Foto: reprodução/internet A3555899 562f 49d2 aa42 167e1e1ca541 Segundo a especialista em dependência química, tratamento é a saída

"Ninguém cria filho para ser dependente químico. A gente quer que ele seja advogado, médico ou qualquer outra profissão que faça ele feliz, menos dependente químico". O relato é de uma mãe que lutou - durante anos - para a recuperação do filho de apenas 18 anos. A reportagem do Cada Minuto não identificará a mãe e usará um nome fictício para contar o caso.

A dependência química é um conjunto de fenômenos comportamentais, cognitivos e fisiológicos que se desenvolvem após o uso repetido de determinada substância. A dependência pode dizer respeito a uma substância psicoativa específica (por exemplo, o fumo, o álcool ou a cocaína), a uma categoria de substâncias psicoativas (por exemplo, substâncias opiáceas) ou a um conjunto mais vasto de substâncias farmacologicamente diferentes. 

Entretanto, a família do dependente também é atingida. A codependência é uma realidade que pessoas fortemente ligadas emocionalmente ao dependente químico enfrentam durante todo o processo.

Maria das Dores*, de 46 anos, é mãe de dois filhos. Segundo ela, o filho mais novo sempre foi carinhoso e estudioso, mas aos 15 anos começou a apresentar um comportamento diferente. "Ele começou a ficar agressivo, mentia bastante e mudou de amizades, eu pensei que era a fase dele da adolescência, sabe?". Segundo Maria, aos poucos, o menor foi deixando de lado a escola e a educação que a mãe tinha repassado.

Mesmo com todos os indícios que algo estava acontecendo, a mãe não conseguia acreditar que havia algo de errado. "Até que um dia, peguei ele furtando alguns materiais de casa e vendendo, o quarto dele já não era o mesmo, os objetos dele foram vendidos para comprar droga", contou Maria que ainda completou afirmando que o filho pedia dinheiro todos os dias à ela, mas ela se negava e ele ficava agressivo.

Maria não buscou ajuda e ficou contra os familiares que afirmavam que o adolescente estava envolvido com drogas. "Eu não enxergava o que estava acontecendo ou não queria enxergar? Foi quando percebi que estava totalmente dependente de um dependente químico, não é engraçado? Eu não buscava ajuda porque eu passei a mão na cabeça dele dizendo que nada estava acontecendo, mas estava e eu não sabia como agir", ressaltou.

Após três anos, Maria procurou um psicólogo e descobriu o que era codependente. Para ela, foi uma fase difícil entender que ela também precisava de ajuda e segundo Maria, primeiramente ela precisou compreender que precisava se ajudar aceitando a situação para que pudesse buscar tratamento para o filho que está, atualmente, internado em uma clínica de reabilitação.

"Continuei a terapia, busquei grupos de apoio e hoje em dia, vejo que meu filho apresenta melhoras. Eu sei que não criei filho para ser dependente químico, mas com fé, vou vê-lo formado e bem de vida", enfatizou.

O que é ser codependente?

Segundo a psicóloga e especialista em dependência química, Roseanne Albuquerque, ser codependente é uma condição emocional, psicólogica e comportamental, uma maneira destrutiva de relacionar-se, uma espécie de "prisão afetiva" onde os familiares passam por diversos estágios. "O familiar vai passar pelo estágio de negação, preocupação, vai buscar ser o responsável pelas atitudes do dependente e exaustão emocional surgindo assim a condição emocional de sentir raiva, culpa, medo e vergonha", informou.


Conforme a especialista é importante que os familiares busquem ajuda especializada com grupos de autoajuda, informativos e terapia com profissionais da área de dependência química. "Os grupos vão fortalecer os familiares para buscarem reconhecimento das suas limitações e do seu papel diante do dependente estimulando e promovendo uma melhor qualidade de vida", comentou Roseanne.

A especialista também explicou que a terapia vai ser um suporte psicólogico promovendo a conscientização e trabalhando todos os estágios da codependência.

"A terapia vai trabalhar, por exemplo, com os estágios da negação, preocupação com o dependente e com a condição emocional de raiva, culpa, medo e vergonha", explicou Roseanne.

Roseanne também enfatizou que é a codependência não é considerada doença, pois não é classificada no CID10. "Mesmo não sendo considerada doença, a codependência apresenta as mesmas características do processo de dependência química, visto que o codependente é uma pessoa que tem a vida fora de controle por viver uma relação disfuncional com o dependente necessitando também de tratamento", finalizou.

Ajuda é possível

A reportagem entrou em contato com a Secretaria de Estado de Prevenção à  Violência (Seprev) que informou que a rede não atua apenas na recuperação do dependente químico, mas também realiza semanalmente encontros com familiares dos acolhidos e ex-acolhidos, para que eles saibam lidar melhor com a dependência química e estejam preparados para a reinserçao familiar e social após o período de acolhimento.

Os encontros são coordenados por psicólogos e assistentes sociais da Seprev, através da Superintendência de Políticos sobre Drogas e que ocorrem na sede do Centro de Acolhimento, na rua Capitão Samuel Lins, no bairro do Farol. Semanalmente, 25 famílias participam das reuniões de forma voluntária. 


Nas reuniões, que são realizadas todas as terças-feiras, os participantes podem expor suas experiências, queixas e angústias, e de forma dinâmica, os técnicos da Seprev realizam intervenções que podem ajudar na solução dos conflitos apresentados.

Segundo a Seprev, a intervenção ajuda na diminuição de angústias e também na sensibilização dos familiares quanto ao aspecto emocional que envolve toda a movimentação de uma família com problemas de dependência química.

Atualmente, a Rede Acolhe da Seprev, mantém aproximadamente mil dependentes químicos que buscaram tratamento gratuito de forma voluntária em uma das 37 comunidades acolhedoras credenciadas ao Governo de Alagoas.

 

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