Já escrevi aqui sobre a República das Togas, esse mundo paralelo também conhecido como Poder Judiciário. Por lá, habitam brasileiros com privilégios inimagináveis para o cidadão comum. Rendimentos abusivos e benesses de toda ordem são apenas um aspecto de uma coleção de hábitos incompatíveis com a realidade da maioria da população. Mudar esse quadro parece até impossível. Poucos têm disposição de enfrentar essa encrenca. 

 

A sociedade precisa de um Judiciário forte, sim. Precisa de um Judiciário independente, também sim. A Justiça é garantia essencial no cumprimento da lei para a normalidade da vida democrática – algo que ninguém deve contestar. O que não pode é um Judiciário intocável, acima das obrigações válidas para todos. E é nesse ponto que as coisas estão (e sempre estiveram) fora dos eixos.

 

Penso no desembargador aposentado Antonio Sapucaia e num capítulo único na trajetória do Judiciário em Alagoas. Em 2003, quando tomou posse como integrante do Tribunal de Justiça, Sapucaia proferiu um discurso que se tornou histórico instantaneamente. É um documento incomparável para se entender esse mundo paralelo a que me referi no começo do texto.

 

Por um desses acasos da vida, o discurso do desembargador rebelde repercutiu diretamente no meu trabalho como jornalista. Eu era então editor de política em O JORNAL. Era uma sexta-feira, se não me engano. No fim da tarde, o editor-chefe naquele período, o experiente Roberto Tavares, que havia deixado Recife para assumir o jornal alagoano, me chamou em sua sala. Era grave.

 

“Célio, dá uma olhada nisso aqui; acho que é uma bomba”, disse o chefe ao me entregar uma papelada que ele acabara de receber por fax. Era o discurso de Sapucaia, que estava tomando posse naquele momento no TJ. Assim que avancei na leitura, concordei empolgado: era uma bomba. Eu mesmo escrevi a matéria sobre a posse do cara mais invocado que o tribunal já teve de engolir.

 

O discurso é uma peça que alia denúncia, coragem, lucidez e ironia. Sapucaia chegou com o pé na porta, sem as mesuras e os salamaleques típicos dessas ocasiões. Conseguiu irritar todos os colegas ainda na posse, antes mesmo do primeiro voto nos julgamentos dos quais participaria no futuro. Mas, além do próprio TJ, o discurso também foi implacável com a OAB e o Ministério Público.

 

Para nossa satisfação adicional, lá em O JORNAL, no dia seguinte verificamos que a concorrência simplesmente silenciara acerca daquela bomba – o assunto sobre o qual produzi uma das reportagens que mais gostei de escrever até hoje. A cúpula da empresa recebeu reclamações da parte dos que se sentiram atingidos pelas palavras de Sapucaia. Fui chamado a dar explicações.

 

Ao conversar com o diretor-executivo, afirmei que não havia o que explicar. Era um fato grave e, além disso, apenas cumpri uma pauta da melhor maneira que sabia fazer. Alegavam que o tom da reportagem tinha sido “um pouco forte”. Disse que havia ressaltado os pontos mais relevantes do documento. Além da chateação, não houve represália. Não havia nada a fazer.

 

Para quem tiver curiosidade, o discurso de Sapucaia pode ser lido na internet. Um dos sites em que você encontra o documento é o Consultor Jurídico. A partir da leitura, passados 14 anos, vejam se o nosso Judiciário avançou muito. (Além do mais, o autor tem estilo. É um texto vibrante).

 

Há quem acredite que a Lava Jato, comandada por juízes, é a salvação do país. Tem feito estrago, é verdade. Muita gente denuncia até que estamos vivendo uma ditadura do Judiciário. Não acho. Mas, até agora, operação nenhuma triscou na República das Togas. O Brasil espera.