversários.

Símbolos servem para afirmarmos nossas crenças.

Em sua pintura mais famosa, Delacroix pintou a liberdade como uma mulher guiando o povo com a bandeira francesa em uma mão e um mosquete na outra, avançando por cima dos corpos dos derrotados. Seus seios completamente descobertos, além de registar sua condição de robusta mulher do povo, sublinha sua condição feminina.

Longe da Europa e mais de 50 anos depois, a Princesa Isabel, a redentora, assinava a Lei Áurea, abolindo a escravidão no País. Fomos o último país independente do continente americano a abolir completamente a escravidão e, por isso, os grilhões ainda estão arraigados em nossa sociedade. Um ano depois, Pedro Américo pintou “Libertação dos Escravos” com a liberdade também personificada em mulher. O escravo liberto, o menino e o demônio derrotado são as únicas figuras masculinas na obra.

No mundo real, foram mulheres que ajudaram a fundar o combate a condições análogas à de escravo no Brasil: nos anos 90 integraram e coordenaram os primeiros grupos móveis do Ministério do Trabalho, abdicando do conforto de suas casas e do convívio familiar para adentrar aos rincões do País, a fim de erradicar a escravidão contemporânea. Fizeram história com coragem, de peito aberto, desbravando o caminho que seria reconhecido e valorizado mundialmente.

Há apenas dois dias, uma outra mulher, Rosa Weber, impediu que o Ministro do Trabalho (sic) revogasse o Código Penal brasileiro, por intermédio de uma portaria que, além envergonhar o pior dos juristas, retrocedia o Brasil a 1888, restringia o conceito de condição análoga à de escravo e estabelecia critérios políticos na inclusão de empregadores na “lista suja” de trabalho escravo.

Enfrentando homens brancos, de idade avançada, auto declarados “cristãos” e na sua grande maioria casados com mulheres belas, recatas e “do lar” foi uma Rosa que teve a coragem e o poder de proferir, ainda que sujeita a revisão pelos seus pares, que a tal portaria “ao restringir indevidamente o conceito de ‘redução à condição análoga a escravo’, vulnera princípios basilares da Constituição, sonega proteção adequada e suficiente a direitos fundamentais nela assegurados e promove desalinho em relação a compromissos internacionais de caráter supralegal assumidos pelo Brasil e que moldaram o conteúdo desses direitos”.

Ela foi brilhante e dourada: áurea. O que reforça, ainda que simbolicamente, que a liberdade é feminina e como uma musa nos inspira a continuar acreditando.

Quase na segunda década do século XXI, defender “a” liberdade como valor indisponível e inalienável de sucessivos ataques é algo apavorante. Sinal de tempos sombrios e de retrocessos bizarros. Abrir mão dela não é meramente perder “direitos”, mas nossa condição humana, afundando em lamaçal ético, sem sermos salvos pelas mãos de uma redentora.

Veja o documentário "Frente de Trabalho" realizado pelo Sindicato Nacional dos Auditores Fiscais do Trabalho  - Sinait sobre condições análogas à de escravo no Brasil. Direçao: Caio Cavechini.