432752b7 a3ea 44b9 b168 2a1d485e076a

Iniciei a militância política no antigo Partido Comunista Brasileiro (PCB), onde permaneci por 20 anos. Deixei o Partidão quando já havia se transformado em PPS; o que me fez sair não foi a mudança de nome, mas os rumos políticos. Em 1998, filiei-me ao PSB, que naquele momento era um partido em construção, com divisões nítidas entre grupos de esquerda, centro e centro-esquerda. As disputas pela hegemonia eram normais, mas circunscritas ao terreno político e ideológico, como é natural em qualquer partido.  

        As alianças políticas em geral aconteciam com os partidos do campo de esquerda, não sem divergências, mas com um programa claro posto em disputa, fossem com o PT, o PCdoB ou o PDT. O PSB tinha uma estratégia clara: a defesa dos interesses nacionais, compromissos com as causas dos pobres, a defesa dos direitos e das garantias fundamentais e a ampliação e o aprofundamento da democracia como um objetivo programático.

O PSB era um projeto em construção, com baixa densidade eleitoral, reduzida inserção nos movimentos sociais e pouca penetração entre os intelectuais. O modelo de partido que vinha sendo desenhado era do tipo eleitoral, mas com algumas tentativas de inserção nos movimentos sociais e populares.

        A burocracia num dado momento passou a exercer papel maior na condução do PSB em nível nacional e a reproduzir essa prática nos estados e municípios.   

        Hoje, o PSB é uma sigla em processo de desintegração. Tem como chefe um burocrata, Carlos Siqueira, típico do Apparatchik soviético, impondo suas vontades para dominar cartorialmente a sigla.

        Esta prática nefasta fez o PSB apoiar o golpe parlamentar contra a presidente Dilma Rousseff, como um artifício que o conduziria ao centro do Poder. A resistência interna e a repercussão negativa em segmentos progressistas da sociedade civil levaram a cúpula “socialista” às cordas, a exemplo do boxeador que depois de receber golpes agarra-se nas cordas no canto do ringue.

        O PSB, sem projeto e sem aliados, dividido internamente e perdendo substância política e ideológica, “envergonhado”, resolve deixar a base do governo de Michel Temer. E não diz os motivos reais. Esse vexame nacional é o fim de um partido que, apesar das deficiências, era uma organização respeitada.

A perda de identidade ou pelo menos do que vinha sendo construído como identidade, sem lideranças, sem projeto politico para o Brasil, torna-o uma legenda disponível no mercado brasileiro. As seções estaduais, a maioria sob intervenção do Apparatchik, são instrumentos de dominação e negociação para a perpetuação do poder.

Há ainda no PSB setores progressistas e de esquerda que resistem. Essa militância é o que há de mais importante e o que resta de capital simbólico. Mas, infelizmente, será ou continuará sendo esmagada pelo rolo compressor conduzido por Carlos Siqueira e seus aliados.

Os militantes que ajudaram a construir o PSB, como o escritor Roberto Amaral, a deputada federal Luiza Erundina e o jovem deputado federal Glauber Braga, saíram do partido e continuam a sua militância política na esquerda brasileira.

Aos que ficaram, como o senador João Capiberibe, Júlio Delgado, Lídice da Mata e tantos outros militantes de esquerda que resistem ao autoritarismo, as minhas homenagens. Estaremos em trincheiras diferentes, porém lutando pela mesma causa: a democracia e a construção de uma sociedade mais justa e fraterna.

A partir desse instante, desfilio-me do PSB.

Saudações socialistas a todos os companheiros e companheiras.  

 

Geraldo de Majella historiador e ex-dirigente do PSB.