Foto: Reprodução / Facebook 006b9fd4 56ec 42c5 805f e2f771633f53 Renan Calheiros

O senador Renan Calheiros (PMDB) acusou o presidente da República, Michel Temer (PMDB) de usar do “toma lá da cá”, na discussão da portaria do Ministério do Trabalho que modifica as regras para fiscalização do trabalho escravo. De acordo com Calheiros, houve uma contrapartida do presidente em troca do voto da bancada ruralista. 

Todas as vezes em que o nosso presidencialismo de coalização é acusado de barganhas com o Congresso Nacional em favor dos interesses do Executivo, por forca do que já vi na História, eu tendo a acreditar e a desconfiar de todos. 

É bem possível que Renan Calheiros tenha razão. 

Todavia, o engraçado é o experiente senador Renan Calheiros - com seus inúmeros tentáculos em Brasília e mestre do xadrez político - achar que isso é novidade. 

Em um país de mensalões e petrolões, o “toma lá, da cá” que faz do Congresso Nacional uma feira de cargos ao ar livre não é novidade. Eis uma das razões pelas quais defendo o parlamentarismo. Não porque seja perfeito, já que nenhum sistema político é perfeito, mas daria - a meu ver - mais cara de República à República das Bananas. 

Naquela época, entretanto, quando os governos eram petistas não se viu a comparação tão forte de Renan Calheiros, chamando o Congresso de “Rua 25 de Março”, numa referência ao comércio popular de São Paulo. Por sinal, a maioria dos trabalhadores honestos daquela região não merecia tal comparação. São pequenos empreendedores - em sua grande maioria - que buscam o seu sustento sem depender de favores estatais. Muito pelo contrário, já que os que andam na linha encontram todas as dificuldades do mundo para empreender. 

Chamar o Congresso atual de Rua 25 de Março é uma agressão à Rua 25 de Março. Vale a hashtag- em tempos de internet - #SomosTodos25deMarço. 

Mas se hoje, temos negociações que merecem ser adjetivadas por Renan Calheiros, como chamaríamos o recente processo de impeachment em que uma negociação, envolvendo Renan Calheiros (que era o presidente do Senado na época), brindou a ex-presidente Dilma Rousseff (PT) com seus direitos políticos após perder o mandato? Ali, a Constituição Federal foi desmembrada. Não houve negociação? Foi puro convencimento?

A política nesse país não é para os fracos! 

Renan Calheiros está coberto de razão quando diz que por conta de negociatas “a sociedade brasileira, a cada dia, perde o respeito pelo Legislativo”. Eis aí uma das razões pela qual a Operação Lava Jato tem tanto apoio popular, pois são momentos que se repetem na história recente independente do presidente no poder e com foco na manutenção de um estamento, o que muda são aliados e opositores, mas nunca discursos. São sempre os mesmos 50 tons de cinza. 

Acerta Renan quando fala que isso passa pelo troca-troca de membros dos partidos na Comissão de Constituição e Justiça, ou nas negociações pela liberação de emendas e por aí vai. Só esquece Renan Calheiros que a fórmula é antiga. Não foi inventada por Michel Temer e chegou a ser institucionalizada pelos ex-presidentes Lula e Dilma; ou ninguém lembra das construções de alianças do lulopetismo?

Ah, Renan Calheiros também tem razão quando diz, mesmo após a comparação, que o Brasil não é a 25 de Março. Tem razão! Antes o Brasil fosse uma 25 de Março em que as negociações ocorrem a luz do dia, as pessoas pagam pelo que veem e levam o que compram, não há politicagem alguma nem vantagens e desvantagens numa democracia em que o poder emana do povo, mas contra ele será exercido. 

Estou no twitter: @lulavilar