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Multiplicidade de gêneros, reparações como resposta ao racismo, relativismo cultural (não há culturas melhores ou piores), educação em lugar de repressão para crimes. Eis um resumo da esquerda comportamental, seguidora da filosofia pós-moderna. Eles acreditam em opressores e oprimidos e se colocam ao lado dos oprimidos, mesmo que, e talvez principalmente, eles próprios não sejam oprimidos. Heteronormatividade, racismo, superioridade cultural, repressão do sistema judicial, todos símbolos de opressão, todos com muitas vítimas oprimidas.

Não, eu não aceito a ideia segundo a qual “a ciência é só um discurso”, como propôs Derrida, um dos guias da esquerda comportamental. E já expus por que não aceito aqui: http://femininoealem.com.br/22697/sexualidade-nao-e-construcao-social/. Tirando esse porém, sou contra o racismo; entendo que na sexualidade de um adulto ninguém deve se meter desde que tal adulto respeite o princípio de manter apenas relações consensuais; há culturas com valores morais mais condizentes com os meus e mais propensas à harmonia e à prosperidade de seus indivíduos, mas reconheço que juízos na linha “piores” e “melhores” não são uma boa régua para medir culturas; e penso que a polícia ou o sistema judicial não devem se vingar de ninguém, apenas proteger a sociedade. Logo, não sou um antagonista absoluto das causas da esquerda comportamental e, como seus militantes, sou inimigo de qualquer forma de opressão, a começar pela opressão exercida por um Estado absoluto sobre seus jurisdicionados.

Tenho muitos amigos militantes de causas da esquerda comportamental. Quando tenho ocasião de conversar com mais tempo com algum deles, sempre pergunto: se você, como eu, odeia a opressão, porque apoia causas caras a notórios opressores, por que não se liberta da opressão representada pelo socialismo marxista-leninista?

A um militante da esquerda comportamental, artista, homossexual e professor de uma universidade federal coloquei uma objeção: a liberdade sexual só existe em culturas regidas pelo liberalismo econômico, do Japão à Colômbia, do Canadá à África do Sul. Em países socialistas alguém como ele não seria admitido como professor universitário, a menos que escondesse sua sexualidade. Nenhum homossexual assumido jamais ocupou um cargo de direção num país socialista. Che Guevara, por exemplo, odiava os homossexuais e executou muitos deles pessoalmente pelo simples fato de serem homossexuais. Ele não teve resposta a minha objeção, mas ficou de pensar no assunto.

Quanto às mulheres, disse e repito: nunca nenhuma mulher governou um país socialista nem teve posição destacada de poder. Para dar um exemplo, dos 30 ministros do governo em busca do socialismo da Venezuela, apenas quatro são mulheres (turismo, cultura, povos indígenas e, como seria de se esperar, ministra para a mulher e igualdade de gênero). Só um lugar sem igualdade de gênero precisa de uma ministra para a igualdade de gênero. Se é verdade que nos países regidos por princípios liberais não há muitas mulheres no comando de grandes empresas, são muitas e crescentes as exceções. Nos países socialistas, nenhuma. Se admitirmos que há uma opressão das mulheres pelos homens, então devemos admitir que com socialismo isso só piora. 

O livre mercado é naturalmente refratário ao racismo. Não importa o tom de pele ou a etnia de quem produz ou consome, importa o valor agregado numa ponta e o potencial de consumo na outra. A causa socialista nada tem de combate ao racismo, o próprio Marx era racista. A diferença entre o socialismo e o liberalismo é que sob governo socialista é proibido tocar no assunto para fins internos. A lógica talvez guarde semelhança com a pensamento do mercado: todos são iguais. Porém sabemos que no socialismo há desigualdade, marcante, entre quem exerce mais ou menos poder. No único caso até aqui de regime socialista em um país com semelhantes proporções de negros e brancos, Cuba, a desigualdade de poder tem um componente racial em desfavor dos afrodescendentes (40% da população cubana, ninguém no círculo mais elevado de poder). Quanto à mácula da escravidão (de todo condenável, concordo), vale lembrar que o Ocidente não inaugurou a escravatura. O Ocidente inaugurou, a partir de um movimento cristão e conservador, a abolição da escravatura. Se o racismo subsiste, há muitos remédios possíveis, e tudo começa com a liberdade para debater sobre eles. Eventualmente, implantá-los, pois cotas e reparações só existiram até aqui em democracias seguidoras de princípios liberais. 

O mercado integra as sociedades de culturas diversas. É graças ao livre mercado que uma nação como a Indonésia saiu da miséria quase absoluta para uma sociedade majoritariamente de classe média. A diversidade cultural é louvada pelo mercado, a começar pelo próprio mercado cultural. Pense em jazz, rap, funk, pop. Nas paradas de sucesso… Já na União Soviética de Stálin ou na China de Mao, as particularidades étnicas foram combatidas a ferro e fogo. Voltando a nossos dias, os índios da Venezuela, contemplados com um ministério só para eles como já vimos, estão fugindo para a Colômbia e o para o Brasil. Deveriam estar felizes com o paraíso socialista, não?

Agora, a violência policial e o sistema legal punitivo. É muito simples: ou uma polícia e uma justiça eficientes dão conta de evitar e combater o crime ou as sociedades o farão de uma forma ou de outra, via de regra “com as próprias mãos”. Logo, uma esquerda que se preocupe com direitos humanos (eu sou de direita e me preocupo muito com eles) deve se preocupar também com um sistema legal justo, com ampla defesa, mas sem impunidade. A sensação de impunidade institui a pena de morte na prática, o rito sumário que as máfias e os vingadores, na ausência do Estado, aplicam sem ligar para o direito de ninguém. Logo, conter os violentos por meios legais, sem pena de morte, não deve ser uma bandeira de esquerda ou de direita, ou melhor, deve ser uma bandeira de esquerdistas e direitistas que sejam contra alimentar círculos viciosos de violência gerando mais violência, vinganças sem fim.

Ainda sobre polícia, justiça, crime e castigo, não se tem notícia de estado socialista que tenha mandado criminosos à escola e não ao presídio ou, mais comumente, ao cadafalso. Socialismo nada diz sobre segunda chance a quem se mostra violento. Se a criminalidade comum era baixa na União Soviética é porque a repressão era eficaz, não porque reeducassem os criminosos, o que até se fazia: em campos de concentração. Na dúvida, uma visita às penitenciárias cubanas seria muito instrutiva a defensores de direitos humanos. 

“Ah, mas a direita é contra todas as nossas causas, é machista, homofóbica, intolerante e defensora da supremacia moral cristã”, o esquerdista comportamental diz, de olho em Trump. Bem, comecemos pelo fato de que Trump é apenas declaradamente cristão e tem a maioria do voto cristão, mas isso passa longe de seu perfil. Alice Weidel, líder da direita alemã, é lésbica assumida. Continua com o fato de que a direita liberal ou conservadora, democrática, tem muitas restrições à chamada nova direita representada por Trump, Marine Le Pen, Alice Wiedel e, cá entre nós, Bolsonaro. E é absoluta adversária de um tipo fascista (fascismo mesmo, original e único, italiano) como Beppe Grillo. 

Quanto à moral cristã, boa parte da direita, incluindo não seguidores da fé cristã, entende que prestou e presta bons serviços à humanidade. O balanço dos quase dois milênios de cristianismo indica a construção de sociedades tolerantes e livres, sociedades que permitiram, pela primeira vez na história das sociedades complexas, a igualdade legal de gêneros, a liberdade de opção sexual, a convivência e o respeito a culturas diversas e o devido processo legal como remédio à violência em lugar da simples vingança. 

Tenho lá minhas poucas divergências com a esquerda comportamental no que diz respeito a comportamento. Mas não se trata aqui de eu ser oprimido por tais divergências ou que eu represente o papel de opressor, não o aceito. O que me pergunto e seguirei perguntando a meus amigos da esquerda comportamental é por que, se tão inimigos da opressão, estão unidos aos defensores da mais mortífera e cruel opressão já registrada na história humana? Libertem-se dessa opressão e poderemos tratar daquilo que não é nem opressor nem oprimido, poderemos debater sobre comportamentos.