Desde os primórdios, o poder da Igreja Católica se confunde com os rumos da vida pública no Brasil. A interferência no cotidiano nacional alcançou níveis que nenhum outro segmento social jamais conheceu. Nos tempos coloniais, no Império e na República, os interesses nada sagrados dos senhores de batina sempre tiveram força de lei. As marcas dessa tradição estão aí.

 

Antes de explicar por que escrevi o óbvio nas linhas anteriores, lembro um dito popular que traduz o poderio católico na formação do país. Você já deve ter lido a frase “vá reclamar com o bispo”. De onde vem isso? O secular conselho, que se popularizou na boca do povo, traduz o longo domínio que os representantes dessa religião tiveram (e ainda têm) sobre as instituições nacionais.

 

Na mesma linha da máxima que se consagrou na fala popular, o leitor também deve conhecer outra verdade esculpida nas ruas: na pequena cidade do interior, quem manda é o delegado, o prefeito e o padre – sendo que o religioso está acima das outras duas autoridades. Ou seja, lidamos com algo cujo alicerce é tão resistente quanto a crença inabalável nas profecias e nos mandamentos.

   

Corta para outubro de 2017. Digamos que você está em casa, por volta de sete da noite, tomando um café e conversando potoca sobre o Fora Temer, por exemplo. Aí começa o telejornal local na afiliada da TV Globo. Para sua surpresa, entre uma dica imperdível sobre qualquer besteira e uma receitinha gourmet, a edição termina com uma reportagem sobre o Vaticano e Nossa Senhora.

 

Você fica imaginando como nasceu essa pauta, e por que estamos assistindo a uma reportagem produzida por uma equipe de São Paulo, que foi até a Itália para emplacar sua historinha aqui, no noticiário de Alagoas. É simples. A decisão editorial passou longe do departamento de jornalismo da afiliada. Os assuntos do lugar em que vivemos são barrados em nome do interesse da Globo.

 

Além de revelar a completa distorção no uso da concessão pública de um canal de TV, a reportagem – anunciada como a primeira de uma série – prova que o poder da Igreja Católica continua praticamente o mesmo da era colonial. O pretexto para essa lamentável iniciativa são as homenagens à padroeira do Brasil. O que temos, na verdade, é uma pauta particular imposta arbitrariamente.

 

Repare que usar o jornalismo para reafirmar valores e princípios específicos, próprios de um segmento com amplos poderes, não é algo irrelevante. É um abuso escandaloso por parte de uma imprensa que se submete, porcamente, aos piores cacoetes da nossa velha elite. Exagero? Garanto que não. Considero que estamos diante de um pecado mortal – e nem uma reza forte dá jeito nisso.