95f8c53d ee15 407b 8ebd 98310473a00d

 

Ruth Manus escreve e o blog compartilha:

Alguém sabe alguma coisa sobre os mortos na Somália?

Quatro dias depois do atentado terrorista em Mogadício, capital da Somália, sabe-se que há mais de 300 mortos, mais de 400 feridos, centenas de desaparecidos e centenas de pessoas irreconhecíveis por conta das queimaduras causadas pela explosão.

Obviamente isso não ganha destaque nas nossas manchetes. Evidentemente não há acompanhamento em tempo real sobre as buscas, sobre o estado de saúde das pessoas, sobre o que aconteceu com os responsáveis pelas explosões, nem sobre as medidas tomadas pelas autoridades.

Não há nenhuma matéria do gênero “quem são as vítimas do ataque terrorista na Somália”. Não há fotos de cada um dos mortos, dizendo se eram solteiros ou casados, quantos anos tinham, se deixam filhos ou com o que trabalhavam. Ninguém está interessado neles.

Nos ataques a Paris, Barcelona, Madri, Manchester, Los Angeles, todos os mortos tinham rosto, profissão, história, família. Cada um deles mereceu alguns segundos da nossa atenção e algumas linhas nos jornais. E, acima de tudo, todos eles “poderiam de ser um de nós”.

Já na Somália, não. Parece que neste caso basta uma solidariedade genérica e não individualizada. Porque o atentado é triste, mas as mortes custam muito menos- quase nada- para o mundo. A seca na Somália, os quase 800 mil refugiados, as quase 300 mil crianças gravemente desnutridas definitivamente não tocam o mundo, nem de longe, como toca a morte de uma única pessoa branca.

É quase como se o mundo dissesse, nas entrelinhas, que o destino deles já era esse. A morte era uma questão de tempo, então tudo bem. Ninguém quer saber quem estava naquele hotel, naquelas ruas, naquelas lojas. Poderia ser um de nós? Ninguém quer saber que mães estão chorando a perda dos seus filhos, nem quantos homens jovens ficaram viúvos, nem qual a idade das crianças que morreram carbonizadas em Mogadício.

Notícia de morte negra não vende. A não ser que seja o negro morto pela polícia depois de eventual assalto. Essa vende. Na verdade, notícia de vida negra também não. Vida é um conceito relativo. Por isso as mortes da Somália não importam, mas também não importa a seca, a fome e a guerra civil que segue assombrando os sobreviventes. Porque vivos eles também seguem sem rosto. Viva a nossa solidariedade. Viva o #prayforwhitepeople. Viva a nossa generosidade que confirma que gente branca morta segue valendo mais do que gente negra viva.

 

 

Fonte:http://emais.estadao.com.br/blogs/ruth-manus/quanto-vale-uma-vida-se-a-pele-nao-e-branca/