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O escritor Marcel Novaes lançou, pela Três Estrelas, a obra Do Czarismo ao Comunismo. Conheci o trabalho de Novaes ao ler O Grande Experimento, que traz a história da formação dos EUA e nos leva a uma rica discussão sobre indivíduo versus Estado, no sentido de entender com os americanos se relacionaram com a concepção da liberdade e a limitação do poder do Estado em suas vidas. 

Por sinal, uma discussão que era travada pelo alagoano Tavares Bastos, ainda no século XIX ao observar o federalismo e o descentralismo como importantíssimos para o desenvolvimento econômico e moral de uma sociedade. No caso do alagoano, a discussão está na obra A Província. 

Quando li o primeiro livro de Novaes fiquei encantado com a riqueza de detalhes associada à objetividade e ao rigor histórico. “Do Czarismo ao Comunismo: As revoluções russas do início do século XX” não decepciona. Mantém a mesma pegada e já começa com um acerto no título. 

Em geral, quando nos deparamos com um livro sobre o período, enxergamos a palavra “revolução” no singular. Parece bobagem, mas sempre critiquei isso. É que a dimensão dos acontecimentos requerem de fato falar em revoluções, tendo um germe - para o que se viu em 1917 - já sendo plantado no ano de 1905, diante das instabilidades que o czar Nicolau enfrentava. Marcelo Novaes acerta ao recorrer ao plural, por justamente falar deste ano e seus acontecimentos, da revolução de fevereiro, da de outubro e do processo de Guerra Civil que se instaurou na Rússia até chegar à URSS. 

Novaes nos apresenta os acontecimentos de forma didática e com uma objetividade ímpar que faz com que o livro seja acessível para estudantes do Ensino Médio sem perder o caráter magistral da obra para quem também quer aprofundar no assunto e cobra um maior rigor acadêmico. Logo, é vasto nas informações, mas acaba sendo ali uma das melhores portas de entrada ao assunto também. 

Estruturado em quatro capítulos, Novaes inicia falando da Rússia czarista. Um marco histórico é o próprio início da “casa” dos Romanov, que já se dá dentro de um contexto extremamente instável que leva Miguel ao trono em função da descendência com a esposa de Ivan, o Terrível. 

Os Romanov assumem uma Rússia sem comando e totalmente dissociada dos demais continentes. Um mundo a parte dentro do mundo. Não por acaso, o primeiro tópico desse capítulo é chamado de “difícil começo” para só então se ter a criação de um império, que ainda enfrenta no século XIX conflitos internos e externos. Não bastasse isso, a história dos Romanov - todo os personagens dessa família que estiveram em posição de comando  - é cheia de contradições e absurdos. Alguns desses foram folclorizados ao extremo, como a mística e curiosa figura de Rasputin, diante da sua importância para a última família imperial. 

Na segunda parte do livro, Novaes destaca a importância do ano de 1905 - e o seu Domingo Sangrento - para os desdobramentos dos acontecimentos posteriores que trouxeram uma das maiores tragédias do século XX. E Novaes está coberto de razão quando afirma, logo no início da obra, que “boa parte dos eventos mais importantes do século XX, como a criação da União Soviética, o surgimento do fascismo e do nazismo, da Segunda Guerra Mundial, a Revolução Chinesa, as guerras da Coreia e do Vietnã, as ditaduras militares na América Latina, a Guerra Fria, o Taleban, o Muro de Berlim, só podem ser entendidos se levar em conta a Revolução Russa e suas consequências”. 

Durante a obra, o escritor prova a tese levantada. Um dos pontos fortes - inclusive - é mostrar onde estava cada personagem. Muitos deles, que ganham pouco destaque nas escolas, são de fundamental importância, como Julius Martov, que era um líder menchevique respeitado, além dos próprios Lênin e Tróstsky, sempre tão romantizados por alguns. Apresentar em detalhes os papéis dessas figuras ajuda a entender porque - em um determinado momento do século XX - passaram a existir mais movimentos de ebulição na Rússia que qualquer outra coisa. Uns mais radicais, outros menos radicais. E assim se teve um golpe sobre o golpe, quando Lênin tomou o poder. 

Quem se aventurar na obra também vai perceber a relação entre Alemanha e Rússia. Novaes trabalha o tema com precisão, incluindo o retorno de Lênin às vésperas da revolução bolchevique e a importância dos “germanos” para isso. Existiram, portanto, interesses para além das fronteiras, principalmente em função do contexto ser o da Primeira Guerra Mundial. Marcel Novaes aborda também a figura de Kerensky, que subiu ao poder em fevereiro de 1917. Outra figura sem a qual é impossível entender os detalhes. 

“A volta de Lênin e de outros líderes bolcheviques (entre os quais Karl Rdek e Grigori Zinoviev) para a Rússia foi financiada pelo governo alemão, que tinha interesse na defesa que eles fariam do fim imediato da guerra em sua pátria”, coloca o escritor. Isto não significa dizer que o interesse de Lênin era o pacifismo. Não mesmo. Os interesses eram outros e, como o próprio Lênin coloca na obra Estado e Revolução, o processo de tomada de poder seria violento e não haveria como ser de outra forma em função das teses bolcheviques de fundar o “novo homem”. 

Em resumo, a obra de Novaes - de forma bem objetiva - sai colocando os “pingos nos is” das discussões que ainda surgem no Brasil sobre a A Revolução Russa (no caso: as revoluções). Por isso, torna-se uma obra essencial nos dias atuais. É um resgate histórico cirúrgico que aborda os primeiros momentos da “nova Rússia” e da criação da “URSS”. A violência do processo está em seu gênesis, bem como a consequente repressão, agressão a todo tipo de direito humano, os milhões de mortos subsequentes e a perseguição aos chamados “inimigos”, que poderia ser qualquer um diante do “estado policialesco” que foi fundando por Lênin e aprofundando por Stalin no culto a si mesmo. 

Não entro em detalhes nesse artigo, pois minha preocupação é falar da estrutura da obra que possibilita um verdadeiro passeio pelo czarismo e pelo surgimento do comunismo russo. Se você tem curiosidade sobre o assunto, não deixe de ler essa obra. Se possui filhos no Ensino Médio, não deixe de presenteá-los com esse livro. 

A leitura é prazerosa, sequenciada, cronologicamente bem amarrada, com respeito aos fatos históricos, repleto de fontes primárias que podem ser consultadas. Além disso, com uma extensa biografia que vale a pena conferir. Das fontes nas quais Marcel Novaes bebeu, eu destaco três que também li e sei que são riquíssimas: Gulag: A História de Anne Applebaum; A Grande Fome de Mao de Frank Dikkotter e A People`s Tragedy de Orlando Figes. 

Adquira o livro e boa leitura! 

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