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O repórter aparece com aquela cara ensaiada que mistura medo e indignação e solta a frase de efeito: “Só este ano já ocorreram mais de 270 tiroteios em massa nos Estados Unidos” e, sem perder o fôlego, na mesma tacada, emenda: “Lembramos que aqui qualquer um compra um fuzil!”. Quantas vezes vimos, ouvimos e lemos tal afirmação nos últimos dias? Incontáveis. Mas, afinal, de onde saiu esse número assustador? Bom, vejamos…

Antonio Gerardo Rodriguez foi cercado pela polícia de Laredo, Texas, após pesar sobre ele a acusação de ter assassinado a namorada. Rodriguez, sem ter como escapar, abriu fogo contra os policiais e feriu três agentes. Ato contínuo, é morto pela polícia que revidou o ataque. Você consideraria isso um mass shooting, traduzindo, um tiroteio em massa? Imagino que sua resposta deva ser um sonoro “não”. Pois bem, o problema é que para a ONG “Gun Violence Archive”, fonte do número mágico citado acima, isso foi, sim, um mass shooting. Casos assim são propositadamente usados para inflacionar os dados sobre esse tipo de ocorrência nos Estados Unidos, dando ares de coisa apavorantemente corriqueira.

Não são apenas casos assim que são contabilizados pela ONG, há, ainda, outros tantos, que são claramente casos típicos de guerra de gangs e acerto de contas entre criminosos: quatro ou cinco bandidos passam de carro atirando na casa de seus desafetos, cena que qualquer um já viu inúmeras vezes em filmes e séries de TV. Também não faltam assaltos que acabam em tiroteio, destes que ocorrem inúmeras vezes por dia aqui, no Brasil, como o assalto a uma loja de venda legal de maconha em Los Angeles, que acabou com um segurança morto e outras pessoas feridas. É óbvio que não se tratam de mass shooting, mas a verdade pouco importa na guerra de narrativas para provar que as armas são as grandes vilãs da história.

O mais grave de tudo é que a fonte primária desse pessoal é a própria imprensa! Ou seja, se não foi publicada não ocorreu, o que varre para baixo do tapete ideológico milhares de vezes em que as armas são usadas para defesa, mas que simplesmente não são noticiadas pela mídia, dando motivo para a falsa afirmação que as armas servem para assassinar, para cometer crimes, mas quase nunca para legítima defesa. Essa mentira eu já expus no artigo “Legítima defesa com armas não é um mito” e destaco aqui o seguinte trecho:

“Uma das únicas pesquisas comprovadamente sérias a este respeito foi realizada pela equipe do Dr. Gary Kleck, criminologista da Universidade Estadual da Flórida, que descobriu que armas são usadas em legitima defesa aproximadamente 2,5 milhões de vezes por ano nos EUA. Essa e outras conclusões estão no livro Armed Resistance to Crime: The Prevalence and Nature of Self-Defense with a Gun.”

A discrepância entre as ocorrências reais e as apresentadas pela ONG é gritante quando comparamos com os números oficiais do FBI. Em 2015, por exemplo, a agência federal americana identificou vinte ocorrências; a Gun Violence Archive conseguiu transformar isso em 333!

Se o critério absurdo, desconexo e desonesto de quatro mortos ou feridos para se classificar um mass shooting fosse adotado no Brasil – país com mais de 60 mil assassinatos e sabe-se lá quantos feridos – nosso país, não tenho dúvida, figuraria como campeão absoluto e disparado de tiroteios em massa, e a guerra de narrativas teria que se adequar para culpar tudo e todos menos aquele que puxa o gatilho, joga um caminhão sobre uma multidão ou incendeia uma creche.